quarta-feira, agosto 12, 2009

Apenas o fim [4]

(1) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim.html
(2) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-2.html
(3) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-3.html

Foi ao pisar na rodoviária do Tietê que notei que era preciso muito mais que carinhos e compreensão para que alguma mudança significativa acontecesse: o fato era que meu coração ainda era tão refém. Coragem solitária é das coisas mais difíceis de se ter. Logo disquei o número, marquei encontro. Fui pra casa e juntei todas as coisas nossas numa caixa: tartarugas, post-it amarelos, uniforme do Remo, rótulos das Stella Artois. Também aquela lembrança salgada da Bahia, os restos das primeiras flores murchas que havia me trazido, um sexo perdido no sofá de uma tarde qualquer. Escrevi uma carta longa, desesperada e desesperançosa. Por último, nossa primeira foto com um recado que foi adicionado com Paint, nos nossos primeiros dias de história: "sou bem mais feliz com você".


Encontramo-nos. Saímos para almoçar no shopping e você me disse: do Rio, do filmes que havia visto, das peças de teatro. Até quando eu mandei o protocolo das tergiversações às favas e disse: "porra, mas eu vim aqui falar de nós, de nós". Daí, deixei sangrar até a última gota. Pedi, implorei. Disse coisas absurdas, como se fora deste espaço não houvesse mais nada, nem possibilidades, nem alegrias. Voltamos ao apartamento.

Como foi difícil dividir aqueles lençóis naquelas horas! Você não me convencia, nunca me olhava nos olhos, só dizia que assim era melhor. Eu pedia, repetia: volta pra mim, juntos nós ficamos tão bem. Chorei, choramos. As horas passavam e não havia acordo algum. Não conseguia compreender como se passa da devoção preocupada a indiferença morna em tão pouco tempo. Levantamos, depois de quinze minutos de impasse, silêncios constrangedores.

Fiquei em pé, na sala, mão na maçaneta por longos minutos. Hesitava em ir embora, pois sabia que, a partir do momento em que aquela porta se abrisse, de nada adiantou o esforço, a renúncia do amor próprio, todas as minhas boas intenções. De nada valeu esse tempo de vigília atenta, de engolir as piores inseguranças alheias pra se manter junto, uno.

Sabia que, quando a porta se abrisse, seria apenas o fim.

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