domingo, janeiro 31, 2010

Uma outra estação, ainda o penúltimo.

Cheguei nas últimas horas do dia, quando havia aquele tanto de laranja e vermelho no céu. O mar estava tranquilo, quase piscina, bem morninho. Cheguei tão cansado: cinco horas de estrada, duas barreiras despencaram, a embreagem do carro me passando susto. Desci a serra mastigando todos os medos possíveis. Das poucas certezas, a única era que não gostaria de reveillon repeteco do anterior. Não queria era passar a virada do ano pingando sangue, rendido à auto-piedade.

Quando cheguei, fui recebido com aquele sorriso imenso e doce. Aquela luz oblíqua do final de tarde acentuava esses traços ruivos, os olhos que só ali talvez seriam também verdes. Me puxou para uma daquelas caminhadas longas na praia, até o final. Fomos trocando idéias, essas pequenas coisas. Choveu, corremos como loucos. Segui-se um jantar, nós dois: camarões, risotos, boas energias. Mudo para Sampa em quinze dias - me disse - bom que nos veremos mais. Assim, coisas assim. Seria tudo perfeito, se não fosse por um único detalhe: o outro chegaria em dois dias.


domingo, janeiro 24, 2010

Uma Outra Estação, o penúltimo

Entre o Natal e o Reveillon, o telefone toca: segunda-feira, working-like-a-dog como o habitual. É interurbano e fico ali, matutando alguns segundos, pensando em qual DDD seria. Atendo, sorrio. Vamos tomar um vinho, assim, à queima roupa. E o que eu faço com essa bola de ferro aqui no pé, chamada minhas-obrigações-pequeno-burguesas, respondo em seguida. Escuto, doutro lado, uma risada gostosa. Ficou para o outro dia.

Veio, na madrugada, o inquérito de intenções. Vejam bem, sob este calor senegalês paulistano, qual conotação de um vinho plena segunda? Talvez um espumante, para fugir da rotina de nossas cervejas habituais a cada três meses, tão somente para dividir a vida e contar os movimentos: eu, o apê que se compra, dos rumos que se abrem; você, da perspectiva da mudança, de se fechar a porta para abrir outro mundo, sem cara ainda, sem chão. Ou talvez fosse só desculpa para relembrar outras noites, duas taças para se mandar o superego para esquina e cumprir, finalmente, todo o filminho ridículo que me ponho a dirigir por quase dois anos e meio.

O dia seguinte chegou, uma terça-feira árida de muitas opções. Acabamos no périplo noturno paulistano de cervejas, música alta, lugares conhecidos. Quase sempre mãos bem juntas dentro do carro, daquele aperto de dedos bem entrelaçados. Descemos naquele ponto em que tudo começou: eu, você, Rob Thomas, Snow Patrol. Você me diz: sabe, das noites que tive aqui a mais divertida foi aquela em que te conheci. Quis dizer: das noites que tive aqui, saiba que aquela em que nos conhecemos foi uma das mais doces que tive. Não disse, por alguns motivos. O principal, talvez, era o medo de que um amor platônico, o último que sustentava depois destes anos de realidade, virasse pó ao me ser negado. Também, por descobrir que você estava-dentro-de-uma-história-que-até-sabia-que-iria-acabar-mas-sei-lá-não-sei, penso que gosto mas não há muito futuro.

Daí, o impasse. Queria entender o movimento, queria ter o chão para saber onde pisar. Queria aquela história clássica das mãos que se encontram, da perspectiva que se criou em finalmente estarmos morando na mesma cidade para sermos felizes para sempre. Corta o filme, agora mulheres em tons pastéis e chapéus imensos - é dia, importante frisar - um dia perfeitamente iluminado, pessoas felizes, cachorros e crianças correndo num gramado verdejante. Sabem? Pois bem, nada disso. Eu tinha uma Sampa às quase quatro da madrugada, perigosamente bêbado, com uma dessas histórias cheias de significado escorrendo pelas mãos.

