domingo, outubro 25, 2009

A carta de boas intenções

Descobri que gosto de procurar a beleza nas imperfeições e acho que isso explica meu fraco por sorrisos assimétricos, um nariz pouco acima da média, uma personalidade caótica. Também gosto do fácil, do morno, bem rasinho: por isso, não sou destes de simulacros, caras e bocas. Não acho que um bom amor tenha necessidade de se cozinhar em horas de ligações não retornadas, intenções sublimadas. A linguagem das epidermes sempre é soberana nestes momentos.

Gosto de pagar pelas coisas o preço que elas realmente merecem. Seria idiota se dissesse que não gosto de luxo & glamour, mas a maioria das minhas melhores noites foram regadas em copos americanos e lugares improváveis. Gosto das coisas pelo que elas são, não por aquilo que aparentam. E se tenho que escolher, sempre escolho o caminho mais simples.

Nasci para viver a noite, principalmente madrugadas altas. Gosto do grunge, gosto da barba sempre a mostra e cabelo em completo desalinho. Gosto de All Star no pé, quanto mais detonado, melhor. Gosto de cerveja e me ganha quem me acompanha nestas noites vazias, numa boemia sem razão de ser. Gosto de cigarro e me encanta que tem aquele jeito solitário de fumar, sob a luz errante das lâmpadas amareladas de sódio.

Gosto de quem é parecido comigo, mas de uma maneira completamente diferente. Gosto de cooperação e cumplicidade, coisa essencial para que dois mundos complementares se encontrem sem terremotos ou tsunamis. Gosto de muitas presenças, de dormir todo dia e as escovas bem juntinhas aqui e ali, mas também tenho aprendido a valorizar pequenas ausências: ter saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio...

E se você disser que vem, gosto de ficar preparando a alma um tempinho antes. Gosto de taquicardias, gosto do silêncio que precede o toque da campainha até a porta se abrir. Se chover, gosto de andar devagar sob a chuva torrencial, talvez um abraço apertado para dividir o calor. Quando chego estourado de uma madrugada de trabalho, gosto de deitar de mansinho e um beijo terno antes de me afogar em edredons.

Gosto que cozinhe, gosto de levar ao cinema. Gosto de quem me conduza, sem agressividades, para me salvar das minhas bagunças. Gosto de pegar ao acaso um olhar longo, carregado de significados. Gosto muito de domingos. Gosto muito de gostar. E, acima de tudo, gosto da ilusão de que serei feliz para sempre contigo, ainda que esse sempre seja só por uma noite.

domingo, outubro 18, 2009

Cinco minutos

Japonês, sexta-feira: estava num daqueles dias do meu merecimento. Não havia almoçado, a fome era muita e, o cansaço, proporcional a fome. Também, a previsão de um dia seguinte longo de trabalho sem muitas margens pra descanso. Entre sushis, cervejas e a companhia de um bom amigo, as coisas seguiam sem grandes sobressaltos.

Daí, telefone toca. Tem tocado muito ultimamente: sejam as agruras daquela enfermaria louca, sejam convites pras boas coisas, seja só tanta gente pra me dizer estou com saudades gosto de você seu sumido e rio dizendo: férias estão chegando, deixa só chegar enfim, telefone toca. Sei quem liga e o telefone fica ali, tocando “I’m a cuckoo” do Belle que gosto tanto. Outros tempos, quando você ligava, era “Young Folks” que precedia seu tom de voz firme e macio, todas aquelas vezes em que no caos de uma segunda você me ligava pra dizer bom dia e qualquer coisa em seguida, não necessariamente importante, mas só porque se falar é bom, enfim. Telefone toca e fico ali, meio ridículo, com ele escorregando pelos dedos. Terceira vez no mês, faço as contas.

Atendo. Difícil atender, difícil não atender. E daí tenho todo o roteiro: o tom de voz vacilante e até mesmo um pouco entediado, conduzindo a conversa em monossilábicos esquivos sem aprofundar muito no momento agora, nem no momento antes, só navegando lento nestas águas que certamente são fundas e tempestuosas. Sei simular bem que está tudo bem brilhando, que não me importo se você está em Guarulhos esperando o avião e enquanto esperava lembrou: de mim. Um ano, você diz. Há um ano, você me trazia aqui. Há um ano tivemos um dia daqueles, engarrafados numa marginal estancada. Frenéticos, trocando pistas, contando segundos. Eu te amava. Amávamo-nos, na ligeireza cotidiana, dentro dos nossos descaminhos: mesmo quando perdíamos o vôo, mesmo quando eu errava a entrada na Marginal, mesmo quando a rinite era braba e eu roncava, gostosamente, à noite.

