domingo, maio 24, 2009

Sobre mortes (sem culpa, vejam só), parte 2

"E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade..."
(meu bom e velho Vininha)

Aquela era uma época sem culpa, sem pecados. Me lembro: vago 2006, quando tudo era longe e difícil. Os amores eram vagas possibilidades, dispersos em centenas de quilômetros de distância. Poucas certezas, várias dúvidas: só um caminho aparecendo, várias risadas, diversões com poucas coisas.

Lembro-me dele. Meia dúzia de contatos, três vezes uma casa cedida naqueles dias de pouco dinheiro e muita esperança. Rafael era um rapaz doce, meigo, da minha altura. Compartilhava com ele essa sensação do corpo maior que o mundo, aprendendo a lidar com braços tão grandes e peito tão aberto. Conheci seu irmão, conheci tantas fotos na parede de pessoas felizes. Morava na cidade vizinha de meus avós e todas as vezes, naqueles natais longos e sem perspectivas além, marcávamos um encontro na praça, pra tomar sorvete e etc, que nunca acabou acontecendo.

Fazia Odonto, mas queria Medicina. Lembro-me uma vez, conversando com ele numa noite regada a cerveja Ale, dividindo todas as intempéries do meio do curso. Contava coisas banais daquela época: livros absurdos, capítulos imensos, expectativas que não concretizavam. Da aridez de tanto tempo de dedicação sem nada em vista. Ele só me olhava, olhos sedentos. Dizia que os pais não o permitiam seguir outro rumo. E eu, de consolo até sincero, retrucava: também não sei se esse caminho era o que eu queria, o mais ensolarado.

Daí, o tempo. Dessas coisas concretas que vocês me vêem contando. Amores sem rumo, expectativas sem caminho. Assistir a tanta coisa que nunca imaginei ver. Ribeirão Preto virou terra distante, perdida num mar de lembranças ternas que guardo para mim. Seguimos o caminho.

Fael Loureiro se matou enforcado há um mês atrás, na terceira tentativa. Só na última teve sucesso. Foi encontrado quatro dias depois, quando a natureza, impacável, já seguia seu curso. Fiquei sabendo num telefonema de um grande amigo, estupefato pela gratuidade do fato. E ali, naquela noite fria, permaneci mastigando as lembranças, coisa que me é bem característica.

Não vou abusar dos clichês: não basta só acender uma vela e, catolicamente, rezar por qualquer tipo de redenção. Pouco o conhecia além daquelas noites que me pareciam vastas e tempestuosas. Porque, de fato, a notícia mexeu comigo. Compartilhava com ele alguns momentos iluminados e, com sua partida, pareceu que parte da minha história tinha ido embora. Mesmo que fosse pra encontrar, nesses esbarros providenciais da vida e dizer: sabe, naquele tempo, e se tivesse? Parece que aquele carinho todo fica sem ter pra onde escoar.

Penso agora nessa nossa solidão urbana, árida e difícil. Em todas essas noites que queimamos em trabalho árduo sem saber pra onde vai dar, ou jogando os dados na expectativa de compartilhar com alguém um pouco deste caos em que estamos imersos. Não que seja um caminho válido, mas: e se fosse eu? Se não bastasse o fim, nessa demora desumana em terem se apercebido da falta de alguém, da falta do toque um pouco mais demorado no ombro, na paciência silenciosa em verter nossas dores pequenos-burguesas que temos tanta vergonha de contar.

Hoje tomei um porre, voltei de metrô. No caminho longo que separa minha casa da estação, fumei três cigarros numa tristeza difícil. Vim contado os passos, iluminado pela brasa débil que acendia das minhas golfadas longas. Pensei em Fael quase todo tempo. No imerecimento da ocasião. Nas escolhas difíceis que tomamos, por vezes afastando do ponto que nos é confortável. E concluir, dentro de todo aprendizado o que Vinícius me disse: realmente não há muito o que dizer. Por isso temos braços longos para os adeuses...

E é preciso suportar. Mais que nunca, é preciso cantar. Aceitar o fato da vida injusta, das dificuldades que nos são impostas. De que, de uma forma irracional, há algo bom que nos espera na esquina da frente. Talvez a Mega Sena, talvez o amor brand-new soprando mansinho nos ouvidos, talvez aquela epifania que faça o click e bote tudo com um sentido.

E, iluminado por essa noite fria, penso em Bandeira. Meu Bandeira bom, que passou a vida esperando a tísica lhe carregar para a morte. De peito aberto, de alma lavada. Porque são tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz... E adormeço.

"Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação"

PS - as referências: Poema de Natal e Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Vinícius de Morais e Último Poema de Manuel Bandeira. E haja axé para todos nós.

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