quinta-feira, novembro 26, 2009

Uma Outra Estação, parte 2

O que veio em seguida foi promessa de mar. Ok, travestida de compromisso de trabalho, congresso, coisa assim. Mas eu, de tão leve que estava, decidi negligenciar: comprei filtro solar, tirei as bermudas da gaveta, prometi conchas, escolhi aquele hotel na boca da praia. E fui.

Para mim, qualquer mar seria leveza. Maceió foi um descalabro. Um céu azul iluminado, sem nuvem qualquer, refletindo naquela água tranquila e morna. O Sol de estourar miolos e especialmente desenhado para tostar minha pele tão despreparada para estas tropicalidades.

Responsabilidades? Joguei-as logo ao alto no primeiro dia. Deixei o terno na mala para me entregar a uma rotina de cervejas tarde adentro, camarões para não se ficar com fome e lagostas, imensas, nos almoços e jantares. Tanta beleza, tanta vontade de mãos juntas, de passar minutos no mais completo silêncio só para interromper: mostrando aquela jangada ao longe que vagueia leve, do azul que muda de tom quando o dia vai caindo e a luz passa dum amarelo pleno para aqueles tons de laranja mortiços. Dava vontade de aparar nos dedos seus cachos ainda pequenos, bagunçados pelos ventos alísios. Queria mostrar minha pele, como fico coalhado de sardas quando fico mais de cinco minutos ao sol.

Por isso ligava. Todos os dias, com coração taquicardizando. Com medo do ridículo, nem dizia grandiosidades: só dividia essas pílulas de felicidade salgada, coisas que escapam por entre os dedos se não são compartilhadas. E até podia um: queria tanto você aqui, era pura verdade. Só não disse porque outras estações possuem outras exigências, menos histerias imediatas. O que não me impedia de, quando ia dormir, pensar, repensar. O corpo gemia, dolorido das ondas e do sal. Fechava os olhos e nos via ali, entre coqueiros clichês e havaianas, dançando cheek-to-cheek: moon river, wider than a mile...

domingo, novembro 22, 2009

Uma Outra Estação

Nem foi porque o calendário passou o solstício. Também, nem foi porque Sampa de repente se tornou essa cidade abafadiça, suarenta, sob este tórrido sol senegalês. Nem a iminência das férias, a promessa de dias absolutamente vazios de responsabilidades grandiosas. Só sei que foi acontecendo. Coisas assim, telefonemas leves para dizer sobre pequenas belezas, vagos arrepios. Foi minha hermana, companheira das montanhas-russas que este ano proporcionou, que cantou a bola numa terça-feira qualquer: "pois é, hermano, acho que vem chegando outra estação".

E veio vindo, devagar. Num domingo daqueles, quando Augusta tão coalhada de gente respirando a brisa suave que escapava por entre os prédios, tipo orla de mar. Fomos nós dois, hermanos de mãos bem dadas, peito aberto. Cerveja gelada aqui e ali, conversas rolavam naturais entre abraços sinceros, encontros inesperados. E, de tão bom estar ali, até se esquecemos de procurar atentos, naquela sede de quem há tanto não vive nada em intensidades. Daí, aconteceu.

E acontecendo, nem deu vontade de contar toda história longa dos amores que poderiam ter sido e não foram, nem a frustração da ex-namorada que agora, após todos os sonhos desfeitos, será mãe. Fui dizer: do apê que não sei pra quando mudo, daquela época em que se pedir fogo na balada era a melhor forma de proximidade. Fui querendo ter tudo aquilo de novo, sabe? Aquela tranquilidade de ter alguém dormindo no peito, tipo domingos vazios com rádio ligado, Nova FM entre cigarros, cervejas e carinhos. Histerias telefônicas, para ligar com voracidade e dizer quase nada, essas cotidianidades de agora estou aqui, saudade é tanta. Até queria saber francês para dizer ali, ao pé do ouvido: tenho gostado tanto de você, mon petit.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Este Seu Olhar

Era para ser uma daquelas semanas alucinantes, pré-férias. Daquelas em que eu havia deixado a vida correr negligente, para estourar naquela última em que o parto é obrigatório e não há margens para procrastinações. Era correr de um lado a outro, sem almoço ou sem até aquela cervejinha obrigatória quando anoitece, nestes dias longos de horário de verão.

