segunda-feira, dezembro 28, 2009

2009

Baby, baby,

Queria dizer que foi difícil, sabe? E que foi difícil bem longe das obviedades. Porque, no inquérito pequeno-burguês: trabalhei bastante e bem. Ninguém que eu amasse morreu tragicamente ou se perdeu no mundo. Segui firme nas metas, nos objetivos. Mas, me perguntaram: então o ano foi bom, ótimo, lindo, né? Daí hesito.

E é difícil explicar. Talvez porque eu precisasse de outras coisas: tão sedento pela ilusão do happy-ending, ridiculamente orgulhoso quando contrariado. Talvez porque quisesse mesmo era uma epifania, destas óbvias, brilhantes e simples.

O ano foi lindo, sim. Pelo que me proporcionou, de tanta gente boa que surgiu. Pelo exercício da superação, o desapego da carência, a racionalização dos movimentos e, às vezes, em aceitar que é assim mesmo, não tem remédio, deixa estar. Não é porque não se está onde queria que o movimento todo fica vão.

Tem anos que fecham assim, agridoces. Destes que, com um pouco mais de distanciamento, perceberei que, sim, foi fantástico e redentor. Mas, por enquanto, deixo-o com calma e sem histerias. Ando pé ante pé, silenciando a respiração e espero que o que vem, o que será, aí sim: arrebentará no carnaval dos mais doces...

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Uma outra estação, parte 4

Lá no alto, deu pânico. E não seria loucura demais essa história de malas afora em dois dias? E não seria demais ter tanta esperança em três mensagens trocadas madrugada adentro? Até rolou medinho, confesso. Mas lá do alto havia um mar tão lindo refletindo o fim do dia, havia um espírito aventureiro que me deu de súbito. Era outra estação, nada podia dar errado. Nada podia dar errado sob uma atmosfera de tanto bem-querer.

E não daria. Até o atraso, fruto de um trânsito ruim na Rio-Niterói, foi estratégico. Ninguém ali na rua perceberia a intensidade do nosso encontro: primeiro um sorriso lento, depois um abraço devagar e apertado, até quando a mão escapa e acaba na nuca num cafuné desfarçado. Bom que você veio, dissemos quase ao mesmo tempo. Noite já caia, tépida, pedindo rua, pedindo contemplação da Lua...

Foram dias de pouca grandiloquencia. E quando disso, não quero dizer que foram dias banais. Comportamos como se fôssemos velhos conhecidos, reconhecendo a cadência do discurso, adivinhando tiques banais. Naquela atmosfera, parecíamos nos bastar. Trocamos a agitação de uma sexta-feira cheia de possibilidades por saladinha no shopping Leblon, à meia luz. Trocamos um sábado em Ipanema por aniversário em São Gonçalo, entre carinhos de piscina e energia boa. E enquanto atravessávamos o Rio de lá para cá, conhecê-lo pela janela: aqui a Marina e ali o Pão de Açúcar, por aqui o Jardim de Alá e seguindo reto paramos na Gávea. Até perceber que o Rio fica lindo de longe, visto de Niterói ou de tão perto, por Copacabana ou pela Lapa.

Redescobrir o Rio foi isento, pasmem, de grandes dores. Pela Nascimento Silva só passei atravessando, bem longe do número cento e sete. Pela calçada do Leblon, na segurança de mãos tão leves, nem sobrou tempo para dores muito sofisticadas. Sem abismos, sem pregressos. Só ali, no raso e no simples. Qualquer bossa ao fundo, puro paraíso tropical.

E sem apegos. Hesitava, não queria mais estes amores de ponte aérea. Desde o primeiro segundo, ali no hall do Santos Dumont, exercia a difícil arte do desapego. O que não impediu, quando tão bêbados tropeçando pela sua casa, você me disse: ah, podia ser sempre assim, você poderia morar aqui para termos isso todo dia. Concordei, com o mesmo discurso. Talvez, se morasse no Rio seria um pouco mais bronzeado e até aprenderia a tomar banhos de mar. Talvez, se você morasse em Sampa, passearíamos sob a garoa gelada pela Paulista nestes dias nublados tão encantadores que só essa selva sabe oferecer. Mas não é, pisávamos no real. E ficou por isso.

