domingo, julho 26, 2009

Vem, pra me dizer.

Vem, pra me dizer: vem. Sem pudor e sem cuidado. Atravessando esta cidade cinza, gélida e excessivamente molhada. Sem aviso, sem sequência. Vem, pra me dizer: então se perca. E jogar a chave pela porta, esquecer a mediocridade da conta do cartão de crédito pra pagar. Vem, pra me dizer: apague a luz. E nos guiarmos pelo toque e pelo tato, a linguagem silenciosa da ponta dos dedos, dos vazios pontuados de interrogações. Vem, pra me dizer: sem recados. Sem ligações e sem esperas, sem o telefone derretendo horas nas mãos a imaginar o perigo de tocar agora, o perigo de não tocar nunca mais. Vem, pra me dizer: te salvo. Das noites vazias, dos porres sem motivos, do sentimento de vingança que me deixaria só-comigo. Vem, pra me dizer: vem agora, vem depressa. Não esqueça a cerveja, com cuidado pois nunca se sabe, nunca se sabe. O mundo anda tão perigoso, baby,

sábado, julho 25, 2009

Catherine (Luiz Felipe Pondé)

LEMBRO-ME DO impacto que o livro “Morro dos Ventos Uivantes”, de E. Bronte, teve em mim. Amantes que nem a morte foi capaz de curar a paixão infernal de um pelo outro. Vi as versões que o livro teve no cinema inúmeras vezes. Dormi noites inteiras com Catherine Earnshaw Linton (heroína do romance). Esta é a forma de imortalidade em que acredito, não a do paraíso raso das belas almas.

As irmãs Bronte são parte do período romântico (século 19), a primeira ressaca com a modernidade. Almas rasgadas pela nostalgia do mundo perdido, atormentadas por um passado transformado em fantasma. Feitas da mesma matéria das sombras, andam nuas pelas ruas de uma Europa dilacerada pelo espólio das guerras napoleônicas. Almas acuadas pelo materialismo científico nascente vingam-se na forma de assombração.

A alma romântica habitando um corpo moderno enfrentará o mundo devastado pela arrogância idiota dos modernos, pela objetividade morta da ciência, pelo niilismo do dinheiro, pela certeza cética da inutilidade da verdade. Em uma palavra, será uma exilada.Guardo uma certa simpatia pelo romantismo. Dirá o leitor: “Já suspeitava disso”. Por isso, delicia-se o leitor, minha incapacidade de lidar com um mundo onde as pessoas “escolhem tudo o tempo todo”. Suspeito da mentira que cala fundo neste blábláblá da escolha livre de tudo. Todavia, não se engane o leitor que gargalha em seu sofá cercado pela vitória definitiva da arrogância idiota dos adolescentes, da inércia burocrática, da objetividade do dinheiro, do cinismo histriônico e do ceticismo chique.

Românticos aprendem a falar a língua do mundo banal. Se você o encontrar num desses jantares inteligentes, o confundirá com a espécie mais cínica de pós-moderno que é possível imaginar. Ele rirá do amor, defenderá bebês fabricados pela indústria farmacêutica, afirmará a vitória do relativismo elegante de quem sempre viaja de primeira classe, enfim, ele manipulará, como quem manipula vermes, os códigos da vida devastada.

Não esqueça, caro leitor, que o romântico não é propriamente um idiota nostálgico, o romântico é um sobrevivente, sente-se como uma espécie caçada, um mutante que já nasceu num habitat hostil. Às vezes, esse tipo de ser é mais perigoso do que você, que ri tranquilo, cercado pela crença boçal de que o mundo seja seu. Os melhores entre eles aprenderam a dissimular a lágrima, mudar de assunto, fazer uma piada inteligente, fechar a porta do quarto. Quem se sabe desde o inicio derrotado, detém uma forma de poder invisível que o torna perigoso, justamente porque não combate pela vitória, mas sim porque sua natureza é não ter futuro.“Mas combateria por quê?” Pergunta típica da fraqueza que move os vencedores. Resistir é nesta alma uma primeira natureza. Talvez combatam porque esta seja a natureza de quem já nasceu num mundo que não é seu ou porque não conheça outra forma de se comportar num mundo onde há muitas esperanças, mas não para eles. Todo cuidado é pouco diante de quem não tem nenhuma expectativa.