É mesmo, respondi. Não lembraria. Até tinha visto coisas do Círio nas revistas, mas não tinha ligado a data ao fato. A mão escorrega, sei que preciso desligar logo. Sei que não sou um bom fingidor e só agüentaria pouco além de cinco minutos de indiferença simulada. Da primeira vez que me ligou, estava debaixo de um sol maravilhoso, caipirinha na mão, feijoada esperando. Tá na porta do Veloso, você disse. Logo procurei em volta, coração aos pulos. Quando disse que só havia passado de carro e me visto, coração sossegou. Na segunda, nem atendi. Trabalhando, não tinha visto, mas recebi o convite: jantar, boteco, qualquer coisa assim. Declinei, educado. Conheço meus limites.

A última vez que fui para casa faz um ano, aquela vez. Daí desejo boa viagem, digo que também há muito não vou a minha, desde o Carnaval. Até dá vontade de dizer que minha casa agora é aqui, mesmo no desaconchego de aguardar apê com malas por todos os cantos, me seguro. Passaram dois minutos de conversa, ainda agüento sustentar a indiferença. Se falo de mim, a porta se abre. Sei que, do outro lado, você sabe que dissimulo. Você me conhece, sabe que sou doce, tergiverso sobre minúcias, que gosto muito destas coisas povoadas de detalhes. Sou fraco por lembranças e nostalgias. E também sou extremamente sensível pra estes clichês aeroportuários, tipo Casablanca última cena. Nem quero pensar, quero ficar aqui no raso, no controlável.

Faz-se um silêncio povoado, você diz que está cansado, deve ter trabalhado muito, presumo. Se pergunto, sei que irá me contar o que está fazendo, tudo o que começou depois de mim: mudanças, empregos, sociedades, sucesso. Percebo, nas linhas gerais, que você está bem e isto não me incomoda. Também tenho trabalhado demais, amanhã mesmo estou de plantão. Na cabeça vem Caio, de súbito: “tenho trabalhado tanto...” e seguro, prendo o ar, sei que não posso. Deixo o assunto morrer, acabando-se em murmúrios afirmativos.

Até mais, até breve, qualquer coisa assim. Vejo que entramos no quarto minuto, talvez você queira me vencer pelo cansaço. Eu quero desligar, não quero mais. Não quero ser seu amigo, não quero dividir nada além. Podíamos nos encontrar uma vez por ano, cumprimentar com um beijo envergonhado fingindo que nossa história nem aconteceu. Nem faço questão do ritual do pra onde vamos, onde paramos, para onde queremos ir. Até tento me enganar, na iminência do quinto minuto, que não me importo mais. Pressinto que a máscara já vai cair e vou dizer aquelas verdades que você pressente, que havia dito à exaustão no final daquele nosso verão. Antes disso, conseguimos desligar. Boa viagem, reitero, nada mais. Desligo, arfando, jogo o telefone longe. Ele bate na mesa, desarrumando os sashimis tão alinhados e dispostos. Meu amigo me olha, peço desculpas, respiro fundo: onde estávamos mesmo? E continuo.

Ficou na garganta o pedido: não me ligue mais, nunca mais. Não rompa nosso acordo tácito de me deixar aqui, no ponto em que me abandonou. Não me incomoda saber que você partiu e não voltará mais, nem que te construí à imagem e semelhança das minhas melhores ilusões. Não dói o fato consumado. O que incomoda é sua imagem fantasmagórica na soleira de minha porta, reforçando que eu até era bom, mas não o bastante.

Fecho os olhos e torço, não ligue mais. E no segundo seguinte, até penso: podia ligar, ligue só para eu dizer que não quero que você me ligue. Todos os motivos pelos quais não quero mais e talvez, na morosidade do meu discurso vazio, finalmente acreditar em mim mesmo. É incoerente, eu sei. Sou incoerente, eu sei. Dentro de tudo, sei que ainda sou refém de suas chegadas e partidas e agora, depois da terceira vez, sobra aquela angústia passageira do se você ligar de novo, se trouxer um presente, se me convidar prum jantar? Não queria. Não quero. Só é tão difícil resistir.

