sábado, fevereiro 28, 2009

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Avenida Goiás, São Caetano - O telefone toca, é você. Tão inesperado quanto uma flor de ipê nestes dias cáusticos. "Estou em São Paulo, queria te ver". Eu respondo: "Também quero", com coração aos pulos. Quase ano sem te ver; você tão longe, além do Trópico de Capricórnio. E, sob o signo do desamor que rege estes dias confusos, sempre necessário rever quem me proporciou momentos iluminados, mesmo que sejam típicos "Before Sunset", one-night stands. Não tive dúvida: cheguei em casa e tirei a barba num estalo, só porque sabia que você gostava...

Rua Matias Aires - O cinema não seria com você, mas o encontro estava marcado para mais a noite. Desço a rua, a tarde está tépida, arrebentando em otimismo. Ligo pra mi hermanita meio bruxa para perguntar onde está a Lua. Ela me diz: "A Lua favorece o fortalecimento dos laços, uma Lua apaixonada". Era perfeita para o dia, para a noite. Sorrio, quebrando para Augusta. Como diria aquela música: "Mistério sempre há de pintar por aí"...

Espaço Unibanco Augusta - Só