Não há como mudar a máquina que põe em movimento o mundo moderno: a ciência é sua fé, a estupidez burocrática é parte essencial da inteligência administrativa, a velocidade do dinheiro é mola motora das relações, o controle crescente da respiração é destino numa sociedade que nada mais é do que a geometria das utilidades. O desencanto do romantismo é uma forma de inteligência sem função. O romântico é uma espécie de contradição insolúvel no progresso definitivo da vida calculada. São caçados como uma praga. E com razão: são inimigos de uma vida perfeita. Diante deles, babamos como predadores famintos.

O desafio para um romântico é aprender a lidar com suas sensações num mundo em que elas não significam nada. Mas, a chave é perceber que nos momentos em que elas se tornam incontroláveis, ele deve correr para a escuridão, porque românticos são animais da lua e não do sol, se alimentam da sombra.

Quando Fernando Pessoa diz que “se o coração pensasse, pararia de bater”, é do coração romântico que ele fala. Ao encontrá-lo, devemos ter por ele o respeito que merecem as espécies em extinção.

Espero que esta coluna de hoje seja a menos lida. Quem a ler, esqueça-a, jogue fora. Se encontrar comigo em algum lugar, não me pergunte sobre ela. Não a discutirei em público, trate-a como um segredo que você tem entre as mãos.

domingo, julho 19, 2009

"Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de 'Atrás da Porta', ali no quando 'dei pra maldizer o nosso lar pra sujar seu nome, te humilhar...'"
(Caio F.)

Sobre as coisas miúdas

O fato que meu coração sempre bateu mais forte pelas coisas desimportantes. Nunca fui bom para lidar com racionalidades, horários, livros de ponto. Sempre me perco tergiversando. Às vezes, por exemplo, me pego lembrando do seu sorriso besta no logo após você me beijar ou da névoa espessa que se fazia em casa nesta época do ano. Gosto mesmo é das miudezas. Gosto mesmo desta minha realidade inventada que insisto em manter...

quinta-feira, julho 02, 2009

Gripe suína for dummies

Vem cá: se essa gripe não mata ninguém, porque existe tanto vuco-vuco por trás?

Bem, ESSA gripe AINDA não mata. Existem tipos de gripe com mortalidade em torno de 30 - 50%. Toda vigilância serve para monitorar se / quando algo vai sair dos conformes. Porque, com tanto vírus rodando por aí, se ele sofrer uma mutação caprichosa, daí podemos ter uma gripe com mortalidade considerável. Nunca é demais dizer: a epidemia de gripe espanhola foi dividida em três fases. A primeira não matou ninguém, a segunda levou 20% da população.

Então, eu vou morrer?

Não. Vigilância serve mesmo para isso. Por enquanto, a taxa de mortalidade é baixíssima, menor que 0,1%. O problema é só para extremos de idade e portadores de comorbidades prévias, que sempre foram a população de risco para doenças virais respiratórias.

Tudo bem. Se eu tiver sintomas, corro para o hospital?

Depende. Se você não tiver febre, nem adianta levantar a bunda gripada da cadeira. Um dos critérios maiores para você suspeitar de H1N1 é febre. Também é preciso apresentar tosse e/ou dor de garganta.

Ok. Estou me sentindo assim. Corro para o hospital?

Depende. A última coisa necessária para a suspeita de H1N1 é algum vínculo epidemiológico, isto é: que você tenha contato com algum caso suspeito / confirmado ou vindo de regiões aonde a gripe está presente (no momento, mais de 120 paíeses incluindo Antilhas Holandesas, Fiji, etc).

Meu vizinho está doente, gripado. Vale?

Se ele não tiver histórico epidemiológico, não. Permaneça com a bunda gripada na cadeira.

Mas eu ando de metrô, vou ao cinema, etc. Se essa gripe está em todo lugar, como o Jornal Nacional fala, com certeza eu vou pegar!

O Ministério da Saúde ainda não considera que esteja tendo transmissão sustentada, ou seja, transmissão sem proximidade com caso suspeito ou confirmado ou do exterior.

Entrei em contato com algum casos suspeito / confirmado ou acabei de chegar do exterior. Não apresento sintoma nenhum. Preciso ir ao hospital?

Não. As orientações só valem para quem tem sintomas. Se você não está gripado, pra que vai no hospital?

Ah, mas eu queria ir só para desencargo de consciência...

