sexta-feira, maio 15, 2009

Post 500

Há uma lembrança vívida dos meus primeiros anos de faculdade. Acidentalmente, tive que terminar um trabalho acadêmico (daqueles bem idiotas, lógico) num dos computadores do Hospital. Foi ali que assisti a solidão daqueles seres atarantados que atravessam corredores, sob aquela luz mortiça das lâmpadas brancas, meio-mortos-vivos de roupas verdes, meio bambos nos passos.


Lembrei disso ontem, às cinco da manhã, na Sala de Emergência de um hospital qualquer. Sabe, naquela prostituição da minha capacidade produtiva para comprar essas coisas fúteis da ganância inerente do mundo adulto. Um infarto do miocárdio, parede anterior extensa, paciente mal mal mal mal mal mal. UTI cheia, teria que me virar por duas horas enquanto o socorro não vinha. Lógico que deu vontade de sentar ao meio-fio, chorar cântaros e maldizer a má-sorte que me persegue nos últimos meses. Mas vá lá: pede estreptoquinase, manda pegar acesso, dá AAS, clopidogrel, liga o Tridil, sobre morfina, pega pressão, confere a troponina, roda outro eletrocardiograma. Vê que não dá certo: é preciso força, é preciso o desapego... Lá fora amanhece, tamborila uma garoa fina, do jeito que gosto. E ainda tem o trânsito medonho de volta pra Paulistânia...


***


Assim andam os dias: alucinantes, exaustivos. Há uma tranquilidade enganosa, de poucas responsabilidades strictu senso. Mas veja: tento fugir de um processo por negligência que definitivamente não mereço, até saber que fui intimado para depor, lá nos confins do interior, sobre um assalto que sofri há dois anos. Obviamente não fui informado a tempo. Sou avisado que aquele paciente falido e com linfoma desce ladeira abaixo na Semi-Intensiva, qual é o estadiamento mesmo? A memória falha. Daí tem que mudar de apê e existe toda preguiça do tempo inútil que isso irá custar. O vidro do passageiro do carro há meses permanece quebrado, minha mãe vocifera lá longe toda sorte de chantagens emocionais, vejo que já completo um mês dividindo meu minúsculo apartamento com minhas tias com o retorno, após vários anos, de qualquer coisa semelhante a dinâmica familiar. E dinâmica familiar não é, de todo, bom. Enfim, o amor novo cobra presença, manda mensagens, mas há uma preguiça... Falta paixão? Falta vontade de deslocar, fazer-acontecer, começar-de-novo. Descubro-me workaholic. Amanhã tem festa num puteiro na Augusta, why not? Daí vendo a alma pra trocar o plantão de domingo, sempre bom porre sem culpa num sábado, ainda mais naqueles em que você se propôs a estar em qualquer lugar do ABC, acordado às sete da madrugada. Checo mail, tem exposição na Oca de amigo querido fotógrafo até... domingo. Também tem aquele friamente mal educado, me cobrando o capítulo de síndromes ictero-hemorrágicas cujo prazo se estendeu até hoje. Confiro as mensagens: pagode na Atlética hoje, talvez vou se a garoa passar. Lá do Rio, recebo notícias doces: chego em Guarulhos às 05:40, o coração derrete naquelas expectativas... vocês sabem. Telefone toca: aquele paciente transplantado com varicela, parece que parece varicela. Concordo laconicamente, achando mezzo varicela, mas enfim. Existe aquela Lua absurda encimando o céu: cheia e apaixonada. Sigo em caminhos confusos iluminado por ela, laranja e tensa, quase arrebentando. Nestas horas Nara canta, presto atenção nos sambas e, especificamente, Meditação. Daí sinto faltas, assim, plurais. A mão coça em responder aquele mail, dizer umas nostalgias. Você se pergunta: para que mesmo? Masoquismo não vale, afinal, você passou da fase. Aquelas notícias da Carniceria não fizeram bem e por isso Cazuza martela nos sonhos e pesadelos: será que você ainda pensa em mim?

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