quinta-feira, dezembro 17, 2009

Uma outra estação, parte 4

Lá no alto, deu pânico. E não seria loucura demais essa história de malas afora em dois dias? E não seria demais ter tanta esperança em três mensagens trocadas madrugada adentro? Até rolou medinho, confesso. Mas lá do alto havia um mar tão lindo refletindo o fim do dia, havia um espírito aventureiro que me deu de súbito. Era outra estação, nada podia dar errado. Nada podia dar errado sob uma atmosfera de tanto bem-querer.

E não daria. Até o atraso, fruto de um trânsito ruim na Rio-Niterói, foi estratégico. Ninguém ali na rua perceberia a intensidade do nosso encontro: primeiro um sorriso lento, depois um abraço devagar e apertado, até quando a mão escapa e acaba na nuca num cafuné desfarçado. Bom que você veio, dissemos quase ao mesmo tempo. Noite já caia, tépida, pedindo rua, pedindo contemplação da Lua...

Foram dias de pouca grandiloquencia. E quando disso, não quero dizer que foram dias banais. Comportamos como se fôssemos velhos conhecidos, reconhecendo a cadência do discurso, adivinhando tiques banais. Naquela atmosfera, parecíamos nos bastar. Trocamos a agitação de uma sexta-feira cheia de possibilidades por saladinha no shopping Leblon, à meia luz. Trocamos um sábado em Ipanema por aniversário em São Gonçalo, entre carinhos de piscina e energia boa. E enquanto atravessávamos o Rio de lá para cá, conhecê-lo pela janela: aqui a Marina e ali o Pão de Açúcar, por aqui o Jardim de Alá e seguindo reto paramos na Gávea. Até perceber que o Rio fica lindo de longe, visto de Niterói ou de tão perto, por Copacabana ou pela Lapa.

Redescobrir o Rio foi isento, pasmem, de grandes dores. Pela Nascimento Silva só passei atravessando, bem longe do número cento e sete. Pela calçada do Leblon, na segurança de mãos tão leves, nem sobrou tempo para dores muito sofisticadas. Sem abismos, sem pregressos. Só ali, no raso e no simples. Qualquer bossa ao fundo, puro paraíso tropical.

E sem apegos. Hesitava, não queria mais estes amores de ponte aérea. Desde o primeiro segundo, ali no hall do Santos Dumont, exercia a difícil arte do desapego. O que não impediu, quando tão bêbados tropeçando pela sua casa, você me disse: ah, podia ser sempre assim, você poderia morar aqui para termos isso todo dia. Concordei, com o mesmo discurso. Talvez, se morasse no Rio seria um pouco mais bronzeado e até aprenderia a tomar banhos de mar. Talvez, se você morasse em Sampa, passearíamos sob a garoa gelada pela Paulista nestes dias nublados tão encantadores que só essa selva sabe oferecer. Mas não é, pisávamos no real. E ficou por isso.

Na última noite, voltamos. Deitamos. Dormimos, tão cansados de tanta coisa. Ali pela madrugada, tenho sono leve e acordei. Lá fora, caia uma chuva que descobri que no dia seguinte havia inundado ruas e derrubados barreiras. Aqui dentro, ar-condicionado em temperatura polar e corpos bem juntos para espantar o frio. Em simetria: suas mãos em minhas mãos, pernas entrelaçadas, meu queixo posto na nuca e aquele perfume vago de banho e sabonete. Era lindo este reconhecimento imediato do movimento, do espaço. Era de uma ternura encantadora.

Eu quis apanhar aquela ternura num gesto lento, exato. Segurar por entre os dedos, bem firme, como se não quisesse nunca mais, nunca mais largar.

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