quinta-feira, junho 25, 2009

Contardo Calligaris hoje, na folha

"Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras"

"Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia"

Quem identificou, levanta a mão e bate aqui: __________

(PS - em breve, bem breve, mudança editorial no blog. Aguardem)

sexta-feira, junho 19, 2009

Pois é...

(...)

Vou aqui, acender o terceiro e último cigarro. Apago a luz e ficarei observando a brasa, queimando lenta. Sentindo esse entorpecimento bom, que basta por hoje. Ainda não sei o que construirei destas suas ausências, destes espaços que, sem querer, você se coloca...

Canto junto: avisa que é de se entregar o viver. Não me consola, mas é o que basta nesta noite fria, tão fria...

quarta-feira, junho 17, 2009

Num domingo provável

Chego junto com as primeiras luzes do dia, olheiras nada discretas, com o frio de lá fora preso nas pontas dos dedos. Entreabro a porta, fazendo anteparo para não deixar muita luz entrar. Tiro a roupa devagar e me enfio debaixo do edredon num esforço quase hercúleo para não te acordar. Só que esqueço do seu sono leve, você desperta a termo de me perguntar: "Como foi seu dia?". "Longo", respondo. E sorrio. Daí você me abraça, encaixa minha cabeça no seu braço, tipo travesseiro. Tão pecado, logo domingo, estarmos acordados às sete da madrugada. E adormeço.

O sono é confuso, afinal, o sono da manhã nunca é tão repousante. Nos flashes que tenho, só reconheço coisas vagas ao longe: às vezes parece bossa nova, às vezes parece qualquer coisa brit-rock. Você não está na cama, presumo pelo vazio grande ao meu lado. Falta energia para sair, então deixo-me ir ficando na preguiça destes dias tão raros de folga. Até que, entre cochilos, sou acordado às lambidas pelo schnauzer mais lindo do mundo. Numa das vezes em que você veio velar meu sono, esquecera a porta aberta. Ainda demoro minutos, espreguiço-me longo pra começar o dia. Ao sair da cama, pego o cachorro de surpresa e murmuro baixinho: "Que seja doce, sete vezes". E levanto.

Atravesso o quarto meio zumbi, cabelo vergonhosamente desgrenhado, chego a sala e você não está. A música permanece, abafada pela porta trancada. Ainda tento girar a maçaneta e você me manda embora, pra não estragar a surpresa. Gosto de surpresas, sorrio. Refaço o caminho, tiro toda roupa numa hesitação monstruosa e entro no chuveiro. Água quente, para dilatar todos os poros. O banho é premeditadamente demorado, fico vigiando a porta na esperança de você entrar. Nada acontece, mas não me aborreço. Troco-me, coloco uma polo branca que gosto tanto, aparo a barba deixando-a estrategicamente desleixada, roubo seu perfume para sair cheirando pimentas pretas. Quando chego a sala, tudo parece cheirar o mar. Da cozinha, cantam sobre o Corcovado, o Redentor, que lindo. A porta está aberta.

Te abraço pela cintura, antes de você perceber minha chegada. Roço a barba devagar naquele canto esquecido perto da orelha: é minha forma silenciosa de te dizer boa tarde. Na panela, ainda borbulhando, são polvos. Reclamo que, pra mim, minha parte predileta nos polvos são aquelas ventosas grudentinhas que ficam na boca e a gente tem que ficar mastigando mastigando tipo chiclete sem gosto e você sorri e me empurra na parede dá dois beijos desliga o fogo quase deixa o prato cair e daí me abraça forte com a mão escapando até minha nuca e me afaga tão ternamente que suspiro porque eu gosto tanto do seu jeito de me adular e daí de repente penso que sou feito de milhares de moléculas e fico com medo de sei lá derreter pelo chão meio Céline meio Jesse tão tonto dessa vertigem que estamos sentindo...

E decidimos almoçar embolados um no outro, jogados no sofá. Só levanto para pegar o edredon azul, confirmando a frialdade do dia. Mas há a pimenta, há seu corpo quente que não deixa a temperatura cair. Não há muito o que fazer, a tarde quase faz a curva rumo a noite: decidimos nada fazer além, neste dia tão preguiçoso. Estouramos pipoca, lambuzo tudo de ketchup de baixa qualidade. Vemos um filme bom, outro divertido, zapeamos pela depressão domingueira da TV aberta. Numa propaganda de Sonho de Valsa, Amarante canta "ain't no lover like the one i've got". Lá fora, o leão já começa a rugir. E como ainda não me acostumo com essas selvagerias, dou um pulo de leve. Você vê, ri e me abraça. Perco o equilíbrio, caio do sofá e você cai junto, em solidariedade sincera.Percebo que você não tira os olhos de mim e a recíproca é verdadeira. Ficamos ali, no tapete, por um tempo indefinido: podiam ser minutos ou dias, talvez semanas, sei lá.

Penso em tantas coisas, tantos quereres. Em como quero te guiar pelos meus silêncios e pecados, todas as minhas idiossincrasias. Queria te mostrar meu mundo imperfeito, a tatuagem que planejo fazer, conhecer Praga e tomar um banho de mar contigo. A beleza em dividir essas cotidianidades banais, às vezes até fúteis, mas para devagar construirmos nossa compreensão silenciosa. A Lua agora sobe, iluminando pouca coisa além de nossas sombras. Dá vontade de ficar para sempre neste magnetismo tão bom...

terça-feira, junho 02, 2009

The Turning Point

Foi quando saí de casa, nestes dias de despedida destas ruas tão familiares que percebi: o ônibus não estava mais lá. Se foi vendido, se foi roubado, se foi levado para uma road-tripping pelo mundo, não sei. Só sorri, da coinciência da data: fazem seis meses, não?


Fiz as contas, para ter certeza do fato. Porque, afinal, já era tempo de tirar os panos de luto da janela, botar aquela velha caixa correnteza abaixo e seguir em frente, bambo e torto com a sombrinha na mão. Pela cidade vejo pessoas vendendo morangos, penso em Clarice. Volto nestes ônibus tão cheios, me apoiado na barra enquanto o veículo desliza pelo caos da cidade e lembro que tenho trabalhado tanto, pensando em Caio Fernando.


Sem perceber, as coisas acontecem. Faço o balanço dos dias e nunca foram tão plenos. O esforço frutifica, a vida parece que se encaixa numa loucura silenciosa. Quando penso que seria tudo só ladeira abaixo, só suor e sangue: há essa beleza tão working-class de se sentir pleno com o que se faz.


O coração nunca permanece vazio. Mesmo quando negligencio, desatento, sou pego de susto: há sempre uma história que acontece inesperadamente. Dessas cinematográficas, que valeriam um curta nestes últimos dias de outono tão iluminados. E mesmo que elas me deixem no mesmo lugar, há essa energia boa do acontecimento, da possibilidade. E de vivê-las, reencontrar-me novamente bonito e valorizado no espelho do outro. E de me ver assim, tão iluminado novamente, aprumar a coluna, quem sabe até comprar aquele perfume de pimentas pretas? Quem sabe, até fazer aquela tatuagem...


Sampa segue gélida, nestes últimos dias de outono. Os dias carregados de tanta luz que até doem. As felicidades são telegráficas e há promessa de coisas melhores por vir. Veja lá, voltei a ser a Pollyana surtada? Não sei. Só sei que é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê...