sábado, setembro 26, 2009

Apenas o fim [10], o último

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(2) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-2.html
(3) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-3.html
(4) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-4.html
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(7) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-7.html
(8) http://martiniseco.blogspot.com/2009/09/apenas-o-fim-8-o-antepenultimo.html
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Para Maria Anita S. Leite, Tati Rangel e Maria Fernanda Neves, mi hermanita

Não queria desse a impressão que, dessa história toda (quase saga, Maligna disse), agora se fechasse com uma lição. Nunca acreditei naquela moral católica maniqueísta que o sofrimento nos leva a um lugar obrigatoriamente melhor. Amor não é pedagógico, não é Telecurso 2000. Não sou uma pessoa melhor por ter vivido sob a égide de um amor desfeito - perde-se um pouco da inocência, outro bocado de ilusão. Ainda não descobri se, os últimos nove episódios, foram pra unir as duas pontas ou desatar nós. Agora, não importa mais.

Sou eu aqui neste irônico lugar chamado Paraíso, noite fria e cigarro queimando brasa por entre os dedos. Duas coisas são certas: a primeira, que amor não é Síndrome de Estocolmo (devo esta ao Phill, num post ensolarado). Não é destas de permanecer cativo, enquanto se toma porrada nos rins e toda sorte de chantagens emocionais. A outra é a certeza que tudo aquilo, tudo isso não me serve mais.

Abrindo o relicário, sentia falta de estar bem num domingo morno, naquele horário entre o Pânico e o Domingo Maior. Da segurança em andar de dedos entrelaçados descendo Augusta ou nos filmes indies do cinema, de toda preparação interna que eu fazia entre as surpresas, de como tudo parecia fluir tão redondo dentro da energia boa de se gostar de alguém. E fui percebendo, então, que quase tudo aquilo que me era necessário naqueles dias eram impressões ególatras: eu me sentia, porque eu fazia, porque acontecia comigo. Percebia que o outro era instrumento e todo o prazer residia aqui, entre minhas histerias, carências e incompreensões. E essa tranquilidade também poderia vir do consolo de tanta gente querida por perto, enquanto eu trabalhava de sol-a-sol numa prostituição sem culpa, fazendo yoga, fumando crack, fazendo mergulho, fugindo pra Tailândia, sei lá. E que as saudades não tinham o rosto, o toque, um tom de voz específico - sentia falta mesmo eram das circunstâncias: não necessariamente, percebi, havia de ser com você.

Percebo, sim, que estava doentiamente apaixonado. Vertiginosamente encantado. De querer partilhar o quarto, os lençóis, minha cidade-natal e todo resto incluso no que se caracteriza minha-vida. Cruel é perceber que acaba e concluir, citando Julie Delpy naquele filme que gosto tanto: "I'll bump into him, we'll meet our new boyfriend and girlfriend, act as if we had never been together, then we'll slowly think of each other less and less until we forget each other completely". De tanto bem-querer, só sobrar esse incômodo, esta gastura, esses simulacros.

E agora? Só resta seguir, tão distraído quanto minha boa Clarice prega. Vai acontecer de novo, está acontecendo de novo, eu sei. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode demorar outros seis meses. Pode até não ser pleno nem cinematográfico, pode ser rasinho, nem precisa necessariamente seguir sob o ritmo lento das novas bossas, solos de jazz. Pode até me deixar, no final, sangrando na sarjeta ou zonzo de tanto amor não dado. Posso até dar sorte do destino errar a mão e jogar no meu colo um amor destes, intensos e imensos. Até posso morrer atravessando a rua agora, bêbado, que até considero um final razoável. Restam, tantas, as possibilidades. Tantas outras, além de você.

Ficamos assim: tudo certo, nada resolvido. E se te encontrar, nem faço questão de saber a quantas seu universo gira ou qualquer outro protocolo de boas intenções. Só não resisto, quando piso na Bela Cintra, de contar os andares para ver se sua luz está acesa. Sei que você permanecerá sempre em mim, mesmo que eu conscientemente não queira ou não precise. Como uma lanterna na popa, que ilumina somente as ondas que deixamos para trás.

Já é dia, apago o quinto cigarro e prometo tentar dormir. Fecho a janela, as cortinas, tomo dois comprimidos de qualquer coisa e vou deitar, no desejo de um sono pesado e sem sonhos. Termino por aqui essa crônica sobre uma paixão ordinária. E se perguntarem qualquer coisa, digo: isto tudo que escrevi, em dez pedaços, foi - aos trancos e barrancos - apenas o fim. E sou imensamente grato a todos que, desapegadamente, seguraram firme a minha mão enquanto os caminhos eram tão difíceis.

domingo, setembro 20, 2009

Apenas o fim [9], o penúltimo

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(2) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-2.html
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Cruzei as marginais desertas, o porta-malas cheio de boas intenções. Era uma sexta tépida e ensolarada, segundo dia de um feriado prolongado: todos que deveriam descer já tinham descido. Então, tive a benção dos caminhos abertos e vastos, puro reflexo do que pressentia aqui dentro, por todo lugar.

