terça-feira, abril 14, 2009

Shortcuts

Lembrei-me de Vanilla Sky, aquela cena em que o Tom Cruise sai da balada bêbado, depois de uma noite desastrosa. Penelope Cruz vai embora, sem muitas explicações. Ele percebe que seu mundo deu muitas voltas e ele ficou para trás. Ele dorme na sarjeta. Pela manhã, é acordado com Penelope Cruz, toda doce, murmurando: "Open your eyes"...

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Encantei-me por você quando vi sua foto de criança: sorriso ordinário e os cabelos cor de trigo. Nunca vi um trigal na vida, é fato: mas era dessa cor exata que imaginava que seria. Se te desse um cachecol vermelho, viraria o Pequeno Príncipe. É, isso mesmo, seria o Pequeno Príncipe... Já te disseram isto?

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Era noite de retorno. Era noite de reencontro. Principalmente, era noite sem expectativas. Mas vem cá: ninguém me avisou que Absolut faria este estrago. Tomei pura, em goles pequenos, só uns dois cubos de gelo encimando o copo. E nada destas coisas de porres desenfreados e absurdos, a coisa foi acontecendo por si só. Quando vi, já estava lá: garrafa assustadoramente vazia, maço de cigarro no bolso sem saber como comprei, passos sem rumo sem saber onde ia dar. Alias, até sabia. Mas, vá lá: o juízo ficou lá longe, em casa.

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Tenho lapsos. Umas três horas aconteceram sem muito controle. De resto, um pouco de controle. Imprevisibilidades: vou parar no seu colo, lembro como?, dizemos coisas tipo verão de '87, sessão da tarde. Descubro que você é de Touro, nascido em algum lugar da manhã, algum lugar de Sampa. Mostro o meu dedo em martelo, divido umas coisas idiotas. Passam-se horas até descobrir a leveza dos seus dedos. Quando levanto, o mundo roda. Já disseram que a vertigem da queda é o melhor sentimento que existe?

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Subo a Augusta enquanto amanhece e me lembro que é outono. Percebo pela luz, que incide obliquamente deixando tudo um tanto melancólico, outro tanto naquela beleza fria da garoa que insiste em soprar na cara. Dois pra lá, dois pra cá, fico um pouco para trás. E me assusto em perceber como seu cabelo reflete a luz: dourado, tão dourado. Fecho os olhos, me iludo. Lembro de "Sob o Sol de Toscana" e os campos imensos de girassol. Lembro dos trigais, a perder de vista. Você me abraça, quase caio, digo que isso é tão difícil de acontecer. Não digo o quê, com medo de parecer patético. Mais patético, diria.

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E tenho medo de parecer patético, desço para praia. Canto Los Hermanos pra afastar os fantasmas: "tanto clichê, deve não ser". Só que até-quem-me-vê-lendo-o-jornal-na-fila-do-pão-sabe-que-eu-te-encontrei e concluo, apesar do risco da ilusão iminente: é bom voltar. É bom reaprender a medida do encanto. Mesmo sabendo que, de encantamentos, o inferno (e também o céu) estão cheios.

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Agora, até parece que as coisas vão ficar mais fáceis. Suspiro aquele trecho tão perigoso do Pequeno Príncipe, que não admiti na época com medo de parecer fraco:

"- É aqui. Deixa-me dar um passo sozinho. E sentou-se, porque tinha medo"

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Não me pertence. Não é mais real. Open your eyes.

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