Pois bem, a semana se ia. Desabalada, mas ia.

Foi quando ali, no penúltimo dia, eu te revi. Coisa assim: eu, atabalhoado, descabelado, cabeça girando a mil, de saída para meu merecido descanso. Logo vi você, ao longe, cruzando o corredor. Parei, esperei. Cumprimentei sorriso breve, leve, nada mais.

O que sempre havia chamado a atenção eram aquelas vezes em que você fumava, plena luz do dia, tão distraidamente. Tão desesperadamente. Ali, roda de médicos, todos naquela vibe higienista pós-Serra, o salvador dos pulmões alheios. Você nunca deve ter notado que eu percebia. E, percebendo isso, por você criei uma imediata simpatia que, talvez, poderia até virar uma conversa fiada depois do expediente que, talvez, até poderia emendar num cinema, talvez teatro se gostasse mais, jantar qualquer coisa por aí e talvez, daí bem talvez, diria o quanto sou sensível a certas pequenas rebeldias e, talvez, cada um aí faça o filme happy end com letrinhas subindo que melhor couber. Enfim.

Pois bem, você chegou, eu resolvi ficar. Burocracias: quadro clínico assim, assado. Hipóteses diagnósticas diversas, prognóstico reservado. Dizíamos tecnicismos. Até quando, ali pelo segundo minuto de conversa, percebi seus olhos certeiros postos em mim. Pesados, quase lancinantes. Daquela iluminação tipo meio-dia, que inicialmente ofusca até a pupila dilatar e se acostumar com tanto brilho. Foi assim: tangenciei o olhar para seus dedos que suavemente tamborilavam na bancada, o movimento assimétrico das linhas de tensão na testa, no relógio que marcava além das sete.

Resolvi pagar pra ver. Resolvi te ver, observar que ali pela íris haviam tantas sardas, efélides no mediquês, sua pupila tão dilatada como se fosse para me apreender melhor e ficamos assim, minutos longos sem que qualquer outra coisa além dos nossos discursos cadenciados. E ali, no meio, a vontade de dizer: ah, fumo tanto nestas noites suarentas e solitárias, tenho tantos sonhos, tantas virtudes e se me desse só um bocado de liberdade, diria que ali, agora, assim, estava pensando em Nara Leão cantando doçuras tipo: "esse seu olhar / quando encontra o meu / fala de umas coisas que não posso acreditar"

domingo, novembro 01, 2009

Life in Technicolor

A leveza sempre foi algo tão difícil de definir. Acabo percebendo-a de formas indiretas, como se fosse aquele entorpecimento depois do primeiro copo de martini ou o arrepio que segue um beijo cinematográfico.

Nestes dias de leveza, nada acontece de fato. Os dias ocorrem um após o outro, sem grandes paixões, sem grandes martírios. Levo o lixo para fora, faço compras no mercado, levo as roupas para lavar. Às vezes, um porre sem maiores perigos, noites vagas de pouco resultado. Não há sede, não há esperanças.

Lá fora, os dias duram mais. Dá vontade de sair de casa, voltar para academia, talvez praia logo mais. Faço planos, compro livros, arremato aquela pólo salmão que há tanto paquerava na vitrine. Na iminência do ano que finda, aquela energia toda boa do destino em aberto para o reveillon, os novos projetos, os novos (des)caminhos. Pela noite, já vejo iluminações. Por aqui dentro, a percepção de que está chegando, ainda que sem cara ou rosto.

Brand new, disseram-me os astros, os signos, as placas da Paulista, os caminhos do Metrô. Coldplay tem tocado tanto por aqui e me diz: "now my feet won't touch the ground".