terça-feira, dezembro 28, 2010

2010

E se fosse um seriado, teria sido a melhor temporada de todas. Talvez, não para quem assista. E talvez tantos lampejos de felicidade sejam mal-vistos pela audiência, visto o tom habitualmente lúgubre e loser dos episódios prévios. Até tentei botar os pés pelas mãos, até tentei incorrer nos velhos e já tão citados erros pregressos. Porém, seguir era irresistível. Conforme seguiam-se os dias, caminhar até parecia fácil. Tanto carinho, tanto afeto. Tantas noites iluminadas, tantos espumantes terminados só pela simplicidade de comemorar o hoje, o que havia.

E que a audiência roeu os dedos, quis esbofetear o protagonista. Se fosse o bom e velho "Você Decide", até teriam escolhido o caminho da direita. Os roteiristas, no entanto, resolveram ser bondosos com o roteiro e colocaram, tão só, doçuras e levezes, destas coisas boas e bobas tão gostosas para serem alimentadas.

Encontrei a boa vontade de quem oferece o corpo para amortecer o possível tombo naquele salto mortal que se faz no trapézio, sem rede por baixo. Encontrei a cumplicidade de quem se arrisca pelo impulso de ver plot seguir em frente. Encontrei a compreensão entre cafés e cervejas, de quem não cobra nada além, nada além de um sorriso para manter as engrenagens girando. Encontrei, depois de tanta reza e tanto tombo, aquilo que sempre procurei por estes ermos caminhos: a benção do encontro, as referências cruzadas, as mãos postas na mesa, as tardes preguiçosas, o nada fazer que consegue ser melhor que quase todas as coisas do mundo.

Portanto, se houver episódio final de Reveillon: todos de branco e felizes, espumante na taça enquanto os fogos não estouram. Um grande abraço grato a todo elenco por ter participado de tanto sucesso em tão pouco tempo. E desejo que a temporada que segue seja tão brilhante para todos nós, seja na medida exata do que pedimos, sete vezes sete.

Um fantástico episódio para todos vocês.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Mea culpa

Viver anda me ocupando, minha gente.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Bem

Bem, sim, bem. Quando digo bem é bem-bem, bem mesmo, sabe? Mas, acredite, não vou ficar aqui dizendo de que a vida está sorrindo e depois de toda a confusão as coisas voltaram para os eixos. E, talvez, nem confusão seja a palavra correta: era aquele período das coisas se assentarem, como se estivesse tocando uma música que você não sabe dançar e se está no meio da pista. Pode vir aquela sensação de nudez extrema por não saber como se comportar ou fecha-se os olhos e vai-se dançando mesmo sem saber, adivinhando o próximo movimento na pura intuição até que a coisa vai, a coisa flui num crescendo, até que se perca o pudor e, veja, dança-se mesmo sem querer. Pois bem, dancei bem, tá tudo bem e só não vou ficar repetindo cada passo e cada virada porque não concordo com essa conduta de se ficar dizendo que a vida está melhor e plena, estou satisfeito e seguindo mesmo que se escorregue e chore de vez em quando, bem de vez em quando, não vou partilhar do exercício de jogar na cara milhares de felicidades com o intuito de magoar pelo brilho, pelo doce, pela mágica que tem acontecido diariamente. Não vou dizer que agora estou melhor assim, muito embora seja verdade. Direi tão somente: bem, talvez, bem raso, bem simples, atropelos e correrias, contas para pagar e o armário que não chega, as sextas que não acabam e, poxa, nem fui para Bali ou andei de transatlântico, nem tenho bebido tanto e talvez pensando em parar de fumar. Bem, fico bem em perceber que você está tão bem. A gente se cruza por aí.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Quase sem querer

Estou naquele momento em que não gosto de onde estou e não sei para onde vou. Consola-me somente o fato de que é transitório, é só dezembro e, não importando o que faça, tudo irá se organizar espontaneamente. Também, dentro de toda confusão, há tanto que me agrada e acalenta, tantas mãos firmes que me empurram para frente. Se me aborrece a vida de garoto de recados e a mediocridade da Academia, há sempre o domingo com Topa Tudo por Dinheiro para ser assistido ou aquela cerveja preguiçosa na Augusta me esperando trincando de gelada. Se não consigo suportar silenciosamente o tronco da escravidão branca, chego em casa nestes dias senegaleses e te espero em casa quase sem roupa enquanto a pizza, aquela da máfia siciliana, ainda não chega. Poderia estudar, mas tenho jogado tanto videogame. Podia ler um clássico, mas me satisfaço com as notícias de caos carioca ou navegando inutilmente neste mar de redes sociais. Espero que o tempo escorra até que eu assuma novamente o controle, mesmo que esse controle ainda não tenha cara nem horários. Só sei que quereria não trabalhar mais de sexta, queria acordar a hora que bem entender na segunda e permita que eu compre nossa cama de casal, os lírios do domingo, as viagens para o Rio.

Dentro de toda irritação, é em você que penso quando as coisas ameaçam sair dos trilhos.

terça-feira, novembro 30, 2010

Aprendi com a madrugada

(para Maria Anita Silva Leite)

Também aprendi com a madrugada. Acho que tudo de útil que aprendi foi na calada da noite, enquanto quase todos dormiam. Aprendi, nestas noites e noites que se repetiam, como meus passos podem soar torpes ao bater do elevador, entre o movimento de escolher o andar correto e o tilintar das chaves que saem do bolso.

Aprendi a beber ferozmente, mesmo que o dia seguinte fosse de escravidão branca. Aprendi a me sentir seguro, sob as luzes estroboscópicas, com minha solitária cerveja na mão. Aprendi o gesto lento de se acender o cigarro na janela e tragar fundo, soprando a fumaça para longe enquanto ali embaixo ninguém passaria. Aprendi a alimentar meus vícios e virtudes.

Aprendi com a madrugada sobre as solidões e os encontros. Construi vários universos por referências pontuais que apareciam, para ruir logo quando a manhã chegasse. Aprendi sobre a fugacidade das coisas, a capacidade de se ferir tocando, a fé de se insistir mesmo sem ter esperança alguma. Descobri a clareza em prosseguir sem caminho algum, só mesmo para manter os pés se guiando para algum lugar.

Aprendi a respeitar o tempo, ainda que ele flua na velocidade dos continentes. Respeitá-lo: os fatalismos, os descaminhos, as vertigens. Como cada segundo pesa quando a insônia chega mordendo os calcanhares. Aprendi a ficar palpitando na sarjeta na expectativa do algo vir. Também, a alegria do inesperado quando se queria tão somente destas coisas rasas e diminutas. A taquicardia de querer que os ponteiros corressem com vagar, sabendo que a madrugada tem dessas coisas vampirescas de sumirem com a luz do dia.

Aprendi um jeito de ser patético, mesmo sem querer. Aprendi o jeito de perder, mesmo sem pedir. E também aprendi sobre salvação, da alegria involuntária que se compartilha e sobe, meio balão, meio que brilha, meio que nos livrando destas nossas preocupações mundanas de empregos ou livros de ponto. Aprendi com a madrugada uma porção de coisas que se esvaem quando durmo e sei que permanecem por aqui, inconscientente, fazendo-me melhor. Aprendi com a madrugada a regular os passos, acertar a voz, encontrar tudo aquilo que mereço para seguir pelos dias e noites com a sobriedade necessária.

Aprendi com a madrugada coisas doces, duras, simples. Aprendi a conhecer meus demônios e a exata maneira de colocá-los de volta ao armário...

quarta-feira, novembro 24, 2010

Das levezas

Desfaço-me, então, em outras mil ternuras. Fico aqui mastigando solitário o perfume que deveria existir, mas na sua ausência, não está. Noite cai e penso que deveria estar bebendo algo, deveria estar com você por entre os dedos. Já é noite alta e, provavelmente, se escalasse a janela do seu prédio perceberia seu trigentésimo sono. Por aqui, não consigo dormir enquanto você não me deixa. Exasperação boa de querer o amanhã já logo para afagar, adular, uma lista imensa de coisas boas que tenho por aqui e não sei colocar de maneira objetiva. Só sei, quando tocar a campainha, saberei-as todas de cor e executarei-as, sem plano algum.

sexta-feira, novembro 19, 2010

O poder de domar o grande

Pela primeira vez joguei o I Ching num momento que não fosse de grandes dificuldades. Pela primeira vez, não joguei pensando em mim. Pertinente, como sempre, veio o 26: "O poder de domar o grande", sem nenhuma linha de mutação. É um I Ching bonito, sobre o "conceito de conter e sujeitar com firmeza". Que é preciso, sim, abrir mão sem perder a tenacidade - num eco das coisas que @lanborges disse dias atrás.

Gosto do I Ching por não me dar as respostas prontas.

terça-feira, novembro 16, 2010

Feriado

Ando, sim, imenso de alegrias. Destas até um tanto óbvias, quando Stuart começou os primeiros acordes de "Dirty Dream Number Two" e eu pensei comigo: como gosto dessa também, não esperava. Às vezes, dos mil pastéis de camarão devorados na Urca, no carbonara inesperado num meio-que domingo ensolarado na Bela Cintra. De lagartixar no parque, vendo Norah naquele tom de voz tão suave quanto natural, da dezena de cervejas na Frei Caneca. Caminhar sem rumo pelos arcos da Lapa, descer a Nascimento Silva cantarolando aquela música e fumar aquele cigarro lento na sacada, com a Barata Ribeiro abaixo de nós. Desabar sem nenhum pudor, seja em Copacabana ou na Bela Vista. Dormir, talvez só dormir, na benção do sono compartilhado.

Direi: há muito não era assim. E que bom que assim está sendo.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Para você que também sou eu

"It's hard to stay mad, when there's so much beauty in the world"

Todas as vezes que estou assim, digamos, "feeling sinister", sempre lembro daquela sacola de mercado voando no céu. Eu, você, talvez, tenhamos só um pouco mais de clareza do funcionamento das engrenagens. Não que isto signifique, necessariamente, que somos pessoas mais espertas. É daquela lucidez que nos é imposta em todas as noites que não dormimos, em todos os desapegos que somos obrigados a enfrentar cotidianamente. Da nossa imensa fragilidade e do milagre que é estar funcionando, com as baterias azeitadas, neste todo dia. Mesmo que estes cigarros que tragamos tão distraidamente são aquela bala a mais no tambor do revólver, nossas aventuras alcóolicas para liberar a mente também não são inócuas. Também sei que a felicidade é um intervalo entre duas tristezas, as pessoas tem a capacidade de serem cruéis e tudo mais poderia ser bem mais fácil.

Só não deixo que a beleza escape. Ainda que seja daquele exercício heroico em se bancar a Pollyanna quando se acorda. Ainda que não nos mereçam, ainda que o mal estar da civilização seja um convite pra se ficar dentro de casa bem acompanhado de tantos Buarques e Bethânias e Kunderas e Cortázares e tantos outros vivos & mortos que nos fazem tão bem e, mesmo quando machucam, tem seu carinho narcisista. Por exemplo, ainda que seja minha décima oitava hora acordado, não vou deixar de sorrir quando vejo aquela velhinha de vestido xadrez ou, rumando para aquele Iraque, lasco um "Honey Honey Honey" do ABBA só para me distrair deste trânsito maldito que nos engole.

Quero dizer que se há porque seguir seguindo e às vezes, só este fato, já deveria bastar. Se pudesse, colocaria-me na sacada, toalha na cabeça, enquanto você, surpresa, deixaria a máquina de escrever e olharia pela janela. Veria que eu tocaria violão, entretido com o ato e ali pela metade da música cantaria qualquer coisa assim: "there's such a lot of world to see, we're after the same rainbow's end". Mesmo que coisas assim não mudem o mundo nem façam girar os parafusos da existência, são destas pequenas alegrias proporcionadas que me guiam quando tudo ganha uns ares de estranhamento.

Não há como negar a vastidão do mundo, não há como não perceber sua beleza sutil. E, ao dizer tudo isso, percebo que digo com a pouca fé que tenho. Recuso-me a acreditar que nossos passos darão em destinos insolúveis. Por isso, só por isso, rendo-me ao meu otimismo diário e despropositado. E, em caso de emergência, até deixo você imaginar que sei tocar violão, tenho voz doce quando canto e respiro breve antes de engrenar o primeiro Moonriver da canção...

"And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life..."
(American Beauty)

segunda-feira, novembro 08, 2010

E o que esperar dos shows do Belle?

