terça-feira, agosto 04, 2009

Apenas o fim [2]

http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim.html
(primeira parte)

Quando desci em Congonhas, numa Sampa deserta pelo feriado, foi quando bateu a agonia. De repente, aquele sentimento de nunca-mais-ser-feliz-pra-sempre. Tomei um porre no buteco habitual, pra emendar numa noite de sexo cego e tortuoso. Depois, peguei o primeiro ônibus rumo ao interior com o telefone escorregando pelos dedos, coração em puras palpitações do: me arrependi, vamos voltar? E nada, nem ligações, nem subterfúgios.

Lembro que, nos primeiros dias, ganhei um jeito de escutar Chico. Primeiro encontrei Lígia, cantando aos soluços que não vinham: "e quando eu me apaixonei não passou de ilusão, fiz um samba-canção das mentiras de amor que aprendi com você". Depois, Atrás da Porta: "nos teus pés ao pé da cama, sem carinho, sem coberta, no tapete atrás da porta". Passei por todo tipo de auto-piedade e auto-punição. Sufoquei-me com minhas desculpas vagas, culpei-me pelos silêncios, pelos meus excessivos pedidos em te ter ao meu lado. Enxerguei-me no espelho de imperfeições em que você continuamente me exibia.

Quando estava quase lambendo os azulejos, naquelas noites mornas de lua absurda, atravessei o rio Grande. Lá, a tentativa de curtir a energia boa de um espaço que há muito me era familiar, mas que a distância tinha colocado uns ares de novidade. Seguiram dias de interurbanos de madrugada, solidão palpitando. Uns sufocamentos, umas desesperanças, uns pedidos categóricos de socorro. Eu, que havia colocado tudo de mim ali, que faria se ali não existia mais?

Na ameaça de desabalar de volta a Paulistânia, tonto de tanto desamor, foi quando um bom amigo trancou a porta de casa e vaticinou: não sai daqui nem por decreto. Quis argumentar, sem sucesso. Ele me disse, sereno: eu sei que é insuportável. Mas fique aqui, eu cuido de você.

Um comentário:

Polly disse...

Tem amigos a quem devemos a alma, os ossos e todo o resto.
E qdo eles revezam para nós salvar?
É de ajoelhar chorando.
Com um fim desse que parece nos virar do avesso, só resta mesmo os amigos, os melhores, os que te deixa beber Chico e que bebem Chico e vomitam Chico junto com você.
E que ao final faz uma comida para o estomago aguentar a próxima...
De todo acabou-a-vida-mais-uma-vez só sobra mesmo os amigos. E a vontade de nunca mais amar!

O que escreveu até aqui é incrivel. REssucitei alguns cds antigos para fazer trilha as suas palavras. Tudo tão cinza e delicado, martini seco!