Desci a Serra sem muitos sobressaltos. Muitas curvas, muito verde, boa música guiando os caminhos. Lá do alto, vê-se o Mar - sorrio, quase enfiando o carro ladeira abaixo. Acontece, penso eu. Sigo caminho cruzando Caraguá, perdendo-me em São Sebastião. Lá ao longe, a praia ao alcance dos dedos e aquele gosto salgado no ar. É preciso seguir, é preciso chegar. Encontro o rumo, vou em frente.

Maresias não tardou a chegar. Cidade deserta para os padrões: ao contrário de Sampa, ao nível do mar o Sol se escondia sob pesadas nuvens, vento gelado soprando. Estaciono o carro, abro a primeira Stella Artois da série de muitas e bebo devagar. Perco vários minutos observando o vai-e-vem das pessoas, do ritmo vagaroso que a vida tem à beira-mar.

Logo choveu e assim choveria pelos próximos três dias. Sem problemas: saquei a biografia de Caio F, comprada num encontro surpreendente e até providêncial. No mercado, providenciei litros de cerveja para acompanhar a chuva que tamborilava lá fora. Quando cansado, havia Friends numa diversão chiclete e sem culpa. À noitinha, Vinão chegava e seguíamos no burburinho da cidade trocando histórias engraçadas e sem perigo, entre temakis de polvo, gente bonita, espontaneidades. Fazia bem essa alegria simples.

Pelo segundo dia, sob efeito de um texto tão-lindo que Caio havia escrito, resolvi que era A hora. Seis meses haviam-se passado de luto pesado, coração preso a tanto desamor. O mar, meu espectador silencioso naqueles dias soturnos do Leblon, seria novamente meu cúmplice amigo, irmão. Havia cansado de tanto mofo, já era hora de se abrirem as janelas. Vesti qualquer roupa leve e fui.

Chovia muito, choviam cântaros. A praia parecia o clip de Yellow, do Colplay: "Look at the stars, look how they shine for you...". Havia só eu na areia, eu e meus pensamentos, eu e minhas referências. Na água, até via alguns surfistas vagos, pequenos pontos pretos, perdidos na malemolência do mar revolto. Batia aquele vento gostoso e deu vontade de ser pipa novamente, Kite perdida no céu.

Quando ensopado, lembrei de Holden Caulfield: ali no finalzinho, naquela cena maravilhosa do carrossel. Naquela em que chove e ele fica ali, sozinho, na chuva, fitando a irmã que rodava sem parar. Ao fundo, tocava "Smoke gets in your eyes". Era ali que ele percebia a excessividade do movimento, na necessidade de seguir mais devagar.

"When your heart's on fire, you must realize: smoke gets in your eyes", essa era a verdade. Com o coração em chamas, mal conseguia enxergar além do meu nariz. Perdia-me na fumaça dessa fogueira de paixões e sentimentos. Tão bela a chama, tão lindo ver o fogo alto, o brilho mortiço alaranjado que aquece e acalenta. Só que esqueci que existe além. Que não sou daquelas moscas, que se matam buscando a única luz que aparece a noite.

Eu não poderia ser daqueles que se hipnotizam com as brasas. E era o que estava acontecendo. Tão centrado numa espiral de piedade e auto-comiseração, tão inerte com medo do tombo: só conseguia permanecer ali, agitando as brasas procurando restos, fagulhas. Vinha a fumaça, turvando os sentimentos: sem que nada de calor viesse dali. Por isso era preciso a água, era preciso a chuva, era preciso o mar. Era preciso que lavasse, levasse embora o que restava para longe. Eu caminhava a passos lentos, sob a chuva, buscando este tipo de redenção.

Era preciso a tenacidade de Vicente, o corvo de Miguel Torga. Cansado dos desígnios de Deus, Vicente abre as asas e foge da Arca. Põe-se, então, no último pedaço de terra seca que sobrara durante o dilúvio. Deus abre as cataratas do céu, em represália. Quer fazer Vicente retornar a Arca e sufocar o movimento de subversão. A água lambe as garras, deixa só a cabeça do corvo de fora. Vicente permanece imóvel, desafiando a onipotência. Mas "nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre" e Deus, vencido, fecha as portas do céu.