Revisando as setlists de sete shows da turnê "Write about love" (NY, Las Vegas, Los Angeles, Hollywood, México, Chicago e Toronto), dá para esperar que:

* eles tocarão de 18 - 21 músicas

* em quase todos, o show começa com o combo: I didn't see it coming (Write about love), I'm a cuckoo (Dear catastrophe waitress) e Step into my office, baby (Dear catastrophe waitress). Também são presenças certas: Piazza, New York Catcher (Dear catastrophe waitress), There's too much love (Fold your hands child...), The boy with the arab strap (idem) e Sleep the clock around (The boy wit the arab strap)

* tocam três ou quatro músicas do cd novo: além de I didn't see it coming, provavelmente também virão Write about love e I'm not living in the real world.

* o Tigermilk e o The Life Pursuit contribuem com uma ou duas músicas cada. Sukie in the graveyard foi tocada em quase todos os shows, às vezes substituida por Another sunny day. Do Tigermilk, não existe muito padrão. Já tocaram, nestes sete shows: We rule the school, Expectations, She's losing it e The state I am in.

* Do Fold your hands..., só esperar There's too much love mesmo.

* o clássico If you're feeling sinister contribui com três ou quatro músicas: Me and the mayor sempre fecha o show, normalmente precedida por Judy and the Dream of horses. As mais cotadas para os outros dois postos são, em ordem, Like Dylan in the movies, Get me away from here I'm dying e Mayfly.

* o Dear Catastrophe Waitress é, sempre, o cd mais tocado com quatro ou cinco músicas. Depois destas já citadas, esperar que também toquem If you find yourself caught in love e Lord Antony.

* os EPs são lembrados com uma ou duas músicas. Em ordem de frequencia: The Loneliness of a Middle Distance Runner (Jonathan David), (I Believe In) Travellin' Light (I'm a cuckoo) e Dog on wheels (Dog on wheels).

* eles costumam surpreender na setlist. Só espero que não inventem de tocar Mutantes de novo...

sexta-feira, novembro 05, 2010

#12 B&S Get Me Away From Here, I'm Dying (If You're Feeling Sinister)

With a winning smile, the boy
With naivety succeeds
At the final moment, I cried
I always cry at endings


Certo dia te encontrei na praça, destes dias ensolarados regados de cerveja. Você chegou bem tarde, quase com a noite caindo, num abraço terno. Há quanto tempo, sim, concordaria, há quanto tempo. Viria então o rosário das minhas desculpas esfarrapadas: do trabalho que atormenta, da rotina que morde os calcanhares, sabe? Saberia, sim. Diria que então também trabalhando tanto, às vezes naquelas torres imensas da Faria Lima com o trânsito todo paulistano se afogando diariamente, muito dinheiro, sabe? Sim, saberia e, então, falaríamos nos nossos apartamentos novos e nas agruras de quem caiu na ilusão da casa própria: falamos mal dos encanadores e eletricistas, naqueles infelizes funcionários da Net e dos colocadores de box, de como os sofás estavam caros. E o namoro? Bem, acabou e o seu? Vamos indo, você sabe, mil quilômetros de distância e outro resumo longo de idas, vindas, voltas. Sim, entendo. Sempre entendi. E ali pelas tantas, pela terceira cerveja sua, você diria: às vezes, fico pensando que te via mais quando morava no Paraná que agora, em Pinheiros. Concordaria, silencioso, destas coisas que eram e não são mais.

Não pertencer não diminui o significado. Entendo a pessoa que estou sendo pelas andanças que já fiz, nos becos que me enfiei. A (i)maturidade permite desapegar de certos comportamentos repetidos. Trocamos as músicas favoritas, trocamos nossas ilusões doces por outros idílios, guardamos as cartas nas caixas ao invés das paredes. E quando, de surpresa, coisas assim tentam invadir, é bom fitá-las por entre os dedos, contemplativo.

Get me Away batizou o primeiro blog, meu filho mais triste. Foi minha música predileta do Belle por muito tempo, retrato daqueles dias em que se queria tanto, sem destino. Hoje, engraçado, não é mais. O que não signifique que eu não abra um bom sorriso quando ela surge, desesperada no shuffle. A razão é diferente: sorrio, pensando que era, foi importante que fosse. Mas, agora, como é bom que seja só algo circunscrito nestas lembranças sentimentais...

quinta-feira, outubro 28, 2010

#11 B&S Lazy Line Painter Jane (idem)

You are sleeping at bus stops
Wondering how you got your name
And what you're going to do about it


Amarelo, uma vez você me disse. Discutíamos sobre cores e humores: estava azul, segundo eu. Azul desses marinhos, profundos e marítimos, naquela placidez que existe entre as tempestades. Você sorriu, jogou os cabelos castanho-claros para trás e discordou, educadamente. Eu seria amarelo, pelo contrário. Amarelo tranquilo-energia, que vibra, brilhando sem precisar forçar. Conversávamos sobre isso e quase todas as coisas do mundo. Falávamos sobre praia & sol e te trouxe dos trópicos um daqueles cacos de vidro que ficam rolando na areia e, por isso, não ferem quando se aperta forte. Escrevíamos muito, cartas e crônicas, telegrafias dos nossos cotidianos enfadonhos num momento que minha vida tendia a uma imobilidade constrangedora.

Esquivava, sempre. Media palavras, tergiversava intenções. Desviava o olhar quando percebia seu olhar sedento, o convite para se sentar mais perto. O fato que perto de você eu brilhava leve, sentindo-me bonito. Havíamos nos beijado no primeiro encontro, para eu desaparecer logo em seguida. Você me encontrou, me seguiu, leu meus escritos, nunca se importou com minha natureza pretensamente melancólica e evasiva. Paciente, tentou me prender numa teia lenta de compreensão e cuidado.

Linda, como você era linda. Vinícius te cantaria no Samba da Benção: havia qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora. Havia a presença de uma mulher decidida, que sabia a doçura de se colocar eventualmente frágil. Iluminada, até pelo nome.

Pelo cansaço, você foi vencida. Eu não me movia, não ia, não poderia. Já sabia de antemão que não poderia dar toda felicidade que merecia. E hoje, enquanto fazia o caminho de casa, veio aquele estranhamento em pensar que poderíamos ser noivos, nossos filhos seriam lindos e altos, talvez loiros. Teríamos bossas e noites altas para curtir até o fim dos tempos. E não que isto seja uma frustração: as coisas são como são e este exercício de possibilidades, confesso, não tem a intenção de chegar a lugar nenhum a não ser contemplar uma beleza que existia.

Você foi a única e a última mulher que amei.

terça-feira, outubro 26, 2010

#10 B&S If You're Feeling Sinister (idem)

He'll try in vain to take away the pain of being a hopeless unbeliever

E lá do alto daquele prédio imenso, dava para ver que as nuvens engolfavam os edifícios de Perdizes, descendo a Bela Vista, pras bandas do Parque do Ibirapuera. Quando sai, já era noite incipiente apesar do horário de verão. Gosto de voltar à pé, quando posso, porque gosto de andar em São Paulo ao fim do dia. E, assim, vim descendo a Doutor Arnaldo com a garoa gelada batendo na cara, fitando o cemitério do Araçá do outro lado. Penso em Caio F. sem querer, quando estaria ali, numa janelinha do Emílio Ribas, talvez com os dedos, a alma, tudo dolorido demais para escrever aquelas tão difíceis Cartas Para Além dos Muros. Logo passo a ponte por sobre uma Rebouças sufocada pelas luzes e gentes que vão e vem, ganho a alameda Santos e o convidativo clima que os Jardins tem desta coisa nem tão urbana assim. Aperto o passo, aperta a chuva, quebro na Haddock pensando nos textos que Guiu escrevia sobre apartamentos de janelas imensas, destes amores de comercial de margarina que nunca saberemos se chegará. Passam pessoas de terno, muitas, passam pessoas comuns, passam mendigos decrépitos. Peço um cigarro a um desconhecido, o meu acabou. Os dedos tamborilam nesta ansiedade de estar sem algo por entre eles, ainda mais nestas noites que principiam geladas. Ganho, com sorriso. Sorrio, grato e continuo. Ganho a Paulista naquele caos já anunciado da hora do rush e pelo Conjunto Nacional até poderia tomar um café, perder a hora fitando aquele dragão voador imenso preso no céu. Só que estou cansado, quero banho e cama, queria virar a chave quando chegar e, quando aproximasse para girá-la, ouvir o barulho da panela de pressão e encontrar a casa toda alinhada, talvez até um vaso de flores sobre a mesa. Já que não, agora vou mastigando para qual fast-food ligaria, quem sabe China in Box, já que hoje você não chegaria com um Big Mac de surpresa e o sorriso mais lindo no rosto. Agora escolho qual semáforo fechará para cruzar o outro lado e pela Frei Caneca me lembro daquele dia em que bateram no meu carro, de uma doçura difícil e inesperada. Porém, tem coisa melhor do que essas coisas que nos exasperam nestes dias de dificuldades inaparentes? Até penso que poderia ir à Mostra, o cansaço grita, mantenho o rumo. Passos decididos seguem pelo turbilhão de gentes, tantas, penso que poderia sorrir de novo. Gratuitamente, assim. Jogo o cigarro em brasa na sarjeta fazendo a matemática da semana: sextas, como poderia tê-las! Não tenho, não posso, resigno-me. A chuva, nesta hora, nem gela mais. Ao MASP desvio o caminho, passo por baixo, até o vão. Lembro-me daquele dia em que estive ali pensando que este vale poderia ser minha casa. E, ali, sorriria de novo. Inesperado, como destes primeiros ipês que se arrebentam colorindo os caminhos. Se pensasse muito, quem sabe, até uma Heineken se materializaria em minhas mãos nesta noite que principiava discretamente melancólica. Fechei os olhos, ela não veio. Mesmo assim, quando abri os olhos, ainda continuava sorrindo.

sexta-feira, outubro 22, 2010

#9 B&S The Wrong Girl (Fold Your Hands Child...)

I'm not what I could be, I need a true love
I went looking and I found one


E tive a sorte do amor tranquilo, depois de tanto pedir. De tanto rezar, quase prece íntima, naquele desejo pequeno-burgês de se querer algo por pura necessidade de algo mais para balizar os dias. Lembro-me: era bom. Gostava destes dias e noites sem atropelos, da paz estabelecida por um acordo silencioso que criamos. Nada havia ali além de um carinho imenso, seu carro na minha garagem, nossas vidas emboladas. Depois de uma centena de dias nesta atmosfera boa de bem-querer, algo desandou. E desandou também silenciosamente, pelas frestas, pelos artigos não contemplados em nossos papéis.

Já quis tanta coisa melhor com tanta gente pior, sabia? Já amei sem me merecerem, já me apaixonei pelo reflexo que vi nos meus espelhos, alimentados por estas madrugadas altas que costumo me enfiar. De você, só tive o melhor. Nunca irresponsabilidades, nunca egoísmos, nunca nada além de uma atenção preocupada e a vontade em ocupar todos os espaços, cada pedaço desta coisa confusa que navego diariamente.

Direi isso na lógica simplista de quem sabe que o amor não é matemática: não era. E o que não é, não é. E ter clareza não signifique que não doa. Doeu, não dói mais. Entendo a necessidade do movimento e da queda vertinosa diária que precisamos para manter os dedos dados. Em determinado momento, não havia mais - sem que houvesse aquela cena para ser refeita e tresfeita, para se ficar mastigando-a pelo resto dos dias. E, talvez, este seja o fato mais triste: dessas coisas que foram se solapando sem perceber e, quando se viu, só havia sobrado aquele sentimento constrangedor de ser tão amado, mesmo que não merecesse.

terça-feira, outubro 19, 2010

#8 B&S I'm a Cuckoo (Dear Catastrophe Waitress)

But I'm a little lost sheep
I need my Bo peep
I know I need my shepherd here tonight


Nunca tive muitos problemas com a minha distimia crônica. Até acho que as minhas melancolias pregressas tiveram seu que de impulso para algum lugar melhor, seja lá quão estranho isto possa parecer. O fato é que sempre achei a felicidade muito mais constrangedora. Daquelas que descabelam, daquelas que são plenas, daquelas que te deixam com um sorriso imenso no rosto sem motivo. Principalmente quando vem em sobressalto, arrebatam só com uma nota e me deixam ali, carregado de toda uma coisa que não sei direito como dividir.

