domingo, setembro 13, 2009

Apenas o fim [8], o antepenúltimo

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Aquele só foi o primeiro. Morreu um, morreu outro: quando vi, ao final daquele longo mês, haviam morrido cinco no total. Há mortes que são anunciadas, o que não foi o caso: todas elas foram, de certa forma, inesperadas. Nada parecia dar certo: os nossos raciocínios nos levavam a becos sem saída. Fazíamos tudo o que podíamos e dava errado. Os pacientes pioravam inexoravelmente, escorrendo por entre nossos dedos inábeis.

Foi um mês frenético, de insônias e culpas. De inseguranças e inabilidades. Mas, acima de tudo, de um crescimento brutal. Parte dele profissional, de aprender a respeitar o difícil tempo das coisas, da nossa fragilidade apesar de todo o conhecimento que detemos. Também pessoal: do coleguismo que se constrói nas situações-limite, na capacidade de superação.

Estar com os cotovelos e joelhos afundados no caos me fizeram repensar nelas, nas Prioridades. Sim, aquilo ali era a Vida, aquilo ali que era a realidade. Senti-me culpado em gastar tantos neurônios nas minhas histerias pequeno-burguesas: ah mas se eu tivesse sido mais compreensivo se tivesse trocado as roupas os sapatos talvez mudado sotaque ou sido aquela pessoa completamente diferente de mim que ele queria que eu tivesse sido e. Quanta bobagem, passar horas a fio reforçando meus traumas, minhas carências crônicas, enquanto havia tanta vida por aí.

E se me perder nas elocubrações fúteis era algo inevitável, então porque não ocupar a mente para que isso não acontecesse? Decidi me anestesiar, decidi ocupar tudo para que não sobrasse margem para mais nada, nada além. Havia descoberto a resposta, naquele prazer working-class do suor e do sangue: enquanto trabalhasse loucamente, não pensaria no Leblon, na rua Bela Cintra, na forma que você sorria quando estava feliz. Para mim, era fácil: arrumei mil-plantões, duzentas responsabilidades. Decidi trocar de carro, comprar apartamento, viajar pra Tailândia, ou qualquer meta adulta. Decidi fechar o vidro, engatar a quinta e seguir correndo até quando decidir parar.

Foi assim, um mês, dois meses. E engraçado que, de tão ocupado, não fui percebendo nas coisas pequenas que aconteciam ali, à margem. Foram encadeando novas amizades, para me mostrar novos caminhos, novos mistérios. Outros amores foram surgindo, desencadeando as velhas espirais de desejos e bem-quereres. Encarei novas responsabilidades, estabelecendo novas metas, novos desafios, outros planos. Quando vi, alguns meses depois, a vida estava seguindo lépida e leve, alguns passos aquém do que eu gostaria que estivesse, mas assim: brand new.

E não vou dizer que, a la Dorothy, bati os sapatos vermelhos e tudo se transformou. Vezenquando, nestas noites em que chegava bêbado e irremediavelmente sozinho, havia a vontade de ligações e cartas e mails. Às vezes até me desapegava e escrevia um post por aqui, uma ligação para amigos pra dizer: ah, é insuportável essa sina de viver. Não foram poucas, também não foram muitas. Num assunto, numa lembrança, em qualquer esquina: aparecia, lembrança baça, mas que ia desincomodando aos poucos.

Até quando, quase quatro meses depois, trabalhar tanto me incomodava. Haviam convites agora, telefone tocava todo dia. Talvez cinema ou buteco, talvez museu ou restaurante, talvez fazer nada na casa de novos amigos, talvez ligar praquela nova paixão lancinante. Pois é, sem perceber, tudo havia se encaixado. Havia vida após, vida além. Agora ela estava ali novamente, palpitando, ao meu alcance.

Num finde prolongado, resolvi aceitar um convite: praia desconhecida, amigo novo. Estava precisando rever o mar. Estava precisando reencontrar sentimentos que só a maresia consegue evocar. Nem planejei muito: saquei da manga umas mentiras brancas e logo ganhei quatro dias de folga. Coloquei todas as malas e desejos no meu velho carro, acordei no improvável horário das seis da madrugada e segui. Marginais desertas, dia tépido e brilhante.

E fui descer a serra...

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