Na última noite, voltamos. Deitamos. Dormimos, tão cansados de tanta coisa. Ali pela madrugada, tenho sono leve e acordei. Lá fora, caia uma chuva que descobri que no dia seguinte havia inundado ruas e derrubados barreiras. Aqui dentro, ar-condicionado em temperatura polar e corpos bem juntos para espantar o frio. Em simetria: suas mãos em minhas mãos, pernas entrelaçadas, meu queixo posto na nuca e aquele perfume vago de banho e sabonete. Era lindo este reconhecimento imediato do movimento, do espaço. Era de uma ternura encantadora.

Eu quis apanhar aquela ternura num gesto lento, exato. Segurar por entre os dedos, bem firme, como se não quisesse nunca mais, nunca mais largar.

domingo, dezembro 06, 2009

Uma outra estação, parte 3

Daí, voltei. Trabalhei uma semana, como se fosse a última. E vieram férias. Daí, eu fui de novo.

Fui para além do rio Grande. Fui para Minas, minha casa por tantos anos. Nada assim que fosse muito grandioso: primeiro, um casamento. Depois, ficar naquele embolamento sem motivo com tanta gente que gosto tanto. Noites tépidas de bebedeiras na praça, aventuras nos drive-thrus madrugada adentro, recolher todo carinho plantado por tanto tempo e ficou ali, vingando, à distância.

Quando ali pela terça-feira, celular toca. A mensagem é simples, também inesperada: sabe, estava pensando em você, deu saudade - coisas assim. Sorri. Era do Rio, destes amores telegráficos que acontecem e se mantem numa energia positiva. Respondo: ora veja, não diga essas coisas. Estou de férias e num estalo estou aí. A resposta, foi sucinta: então venha.

Daí, aquele atropelo: corre pra internet, vasculhando as passagens baratas. Ligo para os amigos pedindo benção, pedindo conselho do onde ir, onde ficar. Chego em Sampa, compro mala (daquelas pequenas, uma pessoa, viagem curta) e filtro solar e várias bermudas, também faço a barba pra ficar bem rente e escolho, com atenção, todas as camisetas que gosto tanto até pensando qual dia vai ser o dia daquela salmão que gosto tanto e daí a viagem é amanhã, dá insônia, poxa, é o Rio né e, poxa, eu tenho trauma do Rio. Sou daqueles que até escutam, nas bebedeiras amargas: "eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de Sol".

Daí, chegou o dia. Um pulo no Anhembi, abotoado até o pescoço para parecer alguém respeitoso. Conto as horas, tipo duas da tarde e saio. Sampa ainda estava desgovernada por conta do apagão e ali pelas três da tarde já batendo os cem quilômetros de congestionamento. Vamos, devagar e sempre, preso na Marginal. Vejo as placas, escuto no rádio: tudo parado, piorando. Presto atenção, para constatar: estava do lado errado.

Desespero, e agora? Pego o primeiro retorno, vejo as faixas: pontes em obras, caos urbano. Pela primeira vez, penso que não vai dar. Ultrapasso caminhões perigosamente, embico por caminhos que sabe se lá onde vão dar, cruzo a ponte, pego outro lado. O rádio vaticina: cento e cinquenta quilômetros, vai piorar. Relógio marca quatro horas, mais uma hora e meia perco o voo. Daí, desespero.

Queria ir ao Rio. Pela possibilidade da leveza, da beleza, da ternura. Queria ver o Rio bossa tranquilo, sem as dangerizações do Reveillon. E se desse errado, no clima da outra estação, nada impedia de praia, mojito na mão, óculos escuros & mar com o desconhecido todo pela frente.

Fecho os olhos, suspiro. Vai dar. E vai dando. Pela Marginal, pego a Dutra, chego em Cumbica. Piso no check-in, deixo as malas, ainda sobra tempo prum Quarteirão com Queijo devorado em três dentadas no aeroporto. Daí, chamam: atenção voo de Cumbica em direção ao Santos Dumont, embarque imediato. Tardezinha, tempo bom e aberto. Partimos quase seis da tarde.

E depois, bem.