Quando tomado por uma grande alegria, tento me moderar. Falar baixo, baixinho, pensar qualquer coisa burocrática e deixá-la em algum lugar perto e morno, distante do frenesi cotidiano. Gosto de me enamorar com ela, assim, devagar, acariciando com a ponta dos dedos até a madrugada alta.

segunda-feira, outubro 18, 2010

#7 B&S The Boy With The Arab Strap (Idem)

Colour my life with the chaos of trouble

Foi ali, foi assim que decidi abrir meus braços e, tão simples, me entregar.

quarta-feira, outubro 13, 2010

#6 B&S Is It Wicked Not To Care (The Boy With The Arab Strap)

I know the truth awaits me
But still I hesitate because of fear?


Por mais que sempre tenha acreditado muito em Cazuza, principalmente quando ele canta que "mentiras sinceras me interessam", é a Verdade que me encanta. Talvez isso seja o resquício de minha parca educação católica nos meus seis anos de idade, na crença que ela nos libertaria, independente da dimensão do pecado.

Quando falo em pecado, não que seja daqueles capitais bem óbvios. Digo, sim, do descompasso que havia em se viver algo por comodidade, mesmo sabendo que queria se estar em outro lugar, de outra forma. Na velocidade dos continentes, fui percebendo que não havia muita escolha além. O certo exige certos atos, certas pirotecnias. Exigiria um desapego em colocar em risco todo o conforto daquela rotina que se leva por levar, para colocá-la numa rota estranha sem precisar o que viria.

Nada aconteceu de súbito. Nada se resolveu com um discurso bonito e bem intencionado. Lembro-me das pequenas ações, encadeando pequenos desvios de curso. As mudanças aconteceram lentas e sem muita violência. Quando os rojões estouraram, consegui fingir uma pretensa segurança nos atos, alegando a irreversibilidade dos fatos. Toda a dor foi vindo homeopaticamente, sem provocar necessidades de gás de madrugada ou quedas do décimo primeiro andar dos edifícios.

Hoje, quando vejo que está tudo bem e desenvolvendo em velocidade de cruzeiro, pouco me lembro daqueles dias de dificuldades difusas em se decidir pelo duvidoso, por não aceitar a vida que me cabiam. Hesitava, sim, porque eu tinha medo.

Agora, não tenho mais. Aliás, tenho. E quando tenho, sem muitas hesitações, sempre sei da benção que há em ter agido em benefício próprio, respeitando os próprios limites. Sei, sim, a verdade liberta. Ainda que pese, ainda que nos obrigue a certos atropelos. Mesmo assim, ah sim, liberta.

segunda-feira, outubro 11, 2010

#5 B&S Jonathan David (Jonathan David)

Visions of love recollected
Have we ever been true?


Como se houvesse entrado no jogo para perder. Vejam bem: quando digo entrar no jogo, não que tenha sido um ato consciente. Foi desses atos inconscientes, movido pela energia de quem vê a Beleza e, ah, a Beleza é irresistível. E daí, mesmo que seja para ficar sangrando pelas sarjetas tão tonto de amor não dado, sabia a validade do movimento. Pela taquicardia que é provocada, pela energia que flui dentro da esfera dos planos mais puros e bem-intencionados. Quando assumi que gostava de você, mesmo jogando contra todas as estatísticas, veio também toda fragilidade provocada pelo ato de gostar de você e, também, reinventar todos os meus cenários para que eu me tornasse novamente bonito mesmo dentro de toda a confusão instalada. Desta vez, apresentar-me mesmo que ainda um tanto inconstante e problemático, ainda um tanto confuso por toda bagagem que carregava. Por você, medrosamente joguei o I Ching procurando uma resposta afirmativa, como se encarregasse aos céus os descaminhos dos nossos passos. Sabia, como sabia, iria perder. Ficaria com o buraquinho do quarto, como se estivéssemos naquele clip de "I'll follow you into the dark" e, depois que a história encaminhasse para o destino já estabelecido, lidasse com o estalo de algo que acende o pavio e, depois, tivesse que assistir o movimento da chama que desabaria todas as estruturas e me deixaria com o benefício duvidoso do quarto todo aceso e preenchido de ausências. Adiantaria te dizer quanto esperei por algo assim? Adiantaria desenhar a sua condição ímpar e a minha sede por cantar um verso e ser compreendido, tão só? Pois então, mesmo assim, ainda que: insistiria, sem fé alguma.

quinta-feira, outubro 07, 2010

#4 B&S Big John Shaft (Storytelling)

"I need to talk to someone
I've been living someone else's life"


No sobrado imenso que alugamos na minha primeira (e única) república, haviam cinco quartos: duas suítes no andar de cima (capazes de abrigar um exército), um quarto todo encarpetado, um quarto no andar de baixo e o último, meio que de empregada, no quintal. Éramos, inicialmente, em cinco. E na partilha, por escolha própria, acabei ficando com o quarto dos fundos.

Gostava do meu quarto nos fundos pelo seu aparente isolamento. Era a primeira vez que tinha um espaço para chamar, por assim dizer, de meu. Gostava de poder escutar música alta sem incomodar ninguém, de passar até tarde da noite lendo sem que me perguntassem o que era, poder dormir a hora que quisesse independente do que acontecia dentro de casa.

Não que desgostasse da bagunça ou das companhias, não é isso. Precisava desse exercício inicial de testar os meus passos, pois havia uma sede imensa de trilhar um caminho que ninguém teria escolhido para mim. Naquele quarto meio mofado, comecei o aprendizado de conviver comigo mesmo, minhas alegrias ridículas, soltar os demônios particulares para passear.

Gostava de escutar o Storytelling - talvez, o cd menos escutado do Belle - mesmo que fosse só para deixar os instrumentais rolando, enquanto em qualquer lugar da casa Jorge & Mateus ocupava o ambiente. E naqueles sábados quando todos viajavam, ou namoravam, ou tomavam drogas, ou seja lá o que faziam: não sobrava ninguém para ver "Senhora do Destino", ou Ratinho, dessas coisas assim. Daí pegava meu cobertor, ocupava a sala de tv e ficava solitariamente vendo Saturday Night Live até o sono chegar. E, poxa, como adorava a sensação que isso me provocava.

quarta-feira, outubro 06, 2010

#3 B&S Piazza, New York Catcher (Dear Catastrophe Waitress)

"How many nights of talking in hotel rooms can you take?
How many nights of limping round on pagan holidays?
Oh, elope with me in private and we'll set something ablaze
A trail for the devil to erase"


Meu gostar de Belle and Sebastian sempre teve um quê de obscuro. Digo isso quando percebi, ali pela quinta vez, que ao me perguntarem qual era minha banda predileta e eu dizia Belle and Sebastian só recebia um humm de resposta. Quase sempre, em seguida, aquelas série de perguntas do tipo toca o que, toca na rádio, porque diabos você escuta uma banda que ninguém conhece?

Daí, nem dizia mais. Quando perguntavam, respondia Radiohead, Coldplay, Oasis, qualquer coisa assim mais palatável. Minha banda predileta tornou-se, de certa forma, clandestina.

Quando soube que em Juno haviam DUAS músicas do B&S, meu sorriso foi automático. Lógico que também gostei do filme em si, afinal de contas, Juno é arrebatador. Mas, vejam bem, gostaria do filme mesmo se não tivesse visto. Gostaria porque sabia que alguém ali também dividia o mesmo segredo, na mesma cumplicidade.

Meu gostar sempre foi referenciado. Minha primeira impressão sobre alguém sempre gira nas bandas favoritas, nos filmes que marcaram, nos livros que moram na cabeceira. Se Belle aparece na primeira conversa, não há como não passar ileso. Se também você foi tocado pelo dilema de Céline & Jesse, também ama Nara Leão, se Caio Fernando atravessa os dias soturnos, as doçuras agridoces de Manuel Bandeira: não há como não sorrir e, quem sabe, permanecer ali na esfera boa de bem querer quase que automática.

Meus melhores amigos fiz assim: assoviando "Don't worry be happy" nos corredores gelados da anatomia, discutindo Drummond num estado lastimável debaixo da pia, revendo Miguel Torga numa noite alta, bilhetinho de top 10 filmes num guardanapo de boteco. Acredito que seu reflexo é aquilo que lê, que escuta, que assiste. Se a forma que você se apresenta me atrai, trago para dentro da minha vida, abro as janelas, as portas, deixo a chave na portaria e mando pegar uma cerveja na geladeira.

Não que esse meu modus operandi não leve a descaminhos, bote-me em confusões. Quase nunca me arrependo, pois sempre vale a fagulha de beleza. Se você me diz que gosta de Belle, na facilidade de um primeiro encontro, ah... É impossível não se entregar.

terça-feira, outubro 05, 2010

#2 B&S - Electronic Renaissance (Tigermilk)

"If you work for much very longer
You'll be known as the boy who's always working
If you dance for much very longer
You'll be known as the boy who's always dancing"


Perdida como faixa 5 do Tigermilk, Electronic Renaissance provoca debates acalorados entre fãs do Belle and Sebastian. Numa pegada anos 80 experimental, destoa completamente do resto do disco, que é meio folk-fofo-tristinho. É uma música de ame ou odeie.

Passei várias noites ébrias com @leobarba discutindo o mérito dela. Pois bem, se ela fosse aquela última faixa, se fosse um bônus ou se até integrasse um EP, tudo bem. Mas ela está ali, bem no meio, que obriga a quem desagrada a trocar de faixa conscientemente.

Gosto dela, como gostam da blueberry pie: talvez goste, justamente, pelo fato dela ser preterida por quase todos. Mesmo ali, toda estranha dentro da proposta do disco. Mesmo com os vocais estranhos e uma pegada diferente de todo o contexto. Gosto dela, só pelo fato que não deveria. Ainda que ela não valha um clip e que ninguém a peça no show que virá.

Por ser única, ainda que pelas vias tortas, sempre me arranca um sorriso ao escutá-la.

segunda-feira, outubro 04, 2010

#1 B&S - My Wandering Days Are Over (Tigermilk)

"You know my wandering days are over
Does that mean that I'm getting boring?
You tell me"


O que sobra, então, é a necessidade de pisar no real. Não que eu não me permita, eventualmente, ter meus delírios pessoais quando chego, ali às seis da tarde, com o corpo implorando por um pouco de doçura. Não rifei todas minhas ilusões sem deixar as mais ternas e caras no bolso.

A diferença é que, quando escutava esta música nos primórdios da década passada, parecia que as coisas haviam evoluido prum esgotamento irreversível. Havíamos tentado tanto, batido tanto, prometeram-nos mundos e fundos para que nos finalmente ficássemos só arfando pela lufada que nunca viria.

Inbetween days, aqueles. De cartas imensas e esperançosas pelo o que havia por vir. Não vinha, nunca vinha. Não daquela forma. Nunca aquela epifania redentora que nos içaria do morno & banal para aquilo que nem tinha cara nem rosto, era só um conceito de talvez melhor e pleno.

O que descobriríamos é que a salvação não se persegue. Ela viria, sorrateira, ao nosso encalço. Morderia os calcanhares, botaria-nos loucos pela madrugada adentro até quando, vejam, estivéssemos pagando nossas contas, tocando nossas vidas num desassossego ligeiramente saudável.

Não que aqueles dias errantes tenham terminado. Só desejamos uma cerveja no conforto do sofá, onde antes havia aquele ímpeto em comprar a primeira passagem ao Taiti.

domingo, outubro 03, 2010

Heineken

Desço na Paulista, estranhamente deserta e gelada. E se a Dilma não levou de primeira, se o ano se arrasta sem final: quem liga? O que me fascina é destas conclusões da madrugada alta: melhor que Heineken, sem dúvida alguma.

Pois é

Naquele movimento lento de, lá do alto, abrir os braços até a linha do ombro e, para então, deixar que os dedos se abrissem deixando que todo o vento escapassem por eles, eu sabia e não havia notado: não há impunidade no ato. Ainda que fosse sem premeditação, ainda que fosse o correto, mesmo que hoje não me arrependa de uma fagulha sequer. Quando as mãos espalmadas e frouxas subiram, também houve o movimento de se deixar escorregar por ali. E, ao cair daquela altura, perder-se algo bonito na vastidão da noite, ao sabor do vento dos quarenta metros de altura.

E ao coração que teima em bater, avisa que é de se entregar o viver. Avisa que é de se entregar o viver.

terça-feira, setembro 28, 2010

Porque não voto em Marina Silva.

