terça-feira, março 17, 2009

Sobre os dragões

(para ser lido no clima de "Os dragões não conhecem o Paraíso", de Caio F.)

Eu tinha um dragão que morava comigo. E às vezes, nestas noites de não-ação e tédio, sempre penso que poderia estar na janela enquanto fumo, vendo a fumaça que vagarosa sairia após aquela tragada funda, pensando. Sabe, nestas coisas? O fato que só fumo quando muito triste, muito bêbado, muito gauche. Hoje até estou centrado. Ando até centrado na sua ausência. É verdade.


E quando, nestas noites, penso que pensando em você lembrava do cacto de Bandeira: "lindo, áspero e intratável". Estar com você era difícil. Sempre lembro das agressividades gratuitas, dos defeitos da minha cabeça aos pés, de engolir fundo o orgulho para continuar prosseguindo. De como você conseguia ser tão dragão-monstro, labaredas queimando as paredes, tão focado nas minhas incertezas, inconstâncias.


Só permanecia por conta de madrinha, de padrinho. Clarice veio numa noite destas, um trecho há muito esquecido de uma crônica linda: "Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil". Desta forma, tentei acariciar sua natureza de dragão-cacto com dedos suaves, assoprando quando me feria quase intencionalmente. De Caio ficou a capacidade de me iludir, reinventar-me com pouco, fazer dos seus momentos de dragão pacífico um idílio, canções otimistas, coisas assim.


Sempre quis que nosso amor fosse fácil, retrato daquela bossa nova mais tolinha. Daquelas coisas que queimassem com vagar e paciência. Lembro-me que, apesar dos pesares, gostava da cumplicidade da novela de terça-feira, a fila do pão. Do telefone que tocava às dez da manhã, para assuntarmos banalidades. Das mãos tão juntas num dia tépido, subindo a Augusta. Do ônibus que até hoje permanece a venda, na esquina aqui de casa.


Queria que você gostasse de mim por mim. Caótico, distraído, perigosamente despreocupado. Meio despenteado, tão preocupado com coisas vagas. Queria que você também se encantasse com minhas imperfeições, os trejeitos que nem vejo, meus vícios e virtudes. Queria te trazer para meu mundo um pouco mais abstrato. Ensinar a andar um pouco mais devagar, que a estrada vai além do que se vê.

Também queria sempre encontrar as flores em cima da mesa, aquele inesperado barulho da panela de pressão na minha casa tão estéril de comidas não-fast-food. Daquele sexo sem palavras depois dos nossos desentendimentos. Até dos seus momentos dragão, sacudindo meu mundo e me obrigando a ser um pouco melhor.

Sinto sua falta, principalmente nestas noites que principiam frias e me castigam com rinites e obstruções nasais. E tenho quase certeza que as coisas evoluiram para nós num passo irreversível. Mas, nestas mesmas noites enquanto fumo, até me dou ao direito da ilusão: um happy-ending imaginário tipo casamento nos trópicos, talvez? Daí eu sonho, sofro, raramente choro e finjo que nada acontece. Prometo não escrever mais, ligar pelo menos tenho cumprido. Tenho suas coisas dentro duma caixa, ainda sem coragem de botar pra fora na próxima enchente que acontecer.

Procuro por aí, esperando que a magia se repita. Nada acontece. Suspiro e recomeço.

PS - caros leitores, só para reforçar: este texto não é de Caio Fernando Abreu e sim de minha própria autoria. Grato.

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