terça-feira, março 24, 2009

Outonando

Acabou o verão. Do sétimo andar, nestes dias insistentemente longos e difíceis, vejo os dias anoitecerem mais cedo. Falta energia para quase tudo neste mar de fatalidades que me encontro: as mortes inesperadas, as mortes inexoráveis. É tanta realidade que cansa, tanta maturidade forçada sem brecha para estourar. Ganho contas e quilos, perco as horas sagradas do cinema e várias ilusões rasas. Tenho bebido pouco. Tenho vivido menos.

terça-feira, março 17, 2009

Sobre os dragões

(para ser lido no clima de "Os dragões não conhecem o Paraíso", de Caio F.)

Eu tinha um dragão que morava comigo. E às vezes, nestas noites de não-ação e tédio, sempre penso que poderia estar na janela enquanto fumo, vendo a fumaça que vagarosa sairia após aquela tragada funda, pensando. Sabe, nestas coisas? O fato que só fumo quando muito triste, muito bêbado, muito gauche. Hoje até estou centrado. Ando até centrado na sua ausência. É verdade.


E quando, nestas noites, penso que pensando em você lembrava do cacto de Bandeira: "lindo, áspero e intratável". Estar com você era difícil. Sempre lembro das agressividades gratuitas, dos defeitos da minha cabeça aos pés, de engolir fundo o orgulho para continuar prosseguindo. De como você conseguia ser tão dragão-monstro, labaredas queimando as paredes, tão focado nas minhas incertezas, inconstâncias.


Só permanecia por conta de madrinha, de padrinho. Clarice veio numa noite destas, um trecho há muito esquecido de uma crônica linda: "Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil". Desta forma, tentei acariciar sua natureza de dragão-cacto com dedos suaves, assoprando quando me feria quase intencionalmente. De Caio ficou a capacidade de me iludir, reinventar-me com pouco, fazer dos seus momentos de dragão pacífico um idílio, canções otimistas, coisas assim.


Sempre quis que nosso amor fosse fácil, retrato daquela bossa nova mais tolinha. Daquelas coisas que queimassem com vagar e paciência. Lembro-me que, apesar dos pesares, gostava da cumplicidade da novela de terça-feira, a fila do pão. Do telefone que tocava às dez da manhã, para assuntarmos banalidades. Das mãos tão juntas num dia tépido, subindo a Augusta. Do ônibus que até hoje permanece a venda, na esquina aqui de casa.


Queria que você gostasse de mim por mim. Caótico, distraído, perigosamente despreocupado. Meio despenteado, tão preocupado com coisas vagas. Queria que você também se encantasse com minhas imperfeições, os trejeitos que nem vejo, meus vícios e virtudes. Queria te trazer para meu mundo um pouco mais abstrato. Ensinar a andar um pouco mais devagar, que a estrada vai além do que se vê.

Também queria sempre encontrar as flores em cima da mesa, aquele inesperado barulho da panela de pressão na minha casa tão estéril de comidas não-fast-food. Daquele sexo sem palavras depois dos nossos desentendimentos. Até dos seus momentos dragão, sacudindo meu mundo e me obrigando a ser um pouco melhor.

Sinto sua falta, principalmente nestas noites que principiam frias e me castigam com rinites e obstruções nasais. E tenho quase certeza que as coisas evoluiram para nós num passo irreversível. Mas, nestas mesmas noites enquanto fumo, até me dou ao direito da ilusão: um happy-ending imaginário tipo casamento nos trópicos, talvez? Daí eu sonho, sofro, raramente choro e finjo que nada acontece. Prometo não escrever mais, ligar pelo menos tenho cumprido. Tenho suas coisas dentro duma caixa, ainda sem coragem de botar pra fora na próxima enchente que acontecer.

Procuro por aí, esperando que a magia se repita. Nada acontece. Suspiro e recomeço.

PS - caros leitores, só para reforçar: este texto não é de Caio Fernando Abreu e sim de minha própria autoria. Grato.

domingo, março 15, 2009

Um trecho roubado

"Deixo tudo de lado. Faço listas, mas sempre pulo as partes dificeis. Sempre foi assim"
(by Rafael Roncato)

Né?

segunda-feira, março 09, 2009

Summer love

Tenho uma grande amiga carioca que, ao voltar de um mês entre o "iluminado" Rio de Janeiro e as praias de Cartagena, na Colômbia, voltou com o conceito de Summer Love. Nada de novo do velho amor de praia, mas o conceito que é legal.

