sábado, outubro 10, 2009

Dos reinícios

Passei este tempo todo tentando escolher as palavras, pra que dissesse o que eu gostaria de te dizer de uma forma que fosse linda, que fosse bela, apesar de triste. Porque, depois de tanta conversa com tanta gente amada, não havia encontrado o corpo correto, o envelope perfeito.

Não queria ter que te escrever de súbito, como estou fazendo agora.

A verdade é que você me dói. Porque sei que você é quem eu sempre quis: doce, leve, divertido, belo, culto. Para se levar ao restaurante num domingo como esse (ensolarado e tépido), para me afagar em sábados como ontem (quando cheguei após 60 horas seguidas de trabalho), para mostrar minha cidade natal, dividir minha casa, minha vida. Se não fosse esta maldita distância, estaríamos juntos desde o segundo que nos conhecemos.

Você me dói porque não posso te ter. Porque eu preciso de você aqui, nas terças-feiras indolentes, para ver como também sei ser ácido quando durmo pouco, teimoso quando contrariado, para aprender a lidar com minha natureza também difícil. Acredito que bons relacionamentos se cristalizam na rotina, para que a linguagem silenciosa se faça, a sintonia se estabeleça. Preciso de carinho, preciso de atenção, preciso de alguém que vele o meu sono enquanto durmo. E, mesmo que você seja meu amor-perfeito, de que adianta se não posso te ter perto de mim? Enterrado até os pés numa rotina absurda, com os finais de semana começando aos domingos às quatro da tarde, essa pandemia toda nas costas...

Não pense que eu não penso em você. Penso sim, às vezes quando tomo banho, exausto, e penso que você poderia estar me esperando ao ver TV. Ou quando desço pra praia de susto e vasculho Maresias inteira atrás de polvo. Ou quando toca Nara, num domingo preguiçoso desses, tomando cerveja sem companhia. Ou quando vi "Pontes de Madison" e chorei quase ininterruptamente por meia hora, grande parte por tua causa. Naquela cena, principalmente: Meryl Streep, dentro do carro, na chuva. Se você viu, vai entender. Senão, veja. Vale a pena.

E também não quero fechar a porta para você. O mundo é vasto, os caminhos são estranhos. Pode ser que nada aconteça e fiquemos nós dois, tontos de amor, separados. Pode ser que você tropece por aí e encontre o amor perfeito, seja feliz pra sempre e me guarde como uma possibilidade tão brilhante - e vice-versa. Pode ser que o destino capriche nas suas brincadeiras e que nos coloque, espacialmente e temporalmente, na mesma sintonia. Eu posso morrer amanhã. Podemos viver a mesma história num final de semana destes, porque não? Eu não tenho a resposta. Ninguém tem a resposta.

E depois destes dias iluminados que passamos, acho que nossa questão não é hoje, nem agora. É algo maior. É na nossa capacidade de se encantar, de lembrar que o amor existe e está por aí, que pode acontecer de novo, mesmo depois de sermos tão dangerizados por quem não nos mereciam. De saber que existe você, aí longe, e tem um sentimento tão arrebatador - e eu também. É agridoce, uma alegria melancólica. Mas é preciso que esse sentimento baste. Sem possessividades, sem estudos de viabilidade. Se paro e penso, não quero você. Não quero que você venha, abra meu mundo por dois ou três dias e depois me deixe só, quando embarcar em Congonhas, mais de mês batendo as cabeças e sangrando por desejar todo um mundo iluminado que não posso, agora, ter. Também penso, meio dramático: e se não acontecer novamente? E se ninguém, tão brilhante, como você aparecer, não vale a pena ter esse pouquinho de luz mesmo por tão pouco tempo?

Eu não sei. Sinceramente, eu não sei. É isso que queria te dizer: eu não sei e estou resignado em minha ignorância. E o que existe por aqui não são alguéns físicos, passados ou presentes. Não há ninguém com rosto ou nome, não há a questão da pessoa X. Hoje, digo, há tanto não me sinto tão livre. Há o aprendizado sentimental pregresso, em que tenho vaga idéia do que quero. Como Cazuza canta, meu sonho de consumo: a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. E só. E dentro disso, vamos indo, vamos batalhando, perdendo noites de sono e chorando, ridículos, na frente do pc.

Quero que você me abrace quando me vir, de peito aberto. E deixe acontecer. Acho que somos melhores quando não pensamos. E saiba: meu ano não estaria sendo tão bom se eu não tivesse te conhecido. Se você não tivesse me libertado. E, independente do que acontecer, sou eternamente grato.

(11/08/09)

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