sábado, agosto 29, 2009

Apenas o fim [7]

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E aconteceu de novo: uma quinta, que virou um domingo, que seguiu em ligações semana a dentro, pequenos carinhos e alguns planos. Nada assim, digamos, vertiginoso. Mas era uma tentativa, era um reinício. E era preciso, principalmente, reaprender o primeiro passo.

Já havia se passado mês e pouco. A rotina engrenava em novas responsabilidades e deveres, como deveria ser. Vezenquando dorzinha no cotovelo reverberando, uns cinco segundos contemplando o ônibus à venda na porta de casa, vagamente semelhante a aquele de Alex Supertramp em "Into the Wild" - um dia havíamos combinado de comprá-lo e irmos juntos rumo a lugar nenhum... Mas logo voltava ao mundo real e o decorrer do dia seguia leve, fluido. Numa euforia simples de que a vida seguia do jeito que se esperava.


Havia sido uma noite boa. Acordei, coloquei aquela polo azul clarinha que gosto tanto. Até ganhei um daqueles elogios rasteiros: "como você fica lindo nela, guri". Sorri. Depois, juntos até o ponto de ônibus. Você decide pegar o mesmo que o meu, apesar dos destinos diametralmente opostos. Passa o metrô e pergunto: "não iria descer aqui?". Ganho piscada, sorriso maroto em seguida. Chego no meu ponto, descemos. Paramos na primeira padaria - olho no relógio, eu estava surpreendentemente adiantado. Tomo um café espresso, dos fortes, um pão de queijo meio anêmico. Falamos do dia ensolarado, dos projetos diminutos, coisas sem peso. Daí, descemos oito quadras em passos lentos, até a porta do Hospital. Ganhei beijo na bochecha estalado, um bom dia. Entrei.


Subi os sete andares neste magnetismo bom do bem-querer. Ao entrar na enfermaria, percebo agitação demais para as oito da manhã. Puxo o estetoscópio e corro para um dos quartos: encontro uma colega de laringoscópio na mão, o carrinho de parada cardíaca aberta e muito, muito sangue. A entubação estava visivelmente difícil. Ela pede para mim: vou entubar de novo, ok? Ok, respondi.

Às cegas, ela tentou. O tubo entrou, cuff insuflado, minha vez: verificar se estava no pulmão ou se tinha ido para o esôfago. Sabíamos que o tubo tinha ido para algum lugar: sangue vivo espirrava, quase cascata, por ele. Lembro de ter escutado vagos murmúrios no pulmão, nada de barulho no estômago. Fechei: tá no pulmão, deu certo. Tranquilizamo-nos.

Passaram-se quinze minutos, uma hora e nada de melhora. Algo estava errado. Checamos o ventilador, funcionando. Checamos o tubo, tiramos litros de sangue por ele: também ok. Daí, percebemos: ao auscultar novamente o estômago, escuto ruídos. Eles não apareciam, pois antes o estômago estava cheio de sangue e agora, esvaziado, finalmente os ruídos deram as caras. Tiramos o tubo, colocamos no lugar correto. Mesmo assim, o estrago já estava feito: duas horas de hipóxia, de oxigenação insuficiente.

Desci as escadas devagar, mastigando os fatos. Logo isso, num dia principiando tão ensolarado!

Não havia nada que me consolasse: sabia que, por minha falha, alguém iria morrer.

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