Foi assim que voltei pra casa, encharcado e liberto: eu, Holden, Vicente, de mãos bem dadas. A partir daquele momento, tudo deveria ser diferente. Passado era passado, pecado se perder por tanto tempo em tanta lamúria. Com tanta lágrima, havia feito meu mar pra navegar. E agora, apesar da chuva, finalmente decidia abrir as velas e seguir, sem rumo, no aguardo do acaso propício...

domingo, setembro 13, 2009

Apenas o fim [8], o antepenúltimo

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Aquele só foi o primeiro. Morreu um, morreu outro: quando vi, ao final daquele longo mês, haviam morrido cinco no total. Há mortes que são anunciadas, o que não foi o caso: todas elas foram, de certa forma, inesperadas. Nada parecia dar certo: os nossos raciocínios nos levavam a becos sem saída. Fazíamos tudo o que podíamos e dava errado. Os pacientes pioravam inexoravelmente, escorrendo por entre nossos dedos inábeis.

Foi um mês frenético, de insônias e culpas. De inseguranças e inabilidades. Mas, acima de tudo, de um crescimento brutal. Parte dele profissional, de aprender a respeitar o difícil tempo das coisas, da nossa fragilidade apesar de todo o conhecimento que detemos. Também pessoal: do coleguismo que se constrói nas situações-limite, na capacidade de superação.

Estar com os cotovelos e joelhos afundados no caos me fizeram repensar nelas, nas Prioridades. Sim, aquilo ali era a Vida, aquilo ali que era a realidade. Senti-me culpado em gastar tantos neurônios nas minhas histerias pequeno-burguesas: ah mas se eu tivesse sido mais compreensivo se tivesse trocado as roupas os sapatos talvez mudado sotaque ou sido aquela pessoa completamente diferente de mim que ele queria que eu tivesse sido e. Quanta bobagem, passar horas a fio reforçando meus traumas, minhas carências crônicas, enquanto havia tanta vida por aí.

E se me perder nas elocubrações fúteis era algo inevitável, então porque não ocupar a mente para que isso não acontecesse? Decidi me anestesiar, decidi ocupar tudo para que não sobrasse margem para mais nada, nada além. Havia descoberto a resposta, naquele prazer working-class do suor e do sangue: enquanto trabalhasse loucamente, não pensaria no Leblon, na rua Bela Cintra, na forma que você sorria quando estava feliz. Para mim, era fácil: arrumei mil-plantões, duzentas responsabilidades. Decidi trocar de carro, comprar apartamento, viajar pra Tailândia, ou qualquer meta adulta. Decidi fechar o vidro, engatar a quinta e seguir correndo até quando decidir parar.

Foi assim, um mês, dois meses. E engraçado que, de tão ocupado, não fui percebendo nas coisas pequenas que aconteciam ali, à margem. Foram encadeando novas amizades, para me mostrar novos caminhos, novos mistérios. Outros amores foram surgindo, desencadeando as velhas espirais de desejos e bem-quereres. Encarei novas responsabilidades, estabelecendo novas metas, novos desafios, outros planos. Quando vi, alguns meses depois, a vida estava seguindo lépida e leve, alguns passos aquém do que eu gostaria que estivesse, mas assim: brand new.

E não vou dizer que, a la Dorothy, bati os sapatos vermelhos e tudo se transformou. Vezenquando, nestas noites em que chegava bêbado e irremediavelmente sozinho, havia a vontade de ligações e cartas e mails. Às vezes até me desapegava e escrevia um post por aqui, uma ligação para amigos pra dizer: ah, é insuportável essa sina de viver. Não foram poucas, também não foram muitas. Num assunto, numa lembrança, em qualquer esquina: aparecia, lembrança baça, mas que ia desincomodando aos poucos.

Até quando, quase quatro meses depois, trabalhar tanto me incomodava. Haviam convites agora, telefone tocava todo dia. Talvez cinema ou buteco, talvez museu ou restaurante, talvez fazer nada na casa de novos amigos, talvez ligar praquela nova paixão lancinante. Pois é, sem perceber, tudo havia se encaixado. Havia vida após, vida além. Agora ela estava ali novamente, palpitando, ao meu alcance.

Num finde prolongado, resolvi aceitar um convite: praia desconhecida, amigo novo. Estava precisando rever o mar. Estava precisando reencontrar sentimentos que só a maresia consegue evocar. Nem planejei muito: saquei da manga umas mentiras brancas e logo ganhei quatro dias de folga. Coloquei todas as malas e desejos no meu velho carro, acordei no improvável horário das seis da madrugada e segui. Marginais desertas, dia tépido e brilhante.

E fui descer a serra...