quinta-feira, maio 28, 2009

Réquiem, o final

Quinta-feira, tarde - Subo a minha ladeira habitual, caminho de sempre para casa. O dia é nublado, daqueles de gelar a ponta do nariz. Meus prediletos. Vou escutando Tiê, aliás, havia escutado Tiê o dia inteiro e cantando meio que em prece íntima: "Fica feliz que vai funcionar". Dizem que funciona, dizem que parece comigo. Suspiro, nestes dias confusos: que seja doce. E o telefone toca, atendo direto no fone. Surpreendo-me com a voz doutro lado da linha. Você diz: "Gabri (gosto disso, só você no mundo que me chama de Gabri), eu voltei. Disse que voltaria. É a última vez que estou aqui em Sampa no ano, gostaria de te ver". Digo irresponsabilidades reflexas: "Lógico, sim, vamos. Tenho aniversário, amanhã de plantão em Santo André. Mas damos um jeito, beijo". E ali, na solidão de uma grande avenida paulistana, coberto pela neblina tóxica de monóxido de carbono tão típica nestes dias de inversão térmica, mando uma mensagem desesperada para minha amiga-bossa-nova: "E agora? E o coração, onde é que fica?".

Porque, eu já sabia, que aquele seria o início do fim...

Sexta, almoço - Marco com um novo amigo aqueles almoços executivos: comer não importa, o que importa é o que se discute. E daí resolvi trazer minhas migalhas de amor. Contei-lhe toda história: minha primeira noite em Sampa, da minha semelhança com Rob Thomas, a viagem para além do Trópico de Capricórnio para, sei lá, procurar o algo que faltava. Dei a ênfase nas reticências, nessa relação estranha que se criou entre nós, mesmo que pautada em nossos breves encontros e histórias similares. Meu amigo, de repente, deu uma risada boa e disse: poxa, parece Antes do Amanhecer. Sou eu quem sorrio, em seguida. Ele tinha entendido o ponto. E me perguntou em seguida: "Mas porque você não bota as cartas na mesa? Porque você não diz que essa história de seu-amigo-o-caralho, te quero mesmo na minha cama entre edredons?".

"O difícil é ter cultivado uma história tão legal, tão bonita e ver tudo esfarelar sob a luz da realidade. Ainda não sei se quero abrir mão dessa minha historinha de amor romantizada. Lá no fundo, tenho a ilusão de que, sei lá, daqui seis meses quem sabe. Porque esse é o último amor platônico que tenho. Não é fácil abrir mão de uma ilusão que gosto de lembrar vez por mês, acariciá-la com zelo e colocá-la na prateleira das minhas coisas belas pra cair na solidão desse mundo imenso, vasto e irritantemente palpável. Gosto de viver essa minha realidade inventada. Não queria perder algo descobrindo que eu nunca tive, entende? É difícil..."

(continua..)

domingo, maio 24, 2009

Sobre mortes (sem culpa, vejam só), parte 2

"E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade..."
(meu bom e velho Vininha)

Aquela era uma época sem culpa, sem pecados. Me lembro: vago 2006, quando tudo era longe e difícil. Os amores eram vagas possibilidades, dispersos em centenas de quilômetros de distância. Poucas certezas, várias dúvidas: só um caminho aparecendo, várias risadas, diversões com poucas coisas.

Lembro-me dele. Meia dúzia de contatos, três vezes uma casa cedida naqueles dias de pouco dinheiro e muita esperança. Rafael era um rapaz doce, meigo, da minha altura. Compartilhava com ele essa sensação do corpo maior que o mundo, aprendendo a lidar com braços tão grandes e peito tão aberto. Conheci seu irmão, conheci tantas fotos na parede de pessoas felizes. Morava na cidade vizinha de meus avós e todas as vezes, naqueles natais longos e sem perspectivas além, marcávamos um encontro na praça, pra tomar sorvete e etc, que nunca acabou acontecendo.

Fazia Odonto, mas queria Medicina. Lembro-me uma vez, conversando com ele numa noite regada a cerveja Ale, dividindo todas as intempéries do meio do curso. Contava coisas banais daquela época: livros absurdos, capítulos imensos, expectativas que não concretizavam. Da aridez de tanto tempo de dedicação sem nada em vista. Ele só me olhava, olhos sedentos. Dizia que os pais não o permitiam seguir outro rumo. E eu, de consolo até sincero, retrucava: também não sei se esse caminho era o que eu queria, o mais ensolarado.

Daí, o tempo. Dessas coisas concretas que vocês me vêem contando. Amores sem rumo, expectativas sem caminho. Assistir a tanta coisa que nunca imaginei ver. Ribeirão Preto virou terra distante, perdida num mar de lembranças ternas que guardo para mim. Seguimos o caminho.

Fael Loureiro se matou enforcado há um mês atrás, na terceira tentativa. Só na última teve sucesso. Foi encontrado quatro dias depois, quando a natureza, impacável, já seguia seu curso. Fiquei sabendo num telefonema de um grande amigo, estupefato pela gratuidade do fato. E ali, naquela noite fria, permaneci mastigando as lembranças, coisa que me é bem característica.

Não vou abusar dos clichês: não basta só acender uma vela e, catolicamente, rezar por qualquer tipo de redenção. Pouco o conhecia além daquelas noites que me pareciam vastas e tempestuosas. Porque, de fato, a notícia mexeu comigo. Compartilhava com ele alguns momentos iluminados e, com sua partida, pareceu que parte da minha história tinha ido embora. Mesmo que fosse pra encontrar, nesses esbarros providenciais da vida e dizer: sabe, naquele tempo, e se tivesse? Parece que aquele carinho todo fica sem ter pra onde escoar.

Penso agora nessa nossa solidão urbana, árida e difícil. Em todas essas noites que queimamos em trabalho árduo sem saber pra onde vai dar, ou jogando os dados na expectativa de compartilhar com alguém um pouco deste caos em que estamos imersos. Não que seja um caminho válido, mas: e se fosse eu? Se não bastasse o fim, nessa demora desumana em terem se apercebido da falta de alguém, da falta do toque um pouco mais demorado no ombro, na paciência silenciosa em verter nossas dores pequenos-burguesas que temos tanta vergonha de contar.

Hoje tomei um porre, voltei de metrô. No caminho longo que separa minha casa da estação, fumei três cigarros numa tristeza difícil. Vim contado os passos, iluminado pela brasa débil que acendia das minhas golfadas longas. Pensei em Fael quase todo tempo. No imerecimento da ocasião. Nas escolhas difíceis que tomamos, por vezes afastando do ponto que nos é confortável. E concluir, dentro de todo aprendizado o que Vinícius me disse: realmente não há muito o que dizer. Por isso temos braços longos para os adeuses...

E é preciso suportar. Mais que nunca, é preciso cantar. Aceitar o fato da vida injusta, das dificuldades que nos são impostas. De que, de uma forma irracional, há algo bom que nos espera na esquina da frente. Talvez a Mega Sena, talvez o amor brand-new soprando mansinho nos ouvidos, talvez aquela epifania que faça o click e bote tudo com um sentido.

E, iluminado por essa noite fria, penso em Bandeira. Meu Bandeira bom, que passou a vida esperando a tísica lhe carregar para a morte. De peito aberto, de alma lavada. Porque são tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz... E adormeço.

"Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação"

PS - as referências: Poema de Natal e Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Vinícius de Morais e Último Poema de Manuel Bandeira. E haja axé para todos nós.

sexta-feira, maio 15, 2009

Post 500

Há uma lembrança vívida dos meus primeiros anos de faculdade. Acidentalmente, tive que terminar um trabalho acadêmico (daqueles bem idiotas, lógico) num dos computadores do Hospital. Foi ali que assisti a solidão daqueles seres atarantados que atravessam corredores, sob aquela luz mortiça das lâmpadas brancas, meio-mortos-vivos de roupas verdes, meio bambos nos passos.


Lembrei disso ontem, às cinco da manhã, na Sala de Emergência de um hospital qualquer. Sabe, naquela prostituição da minha capacidade produtiva para comprar essas coisas fúteis da ganância inerente do mundo adulto. Um infarto do miocárdio, parede anterior extensa, paciente mal mal mal mal mal mal. UTI cheia, teria que me virar por duas horas enquanto o socorro não vinha. Lógico que deu vontade de sentar ao meio-fio, chorar cântaros e maldizer a má-sorte que me persegue nos últimos meses. Mas vá lá: pede estreptoquinase, manda pegar acesso, dá AAS, clopidogrel, liga o Tridil, sobre morfina, pega pressão, confere a troponina, roda outro eletrocardiograma. Vê que não dá certo: é preciso força, é preciso o desapego... Lá fora amanhece, tamborila uma garoa fina, do jeito que gosto. E ainda tem o trânsito medonho de volta pra Paulistânia...


