sábado, setembro 26, 2009

Apenas o fim [10], o último

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Para Maria Anita S. Leite, Tati Rangel e Maria Fernanda Neves, mi hermanita

Não queria desse a impressão que, dessa história toda (quase saga, Maligna disse), agora se fechasse com uma lição. Nunca acreditei naquela moral católica maniqueísta que o sofrimento nos leva a um lugar obrigatoriamente melhor. Amor não é pedagógico, não é Telecurso 2000. Não sou uma pessoa melhor por ter vivido sob a égide de um amor desfeito - perde-se um pouco da inocência, outro bocado de ilusão. Ainda não descobri se, os últimos nove episódios, foram pra unir as duas pontas ou desatar nós. Agora, não importa mais.

Sou eu aqui neste irônico lugar chamado Paraíso, noite fria e cigarro queimando brasa por entre os dedos. Duas coisas são certas: a primeira, que amor não é Síndrome de Estocolmo (devo esta ao Phill, num post ensolarado). Não é destas de permanecer cativo, enquanto se toma porrada nos rins e toda sorte de chantagens emocionais. A outra é a certeza que tudo aquilo, tudo isso não me serve mais.

Abrindo o relicário, sentia falta de estar bem num domingo morno, naquele horário entre o Pânico e o Domingo Maior. Da segurança em andar de dedos entrelaçados descendo Augusta ou nos filmes indies do cinema, de toda preparação interna que eu fazia entre as surpresas, de como tudo parecia fluir tão redondo dentro da energia boa de se gostar de alguém. E fui percebendo, então, que quase tudo aquilo que me era necessário naqueles dias eram impressões ególatras: eu me sentia, porque eu fazia, porque acontecia comigo. Percebia que o outro era instrumento e todo o prazer residia aqui, entre minhas histerias, carências e incompreensões. E essa tranquilidade também poderia vir do consolo de tanta gente querida por perto, enquanto eu trabalhava de sol-a-sol numa prostituição sem culpa, fazendo yoga, fumando crack, fazendo mergulho, fugindo pra Tailândia, sei lá. E que as saudades não tinham o rosto, o toque, um tom de voz específico - sentia falta mesmo eram das circunstâncias: não necessariamente, percebi, havia de ser com você.

Percebo, sim, que estava doentiamente apaixonado. Vertiginosamente encantado. De querer partilhar o quarto, os lençóis, minha cidade-natal e todo resto incluso no que se caracteriza minha-vida. Cruel é perceber que acaba e concluir, citando Julie Delpy naquele filme que gosto tanto: "I'll bump into him, we'll meet our new boyfriend and girlfriend, act as if we had never been together, then we'll slowly think of each other less and less until we forget each other completely". De tanto bem-querer, só sobrar esse incômodo, esta gastura, esses simulacros.

E agora? Só resta seguir, tão distraído quanto minha boa Clarice prega. Vai acontecer de novo, está acontecendo de novo, eu sei. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode demorar outros seis meses. Pode até não ser pleno nem cinematográfico, pode ser rasinho, nem precisa necessariamente seguir sob o ritmo lento das novas bossas, solos de jazz. Pode até me deixar, no final, sangrando na sarjeta ou zonzo de tanto amor não dado. Posso até dar sorte do destino errar a mão e jogar no meu colo um amor destes, intensos e imensos. Até posso morrer atravessando a rua agora, bêbado, que até considero um final razoável. Restam, tantas, as possibilidades. Tantas outras, além de você.

Ficamos assim: tudo certo, nada resolvido. E se te encontrar, nem faço questão de saber a quantas seu universo gira ou qualquer outro protocolo de boas intenções. Só não resisto, quando piso na Bela Cintra, de contar os andares para ver se sua luz está acesa. Sei que você permanecerá sempre em mim, mesmo que eu conscientemente não queira ou não precise. Como uma lanterna na popa, que ilumina somente as ondas que deixamos para trás.

Já é dia, apago o quinto cigarro e prometo tentar dormir. Fecho a janela, as cortinas, tomo dois comprimidos de qualquer coisa e vou deitar, no desejo de um sono pesado e sem sonhos. Termino por aqui essa crônica sobre uma paixão ordinária. E se perguntarem qualquer coisa, digo: isto tudo que escrevi, em dez pedaços, foi - aos trancos e barrancos - apenas o fim. E sou imensamente grato a todos que, desapegadamente, seguraram firme a minha mão enquanto os caminhos eram tão difíceis.

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