Nesta semana, sem votação ou consulta aos moradores, foi instituido que a coleta seletiva de lixo obrigatória no meu condomínio. Bom para o planeta, bom para o universo, não? Pois é, não gostei. Quer dizer: reciclagem de lixo é uma coisa conceiualmente legal e louvável, concordo. O grande problema é a imposição do fato e suas eventuais consequências.

Gosto bastante quando o Luiz Felipe Pondé fala sobre o fascismo verde, a ditadura do politicamente correto. E quando falo de fascismo, não penso na livre associação com Mussolini e Hitler. Digo, sim, no controle impositivo do Estado sobre a população, no 1984 de George Orwell. Das coisas que se impõem pelo propagado ideal de bem-comum.

Vejamos: reciclar o lixo é coletivamente bom, poupa recursos, fornece renda. Eu racionalmente sei que é uma coisa legal. Pensando bem, é justo que me obriguem a realizar algo que, talvez, não faria de forma espontânea. E daí, vamos reciclando o lixo. E, suponhamos, o governo proiba gordura trans. Vejam bem, eu gosto de gordura trans. Mas, pensando bem, gordura trans entope minhas artérias e, desta forma, aumenta meu risco cardiovascular. Morrendo mais cedo, causo prejuízo ao Estado pois sou parte da população economicamente ativa que irá precocemente ao óbito. Desta forma, parece justo que me obriguem a comer alfaces e rúculas, proibam-me de fumar, coloquem-me numa esteira como um hamster por duas horas por dia. Vivendo mais, produzo mais e, assim, é melhor para todos.

Pensando em políticas de saúde pública, é comprovado que a transmissão do HIV é várias vezes aumentada quando o paciente não está em tratamento e com carga viral elevada. E já temos estudos de modelagem matemática que mostram que, se tratássemos toda a população infectada, a longo prazo conseguiríamos erradicar a epidemia. Desta forma, pelo bem coletivo, porque não obrigar a testagem de toda população, impondo que cada paciente seja obrigado a se tratar, talvez até naquele esquema de tratamento supervisionado para garantir a aderência? Assim, erradicando a epidemia, é o melhor para todo mundo...

Não que eu esteja propondo um regime anárquico, onde cada um faz o que quiser. Viver em sociedade exige normas - o que acho válido na discussão é até que ponto estamos sacrificando escolhas individuais como hábitos de vida, sobre nosso livre arbítrio, em troca do politicamente correto. Tenho direito de não reciclar meu lixo? Tenho direito de infartar aos 45 anos em troca de prazeres mundanos? Tenho o direito de ter HIV e não tratar?

Por isso, sempre que vejo um ambientalista ferrenho, esses vegans doutrinadores, esse papinho de crescimento sustentável, acende a luz: está aí um fascista em potencial. Que até pode ter um discurso correto e bem-intencionado dentro do contexto do planeta, de Gaia e todos os seres vivos, mas quase sempre intransigente: pois não há argumentos contra o bem-coletivo. Diga que talvez você não queira reciclar seu lixo e desperte a ira alheia pelo seu individualismo, de fazer parte dessa sociedade em que não se perceba o próximo e mimimi. Se brincar, até bate na sua porta um cara do Greenpeace naqueles barcos que caçam caçadores de baleias.

Desta forma, quando vejo a Marina naquele discurso doce com a Terra Azul rodando atrás, não há como não pensar, ali: fascista. Mas, veja, é bem-intencionada a moça. Só que o fascismo do século XXI é diferente: vão proibir nosso sal, nossos carbohidratos, nosso direito ao sedentarismo. Não que ela faça isso em seu governo, obviamente. Só que coloque um deles no poder e veremos turbas pelas ruas gritando: rúculas, rúculas, rúculas! Já já, esses controles loucos podem até correr o risco de fazer sentido...

Portanto, queridos: não voto na Marina, não reciclo meu lixo e ainda não estou pronto para abrir mão dos meus caprichos auto-destrutivos, ok?

segunda-feira, setembro 27, 2010

Imperfeição

...não me deixa fazer a barba, nem me deixa cortar o cabelo. Sorri do meu eventual desapego ao sacerdócio, essa capa bonita que nos colocaram antes que nos perguntasse: pode? Diverte-se com minhas negligências estratégicas, meus pequenos desvios de caráter. Não me pede para cortar as unhas, nem reclama do caos da sala ou do barulho de molas do sofá-cama. Elogia a preguiça e a procrastinação. Nestes domingos ensolarados e claros, nem se move dos edredons e travesseiros. Dorme na madrugada alta, muito embora acorde antes que eu. Obriga-me a tomar cerveja depois de um dia difícil, rouba-me um beijo improvável no meio da Augusta e nem se abala com minha procissão de imperfeições.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Esquadros

Sigo por aí desatando nós, divertindo gente, falando ao telefone. A rotina desce mordendo os calcanhares e me vejo de lá a cá, nos trilhos da CPTM, perdido em mil obrigações fúteis. As relações de trabalho oprimem e me subverter novamente a servilidade do rapaz de recados dói bem mais que as noites que não durmo, os almoços que negligencio. Os amigos brilham em volta e até mandam notícias madrugada adentro, para dizer: você poderia estar aqui. Estarei, em breve, agora que setembro finda só nos resta este mergulho vertiginoso até 2011 e a esperança recorrente de que, sim, vai melhorar. Não sei onde será o Reveillon, não sei onde trabalharei no ano que vem, muito menos para quem venderei minha alma por um preço de liquidação. Às vezes tenho entrado no elevador e esquecido para qual andar vou, tenho tomado mil cafés quando fagocitado por uma companhia macia e me arrasto pela semana esperando quando você voltará para rotina. Finjo uma pretensa segurança enquanto escovo os dentes, procrastino a faxina enquanto o caos se instala pelo apartamento e, na espera da sua chegada, vou trocando isqueiros na maior cara de pau - laranjas, sempre peço. Guardo as tampas de Heineken, até tenho visto Topa Tudo por Dinheiro e ali, quando tudo é silêncio, relembro que viver é bom.

domingo, setembro 19, 2010

Carta oceânica

Cara amiga,

Bem sabes que tenho doutorado nestes amores que consideramos abissais. Pois bem, sempre fui um tanto sensível a estes amores que chegam, destroem avenidas e partem: além oceano, no Cerrado, no Paraná. Dos platonismos que construímos, há sempre o sentimento bom do que aconteceu, ali na palma de nossas mãos. Eles são necessariamente intensos e especiais, com aqueles toques de literatura russa ou viagens espetaculares e, quando nos vemos ao final da noite, estamos completamente vendidos.

E, então, eles partem.

Na nossa sede, nesse deserto de pessoas que conseguem verdadeiramente nos ler, ficamos. Dedos tamborilando a esperar que os carteiros do Brasil entreguem nossas cartas com a doçura necessária, ocupando o vazio da nossa rotina de pequenas possibilidades brilhantes que seriam, que poderiam, na beleza do vir-a-ser.

Na vagareza dos correios, vamos preechendo as lacunas com nossas próprias palavras. Coisas que eles poderiam dizer, lugares que poderíamos ir e, daí, o amor se contrói do culto àquela imagem de Sebastião que voltará um dia, sabe lá quando, sabe lá como.

O platonismo é uma existência egoísta: pega-se o objeto amado e ele se ergue do nosso suor e sangue, das nossas fragilidades e expectativas. Ainda que seja um exercício bonito, ainda que eles nos acalentem nestas noites frias quase sem perspectiva nenhuma: é vazio, pois se inicia e termina em nós mesmos. Porque, em determinado ponto, temos tanto medo de perverter a sua memória que perdemos a atenção difusa com o mundo, a capacidade em se andar distraído pela rua. Cria-se um gold standart fantasioso e inatingível, nosso mecanismo mais ardiloso de auto-sabotagem. E daí, como ninguém consegue chegar a nossa porta, permanecemos enternecidos pelas lembranças, zonzos de amor não dado.

Confesso que só consegui ser feliz quando me desfiz desses platonismos, um a um. Optei por pisar no real, pelo pânico em se estar ou não se estar junto numa terça-feira nublada. Quando o último se foi, nas águas dos mares de janeiro, doloroso foi pensar que gastei tantas palavras bonitas, tantas insônias sinceras, tantos exercícios de possibilidades para que, ao final, tivesse se escorrido pelos dedos sem esforço. Que as coisas terminaram porque tinham que terminar, sem beijo no aeroporto ou promessas de Paris, cinco anos.

Mas, no dia seguinte, fui tomado pela leveza. Parecia que, despojado de tudo aquilo, andar pareceria mais fácil. Estaria pronto para recomeçar, sem comparações, sem expectativas. Descobri-me, no espelho dos outros, novamente bonito. Capaz de provocar coisas boas e bobas, ao alcance das mãos. E hoje, tanto tempo depois, achei acertada a decisão em sacrificar uma parte em favor do todo. É libertador.

Às vezes, precisamos recolher todas as garrafas que jogamos ao mar por piedade a nós mesmos. Deixar os escafandros de lado para que os diálogos se façam com mãos juntas, mesas postas, na calada da noite...

segunda-feira, setembro 13, 2010

Insônias

Fumando seu último Malboro vermelho, penso que poderia ser você aqui entre meus dedos.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Pequena morte

‎"Pequena morte, chamam na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce"
(Eduardo Galeano)

quarta-feira, setembro 08, 2010

Ausência

"Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks that I'm sad
I'll take a ride in melodies and bees and birds"


Se a presença domina e preenche, é a ausência que acaba por pontuar. E o bom quando não vira aquela ausência-inércia, aquela que sufoca sem permitir se movimentar. Pois bem, movimentar é o que tenho feito, até bem, nestes dias de ócio até produtivo. Tenho tomado cafés e visto filmes, tenho encarado as noites e bebido como se não houvesse amanhã - e, assim, ali pelo meio da noite o que vem a mente é: poxa, você entenderia como é raro Radiohead numa pista de dança. Você saberia o achado que é uma Stella Artois a R$ 1,79 no Pão de Açúcar ou, também, na falta que é não ter quem brincar do jogo do sério quando o assunto acaba no meio do bar. Quando chego, invariavelmente bêbado e sem cigarros bem depois que amanhece, ainda perco meia hora cantarolando um "eu ando sempre pra sentir vontade", olhando para o relógio e os calendários.

Dentro dos longos espaços que tenho tido, brotam coisas bonitas e simples, quase todas esqueço logo quando acordo. Vezenquando até penso em escrevê-las, mas, sei lá, tenho preferido dormir sorrindo e acordar, completamente desfeito, como só tivesse tido sonhos bons.

segunda-feira, setembro 06, 2010

As chaves, as portas.



"Katya: Sometimes, even if you have the keys those doors still can't be opened. Can they?
Jeremy: Even if the door is open, the person you're looking for may not be there"

(My Blueberry Nights)

sábado, setembro 04, 2010

Setembro

Veio-se o tempo, então, de cuidar das gérberas, das begôneas, encher a casa de rosas brancas e braçadas de lírios tenros. Abrir as cortinas e colocar os panos de sol na janela. Lá vem setembro devassando os caminhos. Vem chegando a primavera.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Ipês Amarelos (Rubem Alves)

Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: "E quem é Rubem Alves?". Um menininho respondeu: "O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos...". A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.

Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores... Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Gosto também de banho de cachoeira (no verão...), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme "Moça com Brinco de Pérola"), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.

Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.

Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: "Rosa de água com escamas de cristal...".

Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.

Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas. O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.

Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.

Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui... Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos...

segunda-feira, agosto 30, 2010

(18)

Eu imaginei que tivesse controle. Desde os tenros tempos, tão educado nos brit-rocks que só aquela ilha pode oferecer, eu cantava: "I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul". E quando digo controle, não é a habilidade do manipulador de marionetes, a precisão do enxadrista que antevê o movimento. Queria, simplesmente, coordenar o passo de fora com o passo de dentro, da paz em que se ganha coordenando o querer com o haver.

No alto de minha soberba conquistada naqueles dias longos, pensei que já sabia. Da precisão dos limites estabelecidos e da frugalidade em ver que os dias corriam pela janela, doces e indolores.

Enganei-me, obviamente. Dolorosamente. Foi vindo como aquela avenca que cresce lenta e quando se vê já estava derrubando telhados, paredes. Pus Cazuza para tocar no último volume, quase junto com o gás. Da desconstrução que vinha, nas noites insones, só conseguia fazer as contas do que poderia perder, mesmo sabendo que, naquela altura do campeonato, não havia algo além do que seguir.