***


Assim andam os dias: alucinantes, exaustivos. Há uma tranquilidade enganosa, de poucas responsabilidades strictu senso. Mas veja: tento fugir de um processo por negligência que definitivamente não mereço, até saber que fui intimado para depor, lá nos confins do interior, sobre um assalto que sofri há dois anos. Obviamente não fui informado a tempo. Sou avisado que aquele paciente falido e com linfoma desce ladeira abaixo na Semi-Intensiva, qual é o estadiamento mesmo? A memória falha. Daí tem que mudar de apê e existe toda preguiça do tempo inútil que isso irá custar. O vidro do passageiro do carro há meses permanece quebrado, minha mãe vocifera lá longe toda sorte de chantagens emocionais, vejo que já completo um mês dividindo meu minúsculo apartamento com minhas tias com o retorno, após vários anos, de qualquer coisa semelhante a dinâmica familiar. E dinâmica familiar não é, de todo, bom. Enfim, o amor novo cobra presença, manda mensagens, mas há uma preguiça... Falta paixão? Falta vontade de deslocar, fazer-acontecer, começar-de-novo. Descubro-me workaholic. Amanhã tem festa num puteiro na Augusta, why not? Daí vendo a alma pra trocar o plantão de domingo, sempre bom porre sem culpa num sábado, ainda mais naqueles em que você se propôs a estar em qualquer lugar do ABC, acordado às sete da madrugada. Checo mail, tem exposição na Oca de amigo querido fotógrafo até... domingo. Também tem aquele friamente mal educado, me cobrando o capítulo de síndromes ictero-hemorrágicas cujo prazo se estendeu até hoje. Confiro as mensagens: pagode na Atlética hoje, talvez vou se a garoa passar. Lá do Rio, recebo notícias doces: chego em Guarulhos às 05:40, o coração derrete naquelas expectativas... vocês sabem. Telefone toca: aquele paciente transplantado com varicela, parece que parece varicela. Concordo laconicamente, achando mezzo varicela, mas enfim. Existe aquela Lua absurda encimando o céu: cheia e apaixonada. Sigo em caminhos confusos iluminado por ela, laranja e tensa, quase arrebentando. Nestas horas Nara canta, presto atenção nos sambas e, especificamente, Meditação. Daí sinto faltas, assim, plurais. A mão coça em responder aquele mail, dizer umas nostalgias. Você se pergunta: para que mesmo? Masoquismo não vale, afinal, você passou da fase. Aquelas notícias da Carniceria não fizeram bem e por isso Cazuza martela nos sonhos e pesadelos: será que você ainda pensa em mim?

domingo, maio 10, 2009

Réquiem

"Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena"

(Caio Fernando Abreu, Cartas)

Pra te reencontrar no Skye, Sampa novamente se derretendo aos nossos pés. Naquele dia havia um frio cortante e uma vontade tanta de entrelaçar suas mãos com as minhas. Tão engraçado tanto tempo sem ver e essa identificação instantânea. Falamos de Medicina e bossa nova, viagens pela Europa e planos pro futuro. Falamos de cervejas e banalidades. Deixamos as meninas na Consolação e peguei a Rebouças para te deixar em casa. Você me abraça forte: "Deixa eu te dar um abraço Rob Thomas, estava com saudades". Sorrio, ternamente. Fome nem havia, só a vontade de deixar-se ficar mais um pouco na rua, mais um pouco dentro daquele magnetismo bom.


E num improvável McDonalds às três da manhã, quase soluço de amor contido.


***


Sempre esperei cinematografias. Sempre esperei aquela coisa Jesse e Céline, numa luz maravilhosa de outono ou também Carrie Bradshaw, último episódio.


Daí, me iludo. Quando vejo, já escrevi o roteiro de nosso amor idílico, quase patético, tão clichê. Recrio um universo edulcorado, em tons pastéis. Distorço idéias para encaixá-las na minha visão estreita de mundo. E não é assim. Você não é assim. Você nunca me prometeu qualquer tipo de salvação. Não me beijou na rodoviária, não me levou ao aeroporto. Nunca me disse que seremos tão felizes no futuro.

Sob a luz vacilante de um domingo gelado, à porta do meu prédio, você me disse: "Há tanto ainda para acontecer". Suspiro silenciosamente e concordo, há tanto... E fico esperando que você me diga: "We'll always have São Paulo".

E você não dirá. Hoje percebi, só hoje percebi: não dirá.