domingo, setembro 20, 2009

Apenas o fim [9], o penúltimo

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Cruzei as marginais desertas, o porta-malas cheio de boas intenções. Era uma sexta tépida e ensolarada, segundo dia de um feriado prolongado: todos que deveriam descer já tinham descido. Então, tive a benção dos caminhos abertos e vastos, puro reflexo do que pressentia aqui dentro, por todo lugar.

Desci a Serra sem muitos sobressaltos. Muitas curvas, muito verde, boa música guiando os caminhos. Lá do alto, vê-se o Mar - sorrio, quase enfiando o carro ladeira abaixo. Acontece, penso eu. Sigo caminho cruzando Caraguá, perdendo-me em São Sebastião. Lá ao longe, a praia ao alcance dos dedos e aquele gosto salgado no ar. É preciso seguir, é preciso chegar. Encontro o rumo, vou em frente.

Maresias não tardou a chegar. Cidade deserta para os padrões: ao contrário de Sampa, ao nível do mar o Sol se escondia sob pesadas nuvens, vento gelado soprando. Estaciono o carro, abro a primeira Stella Artois da série de muitas e bebo devagar. Perco vários minutos observando o vai-e-vem das pessoas, do ritmo vagaroso que a vida tem à beira-mar.

Logo choveu e assim choveria pelos próximos três dias. Sem problemas: saquei a biografia de Caio F, comprada num encontro surpreendente e até providêncial. No mercado, providenciei litros de cerveja para acompanhar a chuva que tamborilava lá fora. Quando cansado, havia Friends numa diversão chiclete e sem culpa. À noitinha, Vinão chegava e seguíamos no burburinho da cidade trocando histórias engraçadas e sem perigo, entre temakis de polvo, gente bonita, espontaneidades. Fazia bem essa alegria simples.

Pelo segundo dia, sob efeito de um texto tão-lindo que Caio havia escrito, resolvi que era A hora. Seis meses haviam-se passado de luto pesado, coração preso a tanto desamor. O mar, meu espectador silencioso naqueles dias soturnos do Leblon, seria novamente meu cúmplice amigo, irmão. Havia cansado de tanto mofo, já era hora de se abrirem as janelas. Vesti qualquer roupa leve e fui.

Chovia muito, choviam cântaros. A praia parecia o clip de Yellow, do Colplay: "Look at the stars, look how they shine for you...". Havia só eu na areia, eu e meus pensamentos, eu e minhas referências. Na água, até via alguns surfistas vagos, pequenos pontos pretos, perdidos na malemolência do mar revolto. Batia aquele vento gostoso e deu vontade de ser pipa novamente, Kite perdida no céu.

Quando ensopado, lembrei de Holden Caulfield: ali no finalzinho, naquela cena maravilhosa do carrossel. Naquela em que chove e ele fica ali, sozinho, na chuva, fitando a irmã que rodava sem parar. Ao fundo, tocava "Smoke gets in your eyes". Era ali que ele percebia a excessividade do movimento, na necessidade de seguir mais devagar.

"When your heart's on fire, you must realize: smoke gets in your eyes", essa era a verdade. Com o coração em chamas, mal conseguia enxergar além do meu nariz. Perdia-me na fumaça dessa fogueira de paixões e sentimentos. Tão bela a chama, tão lindo ver o fogo alto, o brilho mortiço alaranjado que aquece e acalenta. Só que esqueci que existe além. Que não sou daquelas moscas, que se matam buscando a única luz que aparece a noite.

Eu não poderia ser daqueles que se hipnotizam com as brasas. E era o que estava acontecendo. Tão centrado numa espiral de piedade e auto-comiseração, tão inerte com medo do tombo: só conseguia permanecer ali, agitando as brasas procurando restos, fagulhas. Vinha a fumaça, turvando os sentimentos: sem que nada de calor viesse dali. Por isso era preciso a água, era preciso a chuva, era preciso o mar. Era preciso que lavasse, levasse embora o que restava para longe. Eu caminhava a passos lentos, sob a chuva, buscando este tipo de redenção.

Era preciso a tenacidade de Vicente, o corvo de Miguel Torga. Cansado dos desígnios de Deus, Vicente abre as asas e foge da Arca. Põe-se, então, no último pedaço de terra seca que sobrara durante o dilúvio. Deus abre as cataratas do céu, em represália. Quer fazer Vicente retornar a Arca e sufocar o movimento de subversão. A água lambe as garras, deixa só a cabeça do corvo de fora. Vicente permanece imóvel, desafiando a onipotência. Mas "nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre" e Deus, vencido, fecha as portas do céu.

Foi assim que voltei pra casa, encharcado e liberto: eu, Holden, Vicente, de mãos bem dadas. A partir daquele momento, tudo deveria ser diferente. Passado era passado, pecado se perder por tanto tempo em tanta lamúria. Com tanta lágrima, havia feito meu mar pra navegar. E agora, apesar da chuva, finalmente decidia abrir as velas e seguir, sem rumo, no aguardo do acaso propício...

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