Há quase duas semanas depois, numa Cumbica carinhosamente gélida me lembro: não, eu não sabia. Fiz as contas, guardei os retratos, rabisquei no papel de pão e guardei quase tudo que era doce aqui dentro. E decidi, então, abrir os braços num gesto pretensamente calculado, pés para fora. Confiar na corda que havia, na vagareza dos meus passos hesitantes. Daí gritar, gritar muito, gritar tanto, naqueles cinco segundos longos até quando a corda repuxasse ou eu me estourasse no chão.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Vento (Cecília Meirelles)

PASSARAM os ventos de Agosto, levando tudo.
As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão.
Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.
Passaram os ventos de Agosto, terríveis, por dentro da noite.
Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.
Mas, sobre a paisagem cansada da aventura excessiva --
sem forma e sem eco,
o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento
para soltarem papagaios de papel.

quarta-feira, agosto 25, 2010

(17)

Quando entrei no taxi, disse pausadamente: "ao aeroporto". Tentava esconder toda a exasperação na fala. Quinze minutos antes, um mail inesperado: compareça, venha, esteja aqui em dois dias. Daí veio pular na cama imensa do hotel, descer arfando pelas escadas, postar-se na sarjeta da Almirante Barroso com dedo em pé e dizer: "rápido, rápido".

E enquanto ele fazia o longo trajeto entre São Brás e o aeroporto, fui mastigando aquela cidade estranha pela penúltima vez. Bonita, ela, nunca tive muita dúvida. Por mais que houvesse tanto estranhamento, sabia que ela, agora, também fazia parte de um pouco de mim. Desde a claridade absurda logo pela manhã, os casarões portugueses abandonados, a conjugação verbal pela qual eu me apaixonei. Sei que, em breve, lembraria daqueles dias até com uma certa doçura apesar de todas as dificuldades.

O fato é que, naquele momento, só queria voltar. E, mesmo querendo voltar, ficava com o celular escorrendo pelos dedos. Até sabia o que fazer, só não sabia como.

sexta-feira, agosto 20, 2010

(16)

Quando quis me arrepender, já estava a quarenta metros do chão. Na verdade, quando quis ir só percebi que fui quando estava ali, sozinho, com o abismo todo aos meus pés.

Sempre quis ser a Kite perdida no céu, baby. Sempre acreditei na leveza, ainda que ela não nos permita enxergar direito o que se acontece lá embaixo. E lá estava eu, caminhando numa plataforma estreita, até onde ela desapareceria. A taquicardia só veio quando o instrutor, gentil, disse-me: veja, agora vou soltar a corda. Não estranhe o peso. E quando soltou, logo percebi que os pés pregaram no chão. Disse para caminhar devagar, colocar metade dos pés para fora e, só depois, saltar.

Noite fria, era. Daquelas quase sem estrelas, garoa bem leve sem ser necessariamente ferina. Lá em baixo, poucos pontos iluminados, todos pareciam uma massa só. Caminhei sem destreza enquanto pensava no desastre que seria se a única coisa que me prendia ali, a corda, arrebentasse.

Segui. E quando cheguei, aterrorizado, veio a vertigem. Não queria, não podia, quero voltar para trás posso? Mentiria. Talvez, só pedir para que ele viesse ali e me empurrasse. O difícil sempre foi esse primeiro passo no abismo, ainda que se saiba que há algo que me prendia.

Pensei novamente na leveza: quase sempre é insustentável. Por isso queria ser a Kite, ainda que o céu estivesse nublado, ainda que a brisa fosse fria. Queria ser daquelas que, mesmo revoltas, ainda possuem aquele minúsculo fio que as mantém presas ao chão.

Foi daí, após estes segundos de exasperação, que decidi: vou. Abri os braços num movimento lento, de quem se joga ao desconhecido mesmo sabendo da possibilidade do tombo. Gritei coisa qualquer, coisa banal. Fechei os olhos apertados e, então, o pé direito foi a frente, além da plataforma, rumo ao nada.

terça-feira, agosto 17, 2010

(15)

No Cosanostra, talvez o lugar mais legal de Belém, tocava Chico. Naquele pub amadeirado, um casal se levantou e começou a dançar, cheek-to-cheek: "Ah, se já perdemos a noção da hora, se juntos já jogamos tudo fora: agora diga como eu vou partir?".

Pensei: poderia ser comigo. Poderia ser eu. Poderíamos ser nós dois, como se não houvesse nada além. O tempo correria na velocidade dos continentes. Diria, enquanto entrelaçaria suas mãos nas minhas, só: vem.

segunda-feira, agosto 16, 2010

(14)

E eu te expulsaria do quarto, arfando. Só não seria ao gritos, pois bem, o que os vizinhos vão pensar? Mas, voltando, sim, expulsaria. E talvez até dissesse qualquer coisa débil: eu ainda acredito. Você me olharia estranho, você não me conhece, você nunca me viu. Você nem deve saber o que é bater lá no fundo do poço e voltar. Sim, eu ainda acredito - e a palavra amor até lamberia os lábios, num lapso consciente, mas eu voltaria atrás: no encanto. Acredito ainda naqueles três segundos mágicos entre o olhar e a consciência do que se vê. Do discurso que se encadeia sem perceber e, se tivesse acontecido, prolongaria-se por horas. O celular ficaria derretendo nos dedos, naquela ansiedade de ligo, talvez ligo, mas se ligasse o que você pensaria, talvez se você ligasse, talvez só um sms besta de madrugada dizendo coisas tolas em menos de 140 caracteres. E que viesse a sequência da segunda que passa rasteira, a terça que brota pulsando (e daí, talvez nos víssemos prum café, coisa assim), a quarta entraria se arrastando na curva desaguando na quinta, agora um chopp ao entardecer, para uma sexta feira longuíssima de aguardos e daí a folia de um sábado repleto até que o domingo chegasse, sempre ele, quando ficaríamos deitados na cama de mãos postas, suas mãos em meus cabelos e lá ao fundo talvez Bob Dylan, talvez só uma bossa bem leve, enquanto a tarde virasse na noite e ali, nos toques iniciais do Fantástico, pensaria sem medo: ah, amanhã bem que podia ser feriado.

O que vem à mente antes de bater a porta e nem ver você chafurdar nesta noite vasta é que não comprei os meus sonhos em qualquer mesa de bar.

domingo, agosto 15, 2010

(13)

Talvez eu esteja fumando demais. Tenho percebido isso quando chamo o Carlton, carinhosamente, de meu único amigo e me irrito por perceber que não há cinzeiros nos hotéis que me hospedo. Também, tenho bebido demais. Quase toda noite, naquela hora em que o calor tórrido se vai e sobra uma brisa morna, úmida, que se fosse no mar seriam os tais ventos alísios. Tenho dormido pouco, é verdade, e quando desisto de ficar lutando contra os lençóis abro a janela, acendo mais um cigarro, ligo o som e fico assim por horas e horas. Ser estrangeiro numa terra estranha te dá a capacidade de subverter a própria rotina e, tão distante de tudo, tentar acertar os passos. Tenho ligado muito para meus amigos, às vezes em horários indecentes para dizer indecências: me tira daqui, penso em falar, não digo. Só que as horas pingam num quarto de hotel artificialmente arrumado, com a mala já revirada do dia a dia e que, poxa, até queria ouvir Nara só que o que aparece é Maysa, rouca, nos acordes inicais: todos acham que eu falo demais.

sábado, agosto 14, 2010

(12)

Do socorro que vem à cavalo, diretamente da selva de pedra:

"Você tem amor, você é doce e também está aprendendo. Penso agora que você bem que podia acreditar em santo, mãe de santo, redenção. Mas você só acredita em Caio F, né, hermano. Eu também. Fico um cadinho preocupada com você nesse mundo imenso. Penso em macunaíma, nos barulhos da floresta, nas águas fortes daí e rezo pra que você volte salvo dessa gordura estranha do mundo.

Quero te dizer que tudo vai ficar bem"

(de Maria Fernanda, mi eterna Hermana)

sexta-feira, agosto 13, 2010

(11)

E daí, vem. Aliás, não vem. Quando vejo, já é a terceira noite que não consigo dormir. O ar condicionado está na temperatura polar. A cidade, levemente silenciosa. Tento me afogar na cama imensa do hotel novo, sem sucesso. Essa insônia não tem nada de poética: é desesperadora.

quinta-feira, agosto 12, 2010

(10)

Durmo muito mal por aqui. Todas as noites, mesmo exausto, fico rolando nos lençóis. E de nada adianta fumar um cigarro, tomar um banho gelado, talvez um copo de leite. Quando vejo, já passa da uma e estou ali, insone.

Daí vou para varanda e penso em todos que amo e estão longe. Todos, provavelmente dormindo. Penso na Vila Clementino e as saudades dos tchamos diários. Vagueio pelo Paraíso, naquela janela imensa, escutando as bossas. Daí, o pensamento fica naquela sala ampla da Capote Valente, depois lambe a Augusta e todos os punks, putas, indies, emos e congêneres que passeiam lépidos sob a noite fria. Depois, belisca as ruas desertas de Perdizes, as árvores frondosas de Higienópolis e vai seguindo além Anhanguera, cruzando Minas até a complicada e perfeitinha Brasília, terra de todos os poderes duvidosos. Todos amados, todos queridos, todos beijados.

E, enquanto me mantenho dentro dessa energia de bem-querer, os demônios nem vem tanto mordiscar os dedos.

quarta-feira, agosto 11, 2010

(9)

O lugar mais legal de Belém, talvez, são as docas. Construidas na época áurea da borracha e abandonadas com a crise subsequente, foram reformadas e, ali dentro, abriram vários bares e restaurantes. Pois estava ali tomando o quinto chopp, na beira do rio Amazonas, quando toca Blitz: "longe de casa, há mais de uma semana...". A noite é fresca, venta muito. E para quem começava a sofrer do banzo de se estar longe de tudo e todos que se ama, escutar Evandro Mesquita trouxe uma vontadinha de continuar indo, continuar ficando, enquanto o rio caudalosamente passa.

terça-feira, agosto 10, 2010

(8)

Tenho estranhado o tempo das coisas. Vejam, já tinha acostumado com o monstro urbano, a cidade cinza e a correria sem tempo de lá para cá. Por aqui, as coisas tem seu tempo próprio. Ali pelo meio-dia, quando fica impraticável se fazer qualquer coisa útil pelo calor, as pessoas almoçam. Assim, no sentido verdadeiro da palavra: sentam, conversam, pedem seu prato e ainda arriscam uma siesta até as três da tarde. Mal-acostumado com os hábitos cosmopolistas deixo-me desacelerar, percebendo que o distanciamento também tem seu efeito elucidativo...

segunda-feira, agosto 09, 2010

(7)

Gosto muito dos sotaques. Por aqui, usa-se muito o tu corretamente. Encanto-me quando me perguntam: tu vais? Onde tu estás? Pela forte influência portuguesa de outrora, o português é de uma correção espantosa: todas as palavras ali, todos os verbos. Cadenciado rapidamente, é verdade, mas sem aquela velocidade do Ceará. Tem um puxado que lembra o Rio, sem ser ostensivo. Às vezes, pego-me no ônibus só escutando as conversas alheias e sorrio.

Tu queres? Sim, quero. E nesta solidão de estrangeiro que invariavelmente me encontro, fico mastigando silenciosamente meus quereres...

domingo, agosto 08, 2010

(6)

Daí ficamos em silêncio. No jogo do siso, nos quinze segundos que me aguento antes de rir, ficamos naquela desculpa para a contemplação breve do rosto do outro, quase sempre de mãos bem dadas. Não se pode desviar o olhar - diz a regra - mas me deixo perceber a barba quase sempre mal feita, as linhas de expressão. Sempre sou eu quem baixa os olhos, rindo loucamente. Não me lembro do porque começamos a brincadeira. Acho que, o que aconteceu, é que em determinado momento o assunto acabou e acabamos ficando por ali: eu, a mesa, você, a cerveja gelada no fundo do copo e a confusão toda em volta. Foi o jeito que encontramos para desaguar todo nosso arrebatamento, já que verbalizá-lo parecia tolo naqueles dias.