O Summer Love, obrigatoriamente, tem que ser leve e despreocupado. Cores vibrantes, auto-suficiente. Confortável como um fim de tarde, quando bate aquela brisa do mar. Pode até ter um componente diurno, mas deve mostrar seu brilho máximo durante a noite, principalmente naquelas noites de lua cheia que nos botam tristes igual o diabo.

Não existem cobranças, não existem futuros. Não existe "sabe-eu-tive-um-grande-amor-que-me-feriu-pra-sempre-óh-deus". Só sobra o raso presente, as coisas palpáveis. As coisas leves que ficam ali, boiando, para o único trabalho de pegá-las sem compromisso.

Summer love até pode ser banal - e se não for, já é lucro. Lógico que se pode discutir a recepção aristotélica de Santo Agostinho madrugada adentro, mas não é isso que importa. Da mesma forma, pode-se perder horas em importâncias, tipo astrologia, vegans, porres históricos. É preciso só o magnetismo do encanto, do encontro casual das epidermes que se complementam. As linhas que o mantém, não importando qual sejam, é que se devem ser mantidas.

Nada do formalismo do whiskey, da insipidez da vodka. É o Mojito que melhor representa o Summer Love. De se tomar numa golada, seja na praia, no bar chique, no conforto do sofá-cama num filme a dois. Ah, Summer Love combina com casualidade - e não entenda isso como sinônimo de libertinagem. Quando digo casualidade, nada do blasé das baladas da Vila Olímpia ou qualquer coisa coisa que se venda por um preço muito mais alto do que o real - quero dizer: acompanhe o pé-sujo da Augusta, um passeio no cemitério da Consolação, a absoluta falta do que fazer duma terça a noite.

E se o Summer Love não liga, nada de telefones escorrendo pelos dedos, a espera pela mensagem que não vem. Toma-se o banho, ganha-se a rua com aquele mesmo sorriso do algo acontecendo. O Summer Love tem uma capacidade imensa do esbarro, surgir inesperado ali na esquina. Existe esse componente caótico, pronto para iniciar essas montanhas-russas dos amores que abalam estruturas e nos deixam, ao amanhecer, na fila do pão, com o sorriso mais besta...

E Summer Love são finitos. Pontuais. Lógico que há a chance do Summer Love atravessar a estação e integrar a coleção outono-inverno. Mas nunca, nunca espere isso. Pois seu encanto está exatamente aí: na urgência. Nunca se sabe quando, ao virar da esquina, se o Summer Love teria perdido a sincronia do acaso...

segunda-feira, março 02, 2009

Dois meses

Não vou dizer que, nestes dias, sua ausência seja uma constância. Mas, veja bem meu bem, também não vou dizer que os dias passam em brancas nuvens, sem alguns desassossegos. Tenho percebido que sinto sua falta nas banalidades.

Por exemplo: semana passada fui ao mercado, coisa que odeio. E só consegui ir após um exercício imenso de procrastinação e a geladeira desértica. Pois bem, fui, listinha bem ordinária nas mãos. Coisas assim, bem adultas: alvejante, sabão em pó, etc. Daí que senti sua falta. Lembrei-me da sua alegria em ir em supermercados, indo de prateleira em prateleira, fuçando nos produtos. Sempre que estávamos lá juntos, de repente te perdia pra te encontrar no meio dos azeites mediterrâneos. èramos tão diferentes: sempre tive hiperfoco, ficar preso a listinha de compras, não conseguir prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo.

Era você quem mostrava a prateleira do lado, as novidades que não conhecia - e nem tinha lá muita curiosidade de conhecer. Fazer compras era de uma banalidade feliz - lembro que, ao guardar as compras no porta-malas, sorria meio besta sem saber porque.

Hoje sei. Dói, tá, é isso.

E ainda sou preso a minha listinha ordinária, tenho hiperfoco, tenho necessidade do outro para desencadear mudanças. Diria Coldplay, nas minhas favoritas: we never change, do we?