terça-feira, abril 28, 2009

Campos do Jordão

Canso-me do ócio, depois de rodar sem rumo por, seriam horas? Pego o carro, toca Nara em versões incrivelmente doces. O termômetro bate treze graus e caindo. Tomo rumo do hotel, para organizar o sem-planos de mais a noite. Estou cansado - dormi mal, aquele sono entrecortado de vários despertares - apesar do aquecedor, do edredon e da cama compartilhada. Sonhei com você, aliás, sonhei com milhares de coisas, também com você. Vou seguindo as alamedas de árvores amareladas, paralela à linha do trem. Nara canta Chico: "Levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos, o meu coração...".

Guardo o carro, entro no Hostel. Quatro beliches, sem aquecedor, lá no fundo buzinam numa alegria duvidosa: Corinthians venceu. Começo a ler aquele livro que hermanita me deu, até quando cita Copacabana e, caralho, não quero lembrar do Rio, não quero pensar em você. Resolvo dormir um pouco, sem banho, sem tirar o jeans, o crachá, nada.

Celular toca, desperto. Não preguei os olhos nem por cinco minutos. Não é convite prum porre, pruma suruba, nem velhos amigos contando novidades, nem velhos amores reclamando ausências. Nada digno de nota. Levanto, abro a janela. Lembro-me de um dia há muito tempo, na faculdade, quando tínhamos uma aula idiota de Biofísica e, tão desconhecidos, disse para garota ao lado: "Sabe, quando vejo essas árvores perdendo as folhas me dá uma melancolia". Foi assim que fiz uma das minhas melhores amigas. Queria ter contado isso para você. Tô melancólico, tô sem destino.

Levanto, me troco. Essa cidade me lembra você. Fecho os olhos num cenário imaginário: te trouxe comigo e, por isso, estamos naquela pousada com aquecedor. Chego do congresso cansado, mas com o coração a mil por hora das coisas que eu vi. Ando, profissionalmente, tão feliz sabe? Tomo um banho quente e demorado, lá fora batem nove graus. Visto minha jaqueta um pouco maior que o dono, você observa isso com uma ponta de sarcasmo. Ajeita meu cachecol numa atenção preocupada, desbagunça meu cabelo com dois sopros. Não me incomodo, as coisas que prendem minha atenção são outras. Saímos.

Ganhamos a rua coalhada de restaurantes, deixo você escolher. Falo do meu dia: meu chefe, agora presidente da associação, quer que eu organize um evento. Você pergunta: "como você vai dar conta?". "Não sei", tomando um gole de conhaque enquanto a comida não chega. Você me observa agora preocupado. "Ando trabalhando demais, eu sei. Mas vai dar tudo certo".

Celular toca, é Mateus chamando para qualquer coisa em Sampa. Digo que estou em Campos do Jordão, num congresso. "Com quem?". "Sozinho, mas a gente se arranja". Ele ri, eu rio. Desejo boa noite, os dedos doem um pouco. Estou no centro, a cidade está quase deserta. Custo a arrumar um lugar pra comprar uma cerveja (Baden Baden, me permitindo certos luxos), um maço de cigarros. Volto aos meus devaneios:

vou te falar dessa luz absurdamente linda de outono, desses dias gélidos e tão iluminados. Vou te dizendo coisas sem peso, planos vagos que vou te encaixando. Tem que ver o apê quando chegar em Sampa, vai comigo? Quero escolher nossa cama. Quero montar nosso lar. Quero dividir minha solidão atarantada segurando sua mão que é só aparentemente firme. Queria você.

E a bolha estoura.

A noite vai caindo, tão silenciosamente encoberta por uma neblina densa. Sete graus, diz o relógio. Os passos me levam até aquela linha do trem. Acendo um cigarro, pra ter algo pra preencher os dedos. As folhas secas estalam meus pés. Você não me amava, você não me amou. Tudo que tenho são este bocado de ilusões doloridas, que vou apertando em minhas mãos inábeis até que os dedos doam: esse frio, a ausência daquele magnetismo bom que sentia. Tão escuro que só vejo a brasa do cigarro que vagamente ilumina os trilhos, as árvores.

Vou-me deixando, esperando na linha do trem, sabe o que? Pera, lembro doutra viagem, doutra história dolorida que demorou para se esvair. De Fortaleza, escrevi a carta mais linda e desesperançosa que consegui. No meu trecho predileto, eu disse "doeu porque você deu conta de continuar a vida e eu permaneci uma ou duas estações depois do ponto em que nos separamos". E é mais ou menos por aí que estou.

Sozinho, esperando na linha do trem. Tá frio, já é tarde demais pra qualquer outra coisa. A estação é melancolicamente linda, mas não é disso que preciso. Não quero mais belezas, idílios, vivências romantizadas. Quero as dificuldades da vida real. Estou cansado das minhas ilusões, de me apegar a estas fagulhas enquanto a vida toda estoura lá fora. Que esse trem passe e me pegue, ou que ele me atropele e a coisa termine por aí. Grito qualquer coisa sem sentido, só para quebrar esse silêncio ensurdecedor.

Apago o cigarro, a cerveja acabou. Faço o que agora?

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