terça-feira, abril 07, 2009

Sobre mortes e culpas, parte 1

"O que eu percebi é que a ferramenta da qual eu aprendi a depender absolutamente (a medicina), não pode me salvar nem me proteger"
Scully, em Redux (Arquivo X)

Aquele 2003 ficou sendo o ano mais terrível de todos. Lembro de eu, Maria Anita e Vivien, entrando na primeira necrópsia. Pura curiosidade mórbida de estudante de Medicina recém-chegados na Patologia. Admirávamos Scully, admirávamos a beleza hipocrática do corpo humano. Fomos.

Vivien não durou dez segundos, quando finalmente aprendíamos o que era o tal rigor mortis. Maria Anita ainda ficou meia hora, até sair cambaleando após uma exposição pormenorizada das vísceras, infartos pulmonares, trombo intramurais. Eu fiquei até o fim, mas na iminência da vertigem. Aquele soco no estômago lento, morango mofado na boca.

Já havíamos visto gente morta. Muitas. Fatiadas, catalogados em vidros fedorentos de formol. Abrimos um cadáver inteiro, com nossos bisturis tão brilhantes e cheios de curiosidade. Mas, ali, era diferente. Havia ainda o sangue quente, aquele resquício do que era antes. A compreensão do processo.

Entendam que o difícil nunca foi a morte em si. A morte se define pela parada cardíaca, a linha reta no traçado, essa situação binária de sim e não. Difícil era lidar com os mecanismos. De repente, você sai de um primeiro ano de exaltação à perfeição do ser humano e das engrenagens milimetricamente planejadas para entender como seu corpo, lentamente, subverte a ordem e entra em disfunção. E nada existe de fatalismo: é um processo lógico, interessante e inexorável.

Você aprende que existem baços do tamanho de pratos, ovários com dentes, tuberculose em lugares nunca dantes imaginados, cérebros dissolvidos, corações arrebentados. Carótidas entupidas daquela mesma coisa que comemos diariamente. Múltiplos nódulos negros nos pulmões destas coisas que respiramos todos os dias. Vê, in loco, como um punhado de células se revoltam contra o sistema e põe toda a simbiose cancerosamente em perigo.

Naqueles dias tão quentes, fomos colocados em nosso devido lugar, convidados a encarar nossa própria impotência. Eu só tinha 18 anos e descobri que se morria. E que se morre todos os dias, pela interleucina errada que o neutrófilo produz, pela mutação estratégica que aquela célula resolve fazer, por tudo que carregamos silenciosamente sem saber. Pode ser agora, pode ser sua mãe. Pode ser seu filho ainda no útero. Pode ser você.

Só é preciso que uma pequena fagulha se acenda para desencadear todo processo. Eu só tinha 18 anos quando descobri que éramos intrinsicamente frágeis e desadaptados. Que não existe regeneração: só cicatrizamos, para as carregamos eternamente. E por mais que essa natureza finita e aleatória fosse injusta, nada poderíamos fazer contra isso. Aquele pedaço no microscópio também estava na gente. O que acontecia ali também estava acontecendo por aqui.

Éramos jovens e brilhantes. Éramos inocentes e tínhamos sonhos doces. Depois daqueles dias da Patologia, fui entendendo que nossa missão era diferente do que imaginávamos e convidados a carregar um peso que só quem está do nosso lado pode entender. Naquela primeira necrópsia, Maria Anita caiu desfalecida ao chão, de súbito. No primeiro parto que vi, fui eu quem beijou o chão e precisou de socorro.

Éramos frágeis e despreparados...

PS - Maria Anita, na época, escreveu dois textos (11/12, 21/12) que refletem claramente o que foram aqueles dias para nós. Também havia escrito bastante sobre estes dias, mas por problemas técnicos tudo que escrevi em 2003 se perdeu...

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