Sempre perco, é fato. Mas, desconfio, que o intuito da brincadeira nem é a vitória. É se jogar, com vagar, enquanto a noite cai.

sábado, agosto 07, 2010

(5)

Não dói. Nada fere. Poderia, pensei, se fosse há um ano atrás. Se fosse, talvez o calor sufocasse e eu perdesse as noites na varanda, pensando em tudo o que poderia ter sido e não foi. Ficaria assim, insone, cantarolando: "e quando eu me apaixonei não passou de ilusão" sem que ninguém por aqui entendesse. Agora, não. Não há nada, mal lembro, parece que foi há tanto tempo que resolvemos nos desvencilhar da dor e dos nossos corpos.

E isto deveria consolar? Acalentar? Não necessariamente.

sexta-feira, agosto 06, 2010

(4)

Ao chegar no balcão da Surinam Air, quase comprei lugar no próximo voo. Eu largo três empregos, meu apartamento na Bela Vista, meus sentimentos de grandeza. Você largaria os medos pequeno-burgueses e o trânsito da hora do rush que enlouquece.

Vamos a Paramaribo, meu amor?

quinta-feira, agosto 05, 2010

(3)

Vejo um copo de branco leitoso, vagas cascas pretas de jabuticaba encimando só para dar aquele clima tropical. Talvez, um piano bar. Talvez tocasse naquele momento Sinatra, com alguém em voz de barítono começando um "my funny valentine...". Já seria tarde demais? A tarde já entrou na noite, com vagar preciso, de súbito. As mãos repousam naquela toalha verde musgo, ninguém parecia compreender direito o que se havia. Haveria, pergunto? Poderia levantar, como nos filmes e murmurar no ouvido do pianista: "Play it, Sam? Play it"? Talvez, nestes dias céleres e modernosos, me concederia esta última dança? Peito no peito, corpo no corpo. A respiração entrecortada quando abraço sua cintura e sinto quase todo o resto desfalecer. Meu queixo desce até a curva do seu ombro: barba na pele, você me abraça. Parece que esse bar já vai fechar poderia ser a próxima música. Vamos lentos, passo lá, passo cá.

Daí, acordo. Quando vejo pela janela, muito verde, muitos rios.

quarta-feira, agosto 04, 2010

(2)

E ali no saguão de embarque, ainda faltava uma hora. Até abri o livro: "eu deveria cantar", mas tão logo o sono veio. O bar da Devassa e, por que não, talvez tivesse whiskey. E, para mim, whiskey sempre teve um quê de especial.

Aprendi a bebê-lo como se deve: com respeito. Nunca assim, esquenta de formatura com muito gelo & energético. Sempre respeitei o fato de que o coitado fica lá, anos imerso num bom carvalho, para que pegue o gosto da madeira, a textura exata.

Aprendi a beber naquelas noites longuíssimas de faculdade com o Joey. Logo me ensinou: o segredo é que vá para o fundo da garganta que não amarga. E que seja devagar, gole a gole. Logo já escolhi meu predileto: o Dimple, predileto também de Sinatra. E aprendi, tão logo, a tomar cowboy - gostá-lo assim, amargo e flamejante, em seu estado inicial.

No aeroporto, eu merecia. Da última vez, havia sido na sacada do Sofitel com Copacabana toda aberta aos meus pés. Naquele dia, acabei trocando por um martini sofrível, molhado demais e me arrependi. E quando cheguei mais perto, namorando as garrafas que repousavam silenciosamente nas prateleiras de madeira, só Jack Daniels, Red Label. Não havia aquela sinuosa garrafa do Dimple que gosto tanto.

Decidi que havia de ser Dimple ou nada. Assim, embarquei só sonolento e sóbrio meia hora depois. O que não me impediu de cantarolar, do solo ao solo, coisinhas assim: "fly me to the moon..."

terça-feira, agosto 03, 2010

(1)

Quando a moça me deu a poltrona 1A, logo o que pensei foi: bem, se o avião cai de bico no chão, sou eu quem morre primeiro. E isto não é necessariamente ruim. Até brinco: se for para morrer, que fosse de acidente de avião ou de infarto fulminante. De infarto fulminante, até tenho talento familiar: meu avô e meu bisavô morreram assim, caindo durinhos no chão. Os dois logo pela manhã, sem muita margem para maiores xurumelas. De avião, no entanto, nem tenho andado muito. Quando lhe disse isso, você nem se abalou. As pessoas se abalam às vezes com o meu politicamente incorreto.

Veja bem, não quero ser desses carinhas do Greenpeace que só comem rúculas e só vão morrer aos oitenta anos, com o cérebro fritado por uma demência aleatória sem lembrar que se avisa quando se evacua na roupa. Não quero ir apagando aos poucos, percebendo que os joelhos não dão mais conta do serviço. Não quero ter dias e anos para refletir sobre todas as coisas que fiz, nos meus erros recorrentes, nos meus pequenos pecados de alma.

E quando morrer, quero ser cremado. Só toparia ser enterrado no cemitério da Consolação, mas imagino que ele deve estar cheio há mais ou menos um centenário. Imaginem: repouso eterno nestes cemitérios limpinhos e gramados, plaquinhas e aquele ambiente levemente bucólico de paz & vazio? Nem pensar. Quero ser cremado e que minhas cinzas repousem naquele mar tão verde de São Miguel dos Milagres.

sexta-feira, julho 30, 2010

Straight Flush

Os últimos dias tem sido particularmente confusos de uma maneira lá não muito óbvia. Acordava todo dia antes do sol nascer, sem conseguir dormir num horário decente para tal. A vida segue sem grandes atropelos: preciso ir ao banco, e o tempo? Pego o carro na oficina depois de um mês. Embanano-me na maratona dos três empregos, correndo de lá para cá ordinariamente e sem muita fosforilação. Tenho me apegado à rotina, insana, como forma de obstruir a visão do que se exibe a frente.

Como se estivesse à mesa, três cartas sob ela: rainha de copas, valete de copas, 10 de copas. Tenho na mão um rei de paus e um nove de ouros. E do meu lado, o adversário joga todas as fichas ao centro da mesa e diz: All in. É, com certeza, a mão do jogo. Faço as contas: qual a chance dele fechar o straight flush? Seria blefe? Quando a partida está ganha, ainda vale apostar alto?

No adiantado da hora, só consigo calcular todas as coisas que eu posso perder.

quarta-feira, julho 28, 2010

Tung Jên - Comunidade com os Homens



Duas pessoas estão exteriormente separadas, porém unidas em seus corações. Suas posições na vida as mantêm separadas. Erguem-se, entre elas, muitos obstáculos e impedimentos, causando-lhes tristezas. Mas elas não permitem que nada as separe e permanecem fiéis uma à outra. E ainda que a superação desses obstáculos exija grandes lutas, elas vencerão, e ao se reencontrarem suas tristezas se transformarão em alegria.

Confúcio comenta a respeito desta linha:

"A vida conduz o homem responsável por caminhos tortuosos e mutáveis.
Muitas vezes o curso é bloqueado, em outras segue desimpedido.
Ora pensamentos sublimes vertem-se livremente em palavras.
ora o pesado fardo da sabedoria deve fechar-se no silêncio.
Mas quando duas pessoas estão unidas no íntimo de seus corações
podem romper até mesmo a resistência do ferro e do bronze.
E quando duas pessoas se compreendem plenamente no íntimo de seus corações
suas palavras tornam-se doces e fortes como a fragrância das orquídeas"

terça-feira, julho 27, 2010

Historinha assim

Ela foi criada com modos franceses e ele era quase um príncipe dinamarquês. Conheceram-se pelos corredores, coisas de almoços corridos ou talvez até cafés extremamente doces. Ela até gostava de ter trocado o sol dos trópicos pelos dias gélidos paulistanos. Ele sempre achou que estes dias especialmente nublados eram o melhor espelho da sua personalidade.

E depois veio um sim, talvez, trocaram telefones. Tomaram vários cafés decentes, alguns croissants na porta de casa. Até faziam planos: cachorros, teriam dois. Ela gostava daquele jeito meio ranzinza, excessivamente cáustico dele. Ele descobria o que havia por trás daquela aparência frágil, daqueles modos levíssimos em se acordar diariamente bem-humorada rumo a escravidão branca.

Tanto se aproximaram que, de súbito, aconteceu. Porque, por mais que houvesse carinho e compreensão, vocês bem sabem que o inconsciente exige mais. Vieram logo as exigências do amor tranquilo, em decifrar toda a movimentação óbvia que se seguia num aproximar de mãos, numa promessa aparentemente simples que seria passaporte pra quele happy ending tão sonhado.

Pois bem, ele namorava - não com ela. Coisa meio que morando junto, casamento moderno, dividindo o carro e a máquina de lavar. Nunca ela exigiu - embora quisesse. Ficavam, assim, num jogo de sedução tênue sem arredar da posição inicial. Ninguém queria dar o passo. Ninguém oferecia a mão. Fingiam que o mundo era o mundo deles, na organização do bule de café da padaria, anestesiado nas conversas sobre Calvin e Haroldo e nas idiossincrasias alheias.

Quando não se aguentava mais tantas promessas não cumpridas, ele foi para longe. Coisa assim, delírios tropicais em algum lugar da linha do Equador. Voltou corado, repleto das lagostas e dos camarões que havia comido. Voltou pleno do amor estável que tinha, destas banalidades que só anos próximos conseguem. E ele não ligou mais.

Ela chorou. Seus modos europeus só a deixaram chorar um dia. Até daria uma chance, até venderia seu mundo sem garantias que algo fosse acontecer. O fato é que ele, dinamarquês, nunca conseguiu fugir de sua natureza soturna. Havia perdido aquele embalo para o movimento acontecer, desaprendendo a soltar as velas no vento favorável. E, dia a dia, foram-se esquecendo um do outro.

Veio a indiferença tensa, para depois a irritação corriqueira e, no final, somente um incômodo passageiro. Ele foi abandonado pela namorada. Ela procura apartamento novo e ainda quer ter um cachorro.

quinta-feira, julho 22, 2010

De Maria Anita

Roubado de minha grande companheira fugidoura, hoje psiquiatricamente lotada na Califórnia brasileira. Se o texto já tem seus bons 4 anos de idade, nunca se encaixou tanto num daqueles momentos em que se parece que há quase tudo nas mãos e, ao mesmo, há aquela coisa ausente que sempre atormenta.

Saudades de lê-la & vê-la é coisa que nem digo.

"Então, estou confusa esses dias. Bem confusa e um pouco insegura quanto ao rumo das coisas. Eu notei, de uma hora pra outra, que o mundo muda muito rápido e que tudo que você acha que é, que vai ser quando você crescer, pode mudar de uma hora pra outra.

As coisas que aconteceram esse nessas ultimas semana me magoaram de uma forma estranha e única. E não me sinto mais a mesma. Me sinto meio oca. Assim sem rumo. Principalmente a noite. Me sinto estranha a noite.

E me sinto sozinha. Mesmo acompanhada, mesmo rindo, mesmo no cinema. Parece que estou sozinha. E sei exatamente o que me falta: saber o que fazer. Simplesmente a falta de saber o que fazer está me deixando assim. A falta de saber qual o caminho certo.

Estou com um pouco de medo porque de repente notei que nada mais é seguro. Nada mais é certo. Os caminhos do mundo são muito amplos e me dói essa vastidão.

E percebo cada dia mais as pessoam que andam comigo e as que simplesmente andam na mesma direção que eu. Porque antes eu não entendia a grande diferença. E agora eu sei. Não foi muito fácil, mas eu sei agora.

Só não descobri ainda o que fazer com as coisas que descobri, nem como lidar com esses espaços em branco. Essas horas pós academia. Com os primeiros minutos antes de acordar.

Mas tenho certeza que o dia em que acordarei me sentindo simplesmente bem está próximo. E há de chegar ensolarado e menos frio. Quem sabe haja praia em algum lugar do meu inverno.

E haja certeza onde agora mora uma desesperança incomum e triste"

domingo, julho 18, 2010

Diário de bordo

Dia 1: Primeiros dias sempre são terríveis. Lugar novo, rotinas novas, o desconhecimento da papelada até a dinâmica do serviço. Como se não bastasse, dia horrível também: uma intubação num hepatopata sangrando até a alma, duas cardioversões num paciente estável, uma parada cardíaca numa paciente com gripe suína. Corre-se de lá para cá, como baratas tontas. Estou enferrujado, não piso numa UTI há ano e meio. Fico irritado, naquele sentimento de que não deveria estar ali.