Acredite, numa lista de coisas que médicos odeiam atender, pessoas com sintomas flu-like (= gripais) está com certeza no top ten junto com bolas na garganta que sobem e descem, formigamento nas mãos, etc. Ninguém passa seis anos na faculdade para ficar perguntando: teve febre? Tá tossindo? Garganta tá doendo? Médicos, normalmente, gostam da ilusão de estarem realmente salvando vidas. Então, se você não apresenta sintomas, não sobrecarregue os hospitais que já estão sobrecarregados para você tirar uma dúvida, pedir exames, etc. Compreendido?

Qual hospital que eu vou?

Um decente, de preferência. Esqueça aquele hospital de convênio vagabundo que você tem, com um médico, provavelmente, sub-empregado, recém-formado e sem residência. Veja a lista dos hospitais referenciados e vá em algum deles. Pelo menos eles tem discernimento e informação para conduzir seu caso suspeito de uma forma correta e sem muitos atropelos.

Mas eu sou chique, vou lá no Einstein, no Sírio...

Vai mesmo, dou todo o apoio. Só que aposto que lá está tão pandemônio quanto os públicos. Pelo menos, lá tem máquina de café e os funcionários fingem que se importam com suas reclamações de "tá demorando" e etc.

E o tratamento?

É com Tamiflu, um antiviral. Só está indicado para pacientes que possuem fatores de risco para evoluirem para um quadro mais grave.

Eu quero tomar. E aí?

Não pode, se não tiver indicação.

Mas eu sou chique, posso comprar. E aí?

Se fudeu. Devido a babacas como você, que tomam desnecessariamente o remédio e fazem pressão seletiva para o vírus ficar resistente a uma das poucas medicações disponíveis, o governo controla todo o estoque do Tamiflu. Ou seja, só toma quem o médico quiser.

Tá bom, vou conseguir no mercado negro...

Tudo bem. Mas tome antes de 48 horas do início dos sintomas, senão não serve para nada.

E o exame? Tô querendo fazer só pra saber se peguei isso...

Bem, também só faz o exame quem é considerado caso suspeito. O exame não está sendo feito de rotina. E antes que você pergunte, nem no Fleury você consegue isso "particular". Só poucos laboratórios credenciados de referência estão fazendo os exames.

Poucos laboratórios? Mas isso tá dando certo?

Não exatamente... Mas enfim.

Tudo bem. Entrei em contato com alguém suspeito que foi posto em quarentena. São quatro horas da manhã. Corro para o hospital?

Para isso e para qualquer coisa que você, por vez, sinta: ir a noite no hospital é só em caso de urgência. Médicos, não raro, já estão deveras mal-humorados após as onze horas da noite. Nem acham muito ruim de atender coisas urgentes, tipo infarto, derrame, parada cardíaca. Agora, nem tente se consultar por conta de uma gripe no horário pouco cristão após a meia-noite. Médicos tem técnicas sádicas de fazer o paciente se arrepender por tê-los aborrecido por bobagens fora de hora. Se você estiver espumando pela boca, os lábios estiverem azuis, daí a coisa é completamente diferente. Até mesmo porque, como falei acima, esta gripe raramente pode causar casos graves.

E...

Última coisa, sobre contato. Considera-se contato aquele indivíduo que você conversou a até um metro de distância. O vírus se propaga por aerossol na saliva e não costuma ir muito além desta imensa distância. Por isso, aquele seu coleguinha do andar de cima que está em isolamento e você nunca viu na vida, pouco provavelmente transmitirá a gripe para você.

Mas estou com medo, quero andar de máscara. Posso?

Lógico que pode. Mas é desnecessário, sem contar que é ridículo. A máscara cirúrgica funciona bem por intervalos curtos de tempo e para evitar contatos rápidos, mas ela não barra com tanta eficácia se utilizada por longos períodos.

Ainda estou com medo... Posso te fazer uma pergunta reservadamente, tipo na caixa de comentários aqui embaixo? Ou no Orkut? Ou no Twitter?

Não. Já me basta estar dentro do olho do furacão desta bendita pandemia somente pelo duvidoso prazer acadêmico, sem nenhum adicional financeiro. Se está realmente com dúvida, entre no site do Ministério da Saúde, do CVE, joga no Google, se vira nos trinta. Só não venha me encher o saco, pois não aguento mais falar sobre febres e corizas depois de doze longas horas ininterruptas fazendo isto no hospital.

Ah, mas larga de ser grosso. Você é médico, seu dever é proteger a população e etc...

[conversa com a minha mão]