sábado, agosto 01, 2009

Apenas o fim

Lembro que, por acaso, aquele era o último voo disponível que seguiria ao Rio. Por acaso, na minha hora predileta do dia: quando a luz modifica, alaranjando. Era um dia de verão claro, poucas nuvens, mas o suficiente para refletir as cores do dia que acaba. Lembro-me que, na janela, percebi que lá na frente a vastidão do mar se perdia na vastidão do céu. Nem sei porque lembrei de Pessoa, num dos poucos trechos que sei de cor: "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu". Sorri.

Pouco sabia eu. Doze horas depois estaria cruzando Copacabana, pouco atento a alegria insensata de um trinta e um de dezembro. Estava eu no banco traseiro de um táxi, sozinho, chorando. Poucas coisas são tão tristes quanto chorar sozinho num táxi. Havia acabado. Não adiantava ter visto a Rua Nascimento Silva, um encontro iluminado, quase acaso, na Visconde de Pirajá. Nada via além da dor, no sufocamento egoísta de quem, após ter dado quase todo sangue disponível, não bastou.

Não tomei banho de mar. Fiquei ali, sentado na areia até a partida, tipo cão-sem-dono. Cruzava o Leblon mastigando culpas e ressentimentos. Parti, de férias, num Galeão deserto e tristíssimo. Tinha ilusão de quando se tenta ser o melhor, é suficiente. Não foi, não era - fui cutucando até escutar as palavras mais duras dos lábios de quem amava. No retorno, noite alta, nada além da escuridão. Nada além.

Nada, nada, nada.

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