domingo, maio 10, 2009

Réquiem

"Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena"

(Caio Fernando Abreu, Cartas)

Pra te reencontrar no Skye, Sampa novamente se derretendo aos nossos pés. Naquele dia havia um frio cortante e uma vontade tanta de entrelaçar suas mãos com as minhas. Tão engraçado tanto tempo sem ver e essa identificação instantânea. Falamos de Medicina e bossa nova, viagens pela Europa e planos pro futuro. Falamos de cervejas e banalidades. Deixamos as meninas na Consolação e peguei a Rebouças para te deixar em casa. Você me abraça forte: "Deixa eu te dar um abraço Rob Thomas, estava com saudades". Sorrio, ternamente. Fome nem havia, só a vontade de deixar-se ficar mais um pouco na rua, mais um pouco dentro daquele magnetismo bom.


E num improvável McDonalds às três da manhã, quase soluço de amor contido.


***


Sempre esperei cinematografias. Sempre esperei aquela coisa Jesse e Céline, numa luz maravilhosa de outono ou também Carrie Bradshaw, último episódio.


Daí, me iludo. Quando vejo, já escrevi o roteiro de nosso amor idílico, quase patético, tão clichê. Recrio um universo edulcorado, em tons pastéis. Distorço idéias para encaixá-las na minha visão estreita de mundo. E não é assim. Você não é assim. Você nunca me prometeu qualquer tipo de salvação. Não me beijou na rodoviária, não me levou ao aeroporto. Nunca me disse que seremos tão felizes no futuro.

Sob a luz vacilante de um domingo gelado, à porta do meu prédio, você me disse: "Há tanto ainda para acontecer". Suspiro silenciosamente e concordo, há tanto... E fico esperando que você me diga: "We'll always have São Paulo".

E você não dirá. Hoje percebi, só hoje percebi: não dirá.

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