domingo, novembro 22, 2009

Uma Outra Estação

Nem foi porque o calendário passou o solstício. Também, nem foi porque Sampa de repente se tornou essa cidade abafadiça, suarenta, sob este tórrido sol senegalês. Nem a iminência das férias, a promessa de dias absolutamente vazios de responsabilidades grandiosas. Só sei que foi acontecendo. Coisas assim, telefonemas leves para dizer sobre pequenas belezas, vagos arrepios. Foi minha hermana, companheira das montanhas-russas que este ano proporcionou, que cantou a bola numa terça-feira qualquer: "pois é, hermano, acho que vem chegando outra estação".

E veio vindo, devagar. Num domingo daqueles, quando Augusta tão coalhada de gente respirando a brisa suave que escapava por entre os prédios, tipo orla de mar. Fomos nós dois, hermanos de mãos bem dadas, peito aberto. Cerveja gelada aqui e ali, conversas rolavam naturais entre abraços sinceros, encontros inesperados. E, de tão bom estar ali, até se esquecemos de procurar atentos, naquela sede de quem há tanto não vive nada em intensidades. Daí, aconteceu.

E acontecendo, nem deu vontade de contar toda história longa dos amores que poderiam ter sido e não foram, nem a frustração da ex-namorada que agora, após todos os sonhos desfeitos, será mãe. Fui dizer: do apê que não sei pra quando mudo, daquela época em que se pedir fogo na balada era a melhor forma de proximidade. Fui querendo ter tudo aquilo de novo, sabe? Aquela tranquilidade de ter alguém dormindo no peito, tipo domingos vazios com rádio ligado, Nova FM entre cigarros, cervejas e carinhos. Histerias telefônicas, para ligar com voracidade e dizer quase nada, essas cotidianidades de agora estou aqui, saudade é tanta. Até queria saber francês para dizer ali, ao pé do ouvido: tenho gostado tanto de você, mon petit.

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