Não fiz, não mexi, como de habitual. Fiquei parado aguardando uma brecha clara, uma sinalização de verdade. E enquanto não aparecia, outras conversas iam acontecendo. Como clássico naquele período ocioso de fim de ano: e o Reveillon? Maresias e você? Maresias, também. Que bom que iremos passar a virada juntos...

Eu, já não tinha tanta certeza.

domingo, janeiro 17, 2010

O início

Fui no apê novo, avisar que a máquina de lavar nova chegaria. Coisa tão adulta, de ficar paquerando máquina de lavar seis meses, na vitrine. Na portaria, vejo que o paisagismo do prédio está terminado e ficou lindo. Sorrio, já já chego. A papelada do financiamento está rolando, finalmente, e minha esperança está que até o Carnaval estou por lá. Conto seis meses sem teto, roupas nas malas, vida nesta bagunça de não conseguir encaixar rotina sem ter algo para se chamar de lar. Semana que vem vou escolher piso. Ao ir embora, digo ao MASP que não se desespere: em breve chego para fitá-lo todo dia ao acordar, ao dormir, ao tomar aquela cerveja de noite para lentificar um pouco os pensamentos.

Fico feliz, mesmo na imobilidade. Parece que tudo está bem. Mesmo trabalhando tanto, ainda que exista o medo pequeno-burguês das contas a se pagar, do cartão de crédito ao final do mês. O telefone sempre toca, coisas boas vão acontecendo sem muito esforço. Por duas vezes escutei: quero trabalhar contigo, você é bom. Quero ficar sempre ao seu lado, você é doce. Reencontro passados, sem perigos. E se algo acontecer, estou de peito aberto. E quando nada acontece, até o silêncio é confortável.

De todas as certezas, talvez a mais forte é que 2010 começa com uma única proposta: libertária.

domingo, janeiro 03, 2010

Uma outra estação, parte 5

Veio Sampa, depois. Aquela clássica e chuvosa, de te gelar os ossos inesperadamente às três da tarde. Também aquela abafada, desértica, quase impossível de se sobreviver. O principal, uma Sampa sem tempo, sem horários. De permitir aquela cerveja pesada de quarta, sem a preocupação medíocre do dia seguinte e outras coisas bem leves e triviais.


Veio bem este tempo, sem expectativas. Tão bom Sampa com nada acontecendo, tanto de fora quanto de dentro. Foram dias de bagunça, sem planejamento. Como aquela sexta: vir ao Paraíso, tão só pra tomar cerveja. Até que se bebe bastante e a noite está lá, toda aberta. Lua não tinha, pois há pouco havia caído daqueles dilúvios instantâneos. Só sei que saímos, proposta simples de continuar bebendo na sarjeta. E bebemos. E voltamos pra casa, afinal, a proposta do dia era libertadora.


E enquanto todos estavam na cozinha sabe se lá fazendo o quê, ficamos. Num português irretocável, timing de humor na medida certa. Na janela, fumando. Entre pontos, entre silêncios. Entre olhares, naquele gesto lento de acender o cigarro alheio, de escutar o clack e a chama ficar dançando horas, iluminada. Peço outro, as mãos se tocam. O olhar, aquele de soslaio, até fica mais um tempo. Um carro ou outro corta a madrugada, são quase quatro. Até que as mãos se juntam, sem pudor. Sobem os braços, param na nuca. Pouco se fala, nem é preciso.

Inesperado, foi assim. E daí, no dia seguinte, você se olha no espelho e sorri destas possibilidades abençoadas: sem necessidade de ser excessivo, de bancar algo que não se é. De acontecer assim: cerveja na sarjeta, conversas sem segundas intenções. Ter a consciência que, para se encantar, só é preciso um bocado de sinceridade e transparência. Ok, talvez aquela Lua absurda tenha tido seu papel...