Sou um fraco pra estas situações avassaladoras, esse que é o fato.

sábado, outubro 10, 2009

Dos reinícios

Passei este tempo todo tentando escolher as palavras, pra que dissesse o que eu gostaria de te dizer de uma forma que fosse linda, que fosse bela, apesar de triste. Porque, depois de tanta conversa com tanta gente amada, não havia encontrado o corpo correto, o envelope perfeito.

Não queria ter que te escrever de súbito, como estou fazendo agora.

A verdade é que você me dói. Porque sei que você é quem eu sempre quis: doce, leve, divertido, belo, culto. Para se levar ao restaurante num domingo como esse (ensolarado e tépido), para me afagar em sábados como ontem (quando cheguei após 60 horas seguidas de trabalho), para mostrar minha cidade natal, dividir minha casa, minha vida. Se não fosse esta maldita distância, estaríamos juntos desde o segundo que nos conhecemos.

Você me dói porque não posso te ter. Porque eu preciso de você aqui, nas terças-feiras indolentes, para ver como também sei ser ácido quando durmo pouco, teimoso quando contrariado, para aprender a lidar com minha natureza também difícil. Acredito que bons relacionamentos se cristalizam na rotina, para que a linguagem silenciosa se faça, a sintonia se estabeleça. Preciso de carinho, preciso de atenção, preciso de alguém que vele o meu sono enquanto durmo. E, mesmo que você seja meu amor-perfeito, de que adianta se não posso te ter perto de mim? Enterrado até os pés numa rotina absurda, com os finais de semana começando aos domingos às quatro da tarde, essa pandemia toda nas costas...

Não pense que eu não penso em você. Penso sim, às vezes quando tomo banho, exausto, e penso que você poderia estar me esperando ao ver TV. Ou quando desço pra praia de susto e vasculho Maresias inteira atrás de polvo. Ou quando toca Nara, num domingo preguiçoso desses, tomando cerveja sem companhia. Ou quando vi "Pontes de Madison" e chorei quase ininterruptamente por meia hora, grande parte por tua causa. Naquela cena, principalmente: Meryl Streep, dentro do carro, na chuva. Se você viu, vai entender. Senão, veja. Vale a pena.

E também não quero fechar a porta para você. O mundo é vasto, os caminhos são estranhos. Pode ser que nada aconteça e fiquemos nós dois, tontos de amor, separados. Pode ser que você tropece por aí e encontre o amor perfeito, seja feliz pra sempre e me guarde como uma possibilidade tão brilhante - e vice-versa. Pode ser que o destino capriche nas suas brincadeiras e que nos coloque, espacialmente e temporalmente, na mesma sintonia. Eu posso morrer amanhã. Podemos viver a mesma história num final de semana destes, porque não? Eu não tenho a resposta. Ninguém tem a resposta.

E depois destes dias iluminados que passamos, acho que nossa questão não é hoje, nem agora. É algo maior. É na nossa capacidade de se encantar, de lembrar que o amor existe e está por aí, que pode acontecer de novo, mesmo depois de sermos tão dangerizados por quem não nos mereciam. De saber que existe você, aí longe, e tem um sentimento tão arrebatador - e eu também. É agridoce, uma alegria melancólica. Mas é preciso que esse sentimento baste. Sem possessividades, sem estudos de viabilidade. Se paro e penso, não quero você. Não quero que você venha, abra meu mundo por dois ou três dias e depois me deixe só, quando embarcar em Congonhas, mais de mês batendo as cabeças e sangrando por desejar todo um mundo iluminado que não posso, agora, ter. Também penso, meio dramático: e se não acontecer novamente? E se ninguém, tão brilhante, como você aparecer, não vale a pena ter esse pouquinho de luz mesmo por tão pouco tempo?

Eu não sei. Sinceramente, eu não sei. É isso que queria te dizer: eu não sei e estou resignado em minha ignorância. E o que existe por aqui não são alguéns físicos, passados ou presentes. Não há ninguém com rosto ou nome, não há a questão da pessoa X. Hoje, digo, há tanto não me sinto tão livre. Há o aprendizado sentimental pregresso, em que tenho vaga idéia do que quero. Como Cazuza canta, meu sonho de consumo: a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. E só. E dentro disso, vamos indo, vamos batalhando, perdendo noites de sono e chorando, ridículos, na frente do pc.

Quero que você me abrace quando me vir, de peito aberto. E deixe acontecer. Acho que somos melhores quando não pensamos. E saiba: meu ano não estaria sendo tão bom se eu não tivesse te conhecido. Se você não tivesse me libertado. E, independente do que acontecer, sou eternamente grato.

(11/08/09)