Dia 2: A dispensa do Brasil e Holanda não rolou, para o meu deleite. O jeito foi assistir o jogo numa televisão chiada, praticamente sem som. Toda UTI é uma gaiola de Faraday perfeita: celular não pega, a TV não sintoniza. O sentimento de isolamento paira, afinal, todos ali são ilustres desconhecidos. Não tenho preguiça de trabalhar, mas quando se rói o osso com conhecidos pelo menos há um sentimento de cumplicidade. No intervalo, meu paciente convulsiona e dou adeus ao segundo tempo. De canto de olho, vou vendo o Brasil se descontrolar na televisão do paciente que foi cardiovertido no dia anterior. Comento com ele: melhor colocar na Record seu João, com esse joguinho é perigoso sua arritmia voltar de novo. Ele ri, eu rio.

Dia 3: O primeiro plantão noturno ganhou um toque dramático: vinha doutro plantão, aquele que paga as minhas contas. Com dois plantonistas a menos, a casa caiu e todos dormiram menos que uma hora na madrugada inteira. De olheiras bem fundas e passo trôpego, abuso da cafeína para me manter acordado. Contabilizo meu cansaço pela quantidade de cafeína que consumo no decorrer do dia: nas 24 horas seguintes, foram cinco coca-colas e quatro cafés espressos. O pensamento não encadeia e quando vejo, no meio da tarde, acordo deitado no balcão de prescrição com uma enfermeira carinhosa batendo no meu ombro: "Vem cá, vou te dar um chocolate". Noite difícil?, ela emenda.

Dia 5: Levanto novamente, antes do amanhecer. Da janela, Sampa parece até um pouco pós-apocalíptica com este céu todo avermelhado. Sempre fumo um cigarro no caminho, pego um metrô quase cheio, desço na doutor Arnaldo e até me lembro de Caio Fernando. As coisas tranquilizam e a conclusão que UTI é mais ou menos como pilotar avião: 95% de tédio, 5% de terror absoluro. A graça da semana é o residente chileno e seu embananamento com o português. Ele grita: você é destra ou surda? Ninguém entende. Perguntamos: canhota? A paciente, com máscara de oxigênio, balança afirmativamente a cabeça.

Dia 6: A Espanha vence e decido ir trabalhar de uniforme reserva da Fúria, aquele branco. Morro de medo da chefe taiwanesa, miúda e de sorriso fácil, fazer qualquer tipo de censura. Tecnicamente, não somos autorizados para almoçar fora da UTI. O que nos resta é almoçar a mesma dieta servida aos pacientes, em simpáticas bandejinhas de plástico. Óbvio que a comida é assódica, balanceada e invariavelmente sem graça. Meus colegas brincam que, para eles, é um mês de spa. Descubro o tráfico de trufas recheadas que acontece nos bastidores, comandada por uma auxiliar de enfermagem. Pelo menos, há algum prazer no intervalo das refeições. Fumar, tenho menos.

segunda-feira, julho 12, 2010

100%, Luiz Felipe Pondé

Atenção, pecadores e viciados em sexo, comida, bebida, dinheiro e poder: vocês estão ultrapassados. Há uma nova ganância no ar: a mania de qualidade de vida e saúde total. Esta ganância é o que o jornal "Le Monde Diplomatique" já chamava de "la grande santé" ("a grande saúde") nos anos 90. A mania de ter a saúde como fim último da vida.

Acho isso antes de tudo brega, mas há consequências mais sérias que um simples juízo estético para esta nova forma de ganância. Consequências morais, políticas e jurídicas: o controle científico da vida.

Agora esses fanáticos estão a ponto de demonizar o açúcar, a gordura e o sódio. Querem fotos de gente morrendo de diabetes no saco de açúcar ou de ataque cardíaco nas churrascarias. O clero fascista da saúde não para de botar para fora sua alma azeda.

Mas, como assim, ganância? Sim, esta ganância significa o seguinte: quero tirar do meu corpo o máximo que ele pode me dar. Inevitavelmente fico com cara de monstro narcisista quando dedico minha vida à saúde total. Sempre sinto um certo ar de ridículo nesses pais que obrigam seus filhos a comer apenas rúcula com pepinos e cenoura desde a infância.

Suspeito que os "purinhos", no fundo, se deliciam quando veem fumantes morrerem de câncer ou carnívoros morrerem do coração. Sentem-se protegidos da morte porque vivem como "pombinhos da saúde". São medrosos. A vida é desperdício, e ganancioso não gosta disso.

No caso da morte, probabilidade é como gravidade: 100% de certeza. Logo, a luta contra a morte é uma batalha perdida, nunca uma vitória definitiva.
Se você não morrer de acidentes (carro, avião, atropelamentos, assaltos, homicídios) ou de epidemias (tipo pestes) ou por endemias (tipo doença de chagas), ou de doença metabólica (tipo diabetes) ou de doenças cardiovasculares (tipo AVC ou acidente cardiovascular e ataque cardíaco), você sempre morrerá de câncer.

Claro, ainda temos contra (ou a favor) a tal herança genética. Você passa a vida comendo rúcula e morre de AVC porque suas "veias" não valem nada. Que pena, passou uma vida comendo comida sem graça e morreu na praia. E vai gastar dinheiro com hospital do mesmo jeito, ou, talvez, mais ainda. Sorry.

Logo, caro vegetariano, escapando de doenças cardiovasculares porque você evitou (religiosamente) gorduras supostamente desnecessárias, você pode simplesmente morrer de câncer porque deu azar com o pai que teve ou porque, no fim, tudo vira câncer, não sabia?

Um dia, esses maníacos da saúde total desejarão processar os pais por terem deixado que eles comessem coxinhas e brigadeiros quando eram crianças ou porque simplesmente tinham maus genes em seus gametas.

Sinceramente, não estou convencido de que viver anos demais seja muito vantajoso. Sem "abusar" da comida, da bebida, do tabaco, do sexo, das horas mal dormidas, não vale a pena viver muitos anos.

A menos que eu queira ser uma "freira feia sem Deus", o que nada tem a ver com freiras de verdade, uso aqui apenas a imagem estereotipada que temos das freiras como seres chatos, opressores e feios , ou seja, uma pessoa limpinha, azeda e repressora.
Como diz meu filho médico de 27 anos, "nunca houve uma geração tão sem graça como esta, obcecada por viver muito". Eu, pessoalmente, comparo esta geração de pessoas obcecadas pela saúde àqueles personagens de propaganda de pasta de dentes: com dentes branquinhos, cabelos bem penteados e com cara de bolha (ou "coxinha", como se diz por aí).

Dei muita risada quando soube que alguns cientistas estavam relacionando câncer de boca à prática frequente de sexo oral. Será que sexo oral dá cárie também? Terá a vida sentido sem sexo oral? Fazer ou não fazer, eis a questão!

Essa ciência horrorosa da saúde total deverá logo descobrir que sexo oral faz mal, e aí, meu caro "pombinho da saúde", como você vai fazer para viver sendo perseguido pela saúde pública? Talvez, ao final, não seja muito problema para você, porque quem é muito limpinho não deve gostar mesmo dessa sujeira que é trocar fluidos e gostos por aí.

(Folha de São Paulo, dia de hoje)

sábado, julho 10, 2010

Mas

Eu gosto de você, mas não sei se estou gostando de mim.

sexta-feira, julho 09, 2010

O Encanto

Vejam bem, está tudo bem. Tenho ido do trabalho para casa, vezenquando só uma escapulida para me afogar em álcool sem muita culpa. A vida tem se desenhado num cotidiano morno e confortável, do jeito que sempre pedi. Todos me ligam, surpresos com a tranquilidade: onde andará você? e digo: diz que fui por aí, não tenho feito nada mesmo.

E o mundo continua girando. E, numa esquina destas, sempre existe alguém que vale um sorriso cúmplice. Acerta as primeiras referências, cita Caio F sem saber dos perigos. Vai me exibindo uma nesga de mundo que poderia ser minha e me surpreendo sempre ao me encontrar no português irretocável alheio, nas músicas que você diz gostar e que desenham o meu próprio roteiro sentimental.

Surpreendo-me, pois. Havia achado que, dentro de toda paz que me encontro, essas pessoas interessantes desapareceriam, voltando aos seus planetas distantes. Esconderiam naqueles bares à meia luz cheirando carvalho, enquando o dry martini não fica pronto. Ou talvez eu seria acometido daquele tipo de miopia, incapaz de reconhecer a beleza quando aparecesse.

Eu não consigo perder a capacidade de me encantar. Agradeço, silencioso, a bênção proporcionada só com uma ponta de exasperação. Sempre bom descobrir que, dentro do mundo estreito que me encontro, lá fora ele continua vasto, tão lindo palpitando nos embalos daquelas nossas bandas escocesas...

quarta-feira, junho 30, 2010

Heart in a Cage

"Well I don't feel better
When I'm fucking around
And I don't rise better
When I'm stuck in the ground
So don't teach me a lesson
Cause I've already learned
Yeah the sun will be shining
And my children will burn

Oh the heart beats in its cage"
(The Strokes)

Burn out

O amor tranquilo finalmente chegou, o suor & o sangue rendem bem mais que deveriam, a vista do apartamento é algo embasbacante, lá em casa nem é mais tão Iraque emocional. Então, feliz para sempre?

Pois é. Tenho resistido a um impulso imenso de me deixar afogar nos edredons, quase todos os dias dessas manhãs geladas. Encontro-me irritadiço, quase sem paciência. Se embarco diariamente na rotina louca de três empregos é puramente pela necessidade de movimento. É o carro batido que o seguro não resolve, o box errado que a empresa não troca. O cansaço de todas as sextas perdidas, "salvando vidas" de pessoas que te ameaçam. Quero parar de fumar, mas o pequeno prazer que a nicotina proporciona nas pausas é algo que não queria abrir mão.

Vai passar, é só momento. Repito e repetem isso para mim, quase mantra. Não há muito como escapar. Penso isso quando o despertador toca, quando bate aquele desejo de alegar insanidade e fugir para o Taiti. O que me resta, tão somente, é usar e abusar da negligência estratégica. E quando o esgotamento bate nervoso, só penso em Caio: murmuro que seja doce, sete vezes.

terça-feira, junho 22, 2010

Uma outra estação, o epílogo

Aquela outra estação terminou quando se ligou o carro, serra acima. Durou pouco mais de três meses - quase, de fato, uma estação - entre os cinco minutos daquele jantar japonês e o segundo dia deste ano. Quase tudo é real, muito embora mastigado, repensado e revisto com vagar.

Nada, aparentemente, mudou. Ninguém entrou, ninguém saiu, não plantei uma árvore nem escrevi um livro. Foram dias leves e desapegados, num hedonismo quase sem culpa e bem direcionado. E, vejam, não que aqueles dias tivessem um objetivo maior. Construído dentro do caos de quem não tem um rumo definido, fui-me indo, fui-me levando, até que se desaguassem no sossego de um esgotamento simples.

Não aconteceu porque não deveria acontecer: seja porque não consegui transmitir segurança sem ter os dois pés fincados no chão, seja porque o coração não suporta tantos mil quilômetros de distância, seja porque três é demais, ou também porque cães velhos não aprendem truques novos ou, simplesmente, porque estava tonto de carência e ilusão. E, apesar de tantas negativas, cada qual deixou a medida exata do carinho e da confiança. Da exasperação em frente ao espelho antes do encontro, da taquicardia pavloviana quando o celular vibrava num momento em que não poderia atender. E, mesmo que errados, trouxeram uma confiança no passo e no caminho, sem a soturnidade do discurso de quem se fecha na mágoa do amor rompido ou na mesquinhez de quem foi sabotado e busca revanche.

Não acho que o amor seja aprendizado. Não acho que as pessoas mais sábias são aquelas que muito sofreram e estão cheias de conselhos recalcados para distribuir. O que há de maior é a capacidade do encanto, ainda que sejam naturalmente fugazes. Gosto de relembrar daquele domingo ouvindo rádio num colchão inflável, na forma que você ralhava comigo por tomar Coca-Cola depois de ter escovado os dentes, naquele último cigarro silencioso que dividimos, de correr fugindo de uma tromba de verão. Isto, só, deveria bastar. E basta, apesar dos desencontros.

