domingo, outubro 18, 2009

Cinco minutos

Japonês, sexta-feira: estava num daqueles dias do meu merecimento. Não havia almoçado, a fome era muita e, o cansaço, proporcional a fome. Também, a previsão de um dia seguinte longo de trabalho sem muitas margens pra descanso. Entre sushis, cervejas e a companhia de um bom amigo, as coisas seguiam sem grandes sobressaltos.

Daí, telefone toca. Tem tocado muito ultimamente: sejam as agruras daquela enfermaria louca, sejam convites pras boas coisas, seja só tanta gente pra me dizer estou com saudades gosto de você seu sumido e rio dizendo: férias estão chegando, deixa só chegar enfim, telefone toca. Sei quem liga e o telefone fica ali, tocando “I’m a cuckoo” do Belle que gosto tanto. Outros tempos, quando você ligava, era “Young Folks” que precedia seu tom de voz firme e macio, todas aquelas vezes em que no caos de uma segunda você me ligava pra dizer bom dia e qualquer coisa em seguida, não necessariamente importante, mas só porque se falar é bom, enfim. Telefone toca e fico ali, meio ridículo, com ele escorregando pelos dedos. Terceira vez no mês, faço as contas.

Atendo. Difícil atender, difícil não atender. E daí tenho todo o roteiro: o tom de voz vacilante e até mesmo um pouco entediado, conduzindo a conversa em monossilábicos esquivos sem aprofundar muito no momento agora, nem no momento antes, só navegando lento nestas águas que certamente são fundas e tempestuosas. Sei simular bem que está tudo bem brilhando, que não me importo se você está em Guarulhos esperando o avião e enquanto esperava lembrou: de mim. Um ano, você diz. Há um ano, você me trazia aqui. Há um ano tivemos um dia daqueles, engarrafados numa marginal estancada. Frenéticos, trocando pistas, contando segundos. Eu te amava. Amávamo-nos, na ligeireza cotidiana, dentro dos nossos descaminhos: mesmo quando perdíamos o vôo, mesmo quando eu errava a entrada na Marginal, mesmo quando a rinite era braba e eu roncava, gostosamente, à noite.

É mesmo, respondi. Não lembraria. Até tinha visto coisas do Círio nas revistas, mas não tinha ligado a data ao fato. A mão escorrega, sei que preciso desligar logo. Sei que não sou um bom fingidor e só agüentaria pouco além de cinco minutos de indiferença simulada. Da primeira vez que me ligou, estava debaixo de um sol maravilhoso, caipirinha na mão, feijoada esperando. Tá na porta do Veloso, você disse. Logo procurei em volta, coração aos pulos. Quando disse que só havia passado de carro e me visto, coração sossegou. Na segunda, nem atendi. Trabalhando, não tinha visto, mas recebi o convite: jantar, boteco, qualquer coisa assim. Declinei, educado. Conheço meus limites.

A última vez que fui para casa faz um ano, aquela vez. Daí desejo boa viagem, digo que também há muito não vou a minha, desde o Carnaval. Até dá vontade de dizer que minha casa agora é aqui, mesmo no desaconchego de aguardar apê com malas por todos os cantos, me seguro. Passaram dois minutos de conversa, ainda agüento sustentar a indiferença. Se falo de mim, a porta se abre. Sei que, do outro lado, você sabe que dissimulo. Você me conhece, sabe que sou doce, tergiverso sobre minúcias, que gosto muito destas coisas povoadas de detalhes. Sou fraco por lembranças e nostalgias. E também sou extremamente sensível pra estes clichês aeroportuários, tipo Casablanca última cena. Nem quero pensar, quero ficar aqui no raso, no controlável.

Faz-se um silêncio povoado, você diz que está cansado, deve ter trabalhado muito, presumo. Se pergunto, sei que irá me contar o que está fazendo, tudo o que começou depois de mim: mudanças, empregos, sociedades, sucesso. Percebo, nas linhas gerais, que você está bem e isto não me incomoda. Também tenho trabalhado demais, amanhã mesmo estou de plantão. Na cabeça vem Caio, de súbito: “tenho trabalhado tanto...” e seguro, prendo o ar, sei que não posso. Deixo o assunto morrer, acabando-se em murmúrios afirmativos.

Até mais, até breve, qualquer coisa assim. Vejo que entramos no quarto minuto, talvez você queira me vencer pelo cansaço. Eu quero desligar, não quero mais. Não quero ser seu amigo, não quero dividir nada além. Podíamos nos encontrar uma vez por ano, cumprimentar com um beijo envergonhado fingindo que nossa história nem aconteceu. Nem faço questão do ritual do pra onde vamos, onde paramos, para onde queremos ir. Até tento me enganar, na iminência do quinto minuto, que não me importo mais. Pressinto que a máscara já vai cair e vou dizer aquelas verdades que você pressente, que havia dito à exaustão no final daquele nosso verão. Antes disso, conseguimos desligar. Boa viagem, reitero, nada mais. Desligo, arfando, jogo o telefone longe. Ele bate na mesa, desarrumando os sashimis tão alinhados e dispostos. Meu amigo me olha, peço desculpas, respiro fundo: onde estávamos mesmo? E continuo.

Ficou na garganta o pedido: não me ligue mais, nunca mais. Não rompa nosso acordo tácito de me deixar aqui, no ponto em que me abandonou. Não me incomoda saber que você partiu e não voltará mais, nem que te construí à imagem e semelhança das minhas melhores ilusões. Não dói o fato consumado. O que incomoda é sua imagem fantasmagórica na soleira de minha porta, reforçando que eu até era bom, mas não o bastante.

Fecho os olhos e torço, não ligue mais. E no segundo seguinte, até penso: podia ligar, ligue só para eu dizer que não quero que você me ligue. Todos os motivos pelos quais não quero mais e talvez, na morosidade do meu discurso vazio, finalmente acreditar em mim mesmo. É incoerente, eu sei. Sou incoerente, eu sei. Dentro de tudo, sei que ainda sou refém de suas chegadas e partidas e agora, depois da terceira vez, sobra aquela angústia passageira do se você ligar de novo, se trouxer um presente, se me convidar prum jantar? Não queria. Não quero. Só é tão difícil resistir.

Sou um fraco pra estas situações avassaladoras, esse que é o fato.

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