***

Naquele dia primeiro, tanto choveu que ficamos ilhados num chalé (clichê? lógico!). Tão ilhados, água no joelho e nada mais para se fazer além de conversar, ouvir música e esperar que o céu fechasse. E ali, com toda oportunidade de contemplar o amor que não me foi dado, outra coisa aconteceu. Sutilezas inesperadas: sentar do lado, deitar no colo e, conforme a noite avançava, um leve cafuné nos meus ou nos seus cachos revoltos. E, o melhor, de maneira espontânea. Não houve jogos ou troca de olhares. Nada além da beleza de duas pessoas que se aproximam, se tocam e gostam da proximidade. Pois é, estava acontecendo de novo. Sempre acontece de novo. E, quando o temporal passou e finalmente conseguimos sair de casa, decidi que o mundo já poderia ser desbravado sem medo.

E assim tem sido.

sábado, junho 19, 2010

A cilada

Existe um gostar mais? Quer dizer, quem gosta mais é quem respira, tropeça e se enfurna completamente no outro? E quando não há este tipo de reciprocidade, pois, sei lá, você por acaso descobriu que seu mundo gira de outras formas: o que fazer?

quarta-feira, junho 16, 2010

Segundo mês

Pois é, nada acontece. E nada acontecer é bom. Quer dizer: para quem sempre esteve acostumado com toda sorte de chantagem e percalços, esta paz costumeira até preenche. Há tranquilidade, falta histeria. Falta aquele sufocamento característico da falta de confiança e do jogo habitual do não-mostrar, da tenacidade em moldar o outro a sua semelhança. Não, não há nada disso.

O que há vale uma história. É o que eu sempre imaginei querer. E, palmas, nem ando me auto-sabotando tanto. Como se do passado não houvesse nada, só aquela aridez característica das coisas que não deram certo. E, na tentativa da inveja do gramado alheio, a impressão é que nada, nada me tira deste conforto que criei.

A benção do amor em paz é algo indescritível.

quinta-feira, junho 03, 2010

Uma outra estação, o último

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
O penúltimo
Ainda o penúltimo

Quando faltavam quinze minutos, chegamos finalmente à praia. Chovia leve, havia chovido desde o entardecer. Você, agora estava confortável. Via, de soslaio, enquanto se afastava da roda de boteco para sentar na areia e ficar ali, imerso com os próprios demônios. No último dia, o outro chegaria descendo a serra na insanidade de quem enfrenta o caos pela benção do encontro. E, neste dia, você pouco conversou. Percebia que seu celular escorria pelos dedos, bem longe da proposta da tarde leve e despreocupada.

Naquela bagunça de praia tão perto do Reveillon, todos experimentavam uma alegria desenfreada. Que a brisa estava gelada e a cerveja quente, ninguém via. Quanto a mim, o que faria? Eu contava dois anos e meio do primeiro encontro, quase dois anos exatos daquela vez que me desabalei até o Paraná em busca de um pouco de taquicardia. Passei o resto do tempo entre encontros ilusórios, quase migalhas, enquanto você se lembrava do quanto eu era bom, mas sem o exato movimento da aproximação necessária. Pelo amor ser esta malha de insistência, persistência e espera, sempre havia ficado naquele intervalo entre a devoção preocupada e uma ansiedade latente. Sua mudança para Sampa seria inevitável e, nos meus devaneios, o happy-ending-after também. E ali estávamos: eu, você, nós dois, o mar e um movimento de reinício. E do filme que roterizei, num cenário brega de pessoas todas de branco e cidra vagabunda, eu não estava. Seu olhar cúmplice não se encontrava com o meu.

Estouram os fogos, ligo para minha mãe e choro. Ninguém ali era meu amigo, ninguém ali entenderia. Não queria contar para ninguém a saga do ano passado e a expectativa insana por alguma forma de redenção. Do movimento lento, porém contínuo, rumo ao início do poço. Queria que o ano começasse sob o signo da leveza, da paz estabelecida. Eu queria de bandeja tudo o que disseram que eu sempre mereci. Eu queria que desse certo, na verdade, baby.

Todos se abraçam, votos de boa sorte. Quando chega a sua vez, o abraço é forte. Cheek-to-cheek, ainda me diz: queria que você soubesse que tenho um carinho muito grande por você.

quinta-feira, maio 27, 2010

Eu te amo

(para ser escutado ao som de Chico Buarque, Eu te amo)

Pareceria até um tanto ridículo de confessar, mas o fato é que eu, aos vinte cinco anos, nunca havia escutado um eu te amo que valesse. Quero dizer: nunca havia construído algo que chegasse naquele ponto em que se dessem as mãos, a tranquilidade no peito, toda a taquicardia em se abrir a guarda.

E, vejam, nem foi por falta de procura. Na verdade, quase toda a parcela de culpa estava na minha incapacidade de escolha, nos meus eficazes mecanismos de auto-sabotagem. Sempre tive uma queda por relacionamentos tipo síndrome de Estocolmo, onde era eu o sequestrado. Tive, nos últimos anos, tudo o que não era e não devia. De realmente estar investindo, de peito aberto, para que se escorresse pouco tempo depois pelos dedos sem que muito pudesse ter sido feito.

O amor, para mim, sempre foi algo difícil. E não que houvesse em mim uma aridez, uma incapacidade em lidar. Não que nunca tivesse querido estas fábulas românticas de gôndolas, passeios pelo parque ao entardecer. Não, nunca acontecia. Todos estão tão dangerizados pelo mundo cão, pregados nos desejos egoístas, na vaidade burra de se querer algo além do suficiente.

E não vou fazer a linha, aqui, da redenção pelo sofrimento. Acredito mesmo é na falta de sorte, do acaso fortuito. Porque, contarei: aconteceu. De presente, mãos dadas num dia frio, perdidos no Largo do Arouche logo após o show do, aham, Sidney Magal. Bêbados, trôpegos, havia uma gangorra. Ficamos naquele sobre e desce pueril, vários minutos. Aglomerações passavam enquanto o show do, aham, Luiz Caldas não acontecia. Até que você desceu, pegou nas minhas mãos e disse, numa ternura tão fácil:

quarta-feira, maio 19, 2010

"Now the drugs don't work
They just make you worse
But I Know i'll see your face again"
(The drugs don't work - The Verve)

Hoje o dia amanheceu até ensolarado, apesar de tudo. Talvez porque já tenha acabado tudo em casa. Se você viesse aqui agora, só teria um copo d'água para te oferecer. Talvez eu nem abrisse a porta. Talvez eu nem te oferecesse um copo d'água. Porque você viria com todo seu juízo moral, as frases feitas, suas críticas mordazes. Eu não preciso te escutar, eu precisava de você, como eu precisei de você. E você nunca veio. Sim, porque você só falava do sofá mal-arrumado ou do equilibrismo imperfeito dos pratos da pia. Que eu precisava ser sempre mais, sempre mais. E eu não conseguia. Você sempre menos, sempre menos. Eu desaprendi o caminho da minha porta, você também. Seu sorriso se apagou nos cinzeiros de casa. Você e sua mania de câncer de pulmão. Você e todas essas manias irritantes, invasivas. Você bagunçando minha bagunça. Você bagunçando minha vida.

Talvez eu me recupere, apesar de você. Vou melhorar sem você. Quem sabe eu demore um dia ou dois para me recuperar. Às vezes eu até me aventuro pela sala, pelo telefone. Porque você é assim, tão irritantemente especial? Porque sabemos que vai começar tudo de novo, você virá, a bagunça, os pratos, os cigarros, o banheiro. Nunca muda. Porque depois de tudo que tomei ontem a noite, só cheguei a uma única conclusão: de todos os meus vícios, o maior deles é você.

"If Heaven calls
I'm coming too
Just like you said
When you leave my life
I'm better off dead"
(The drugs don't work - The Verve)

quarta-feira, maio 12, 2010

Moralidade (2)


Não que tenham me metido um tiro na cabeça no dia do meu casamento, ou me trancafiado em um presídio para testar qualquer tipo de vírus mortal. Nem que valesse, assim, uma novela das oito ou um livro do Dumas. É uma historinha simples e banal, daqueles lapsos que contamos em cinco minutos de buteco.

E não que eu tenha feito disso uma vendetta pessoal ou tenha planejado isso pelos cantos. Só aconteceu. Vingancinha daquelas bem pequenas, pura dor de cotovelo de amor não dado. Eu quis você, você não me quis, não seria isto natural neste aquário imenso de pessoas? Daí o mundo gira muitas vezes e, meses depois, quem você queria está nos meus braços. Não só: estamos felizes.

E por mais que o ocorrido tenha se feito de um bocado de acasos, gosto do desenho que se fez. Você até ignora, um cumprimento protocolar enquanto estou sozinho. E eu sorrio de soslaio, sem dizer nada além de boa noite, abraço anormalmente fugaz. Nada mais se fala: só percebo seu olhar de soslaio, na curiosidade em se ver o que está sendo, por aqui.

Se vingança nunca é plena, pelo menos há este prazer imediato e involuntário. Não, não sou Madre Teresa, já falei. Nunca fui de puxar tapetes, até sempre tenho sido bem ético nas minhas movimentações. Só que quando cai de bandeja no colo, pra que negar? Daí acendo meu cigarro, faço um carinho ligeiro, fico de mãos bem juntas.

A felicidade que há aqui poderia ter sido sua, baby.

sábado, maio 08, 2010

Moralidade

Dá para confiar em quem se auto-intitula: um egoísta, daqueles que só pensam em si mesmo? Tudo bem que, depois de anos de convivência, se percebe que grande parte do discurso vem a calhar com a insistência naquela imagem do Príncipe Dinamarquês soturno, do indivíduo borderline que tenta procurar seu espaço na contramão do mundo. Eu até tenho uma simpatia imensa pelo tipo, confesso. A situação, agora, é outra.

Estou falando daquilo que move o mundo, grana. Falo de algo que posso assumir sozinho, sem muitos atropelos, com a vantagem de poder comprar meu Nintendo Wii à vista num futuro quase imediato. Ou, na base da camaradagem, carregar o piano junto só pelo prazer de se estar junto, dividindo os louros pelo prazer de se fazer algo que gosta com alguém que se tenha alguma afinidade.

Lógico que eu tenho os meus defeitos, passo longe da Madre Teresa de Calcutá. Sempre desconfiei muito mais dos altruístas convictos, de quem enche a boca para dizer que se enfia num barquinho pelo Mar do Norte para salvar as baleias dos islandeses. Não estou pregando moralidade de discurso nenhum: até respeito quem admite uma característica de caráter malvista pela sociedade.

A questão é apostar as fichas sem esperar reciprocidade. Amizade não seria isso? Seria. Mas, dá para considerar amizade quando o que se tem é proximidade sem necessariamente ter intimidade? Postergo minha televisão de LED em troca de um voto de confiança?

Minha mãe sempre diz que cães velhos não aprendem novos truques e não paro de pensar nisso. E, às vezes, gostaria ainda de ser aquela Pollyanna surtada, divertindo-se com o jogo do contente. Como diria Wilco: "I miss the inocence I've known".

quinta-feira, maio 06, 2010

Growing up

E daí que a vida dá uma guinada. O apartamento desenrola e se transforma numa das melhores experiências que se pode ter na vida: a qualquer hora, todas as luzes paulistanas iluminando a escuridão, coisa que não se paga. Vejo-me agora paquerando micro-ondas e me questiono: inox? Deveria ele combinar com a máquina de lavar, tão branca? Me pego lavando as roupas, organizando as caixas de uma forma lógica e um esforço sobre-humano para manter cada coisa em seu lugar. Me pego fitando os azulejos, querendo-os de outra cor com armários, um balcão de madeira e zás: calma, Gabriel - alguém me diz. As pendências ainda enrolam e quero que chegue logo o dia em que eu acorde sem um check-list de dez coisas para fazer.

O terceiro emprego aparece e até penso em aceitar. Trabalhar às sextas é coisa que tem cansado, a residência se arrasta por horas intermináveis, mesmo que paradoxalmente o ano esteja quase batendo a metade. No caos e no atropelo, sem voltar para casa e sem muita margem para maiores movimentos, tudo corre bem e controlado. Parece que tudo está onde deveria estar. Abro as portas de casa, recebo abraços longos e carinhos atentos. Existencialismos, aquelas crises pequeno-burguesas habituais nem reverberam.

Na metade da ponte dos vinte anos, tudo adquire um ar de seriedade transitória. Mesmo assim, desliza fácil. Sinto-me capaz de imprimir ao meu mundo a cadência do movimento e tudo o que me cabe é suficiente. É estranho estar tão satisfeito nesta calmaria, mas tenho me esforçado em pensar que calmarias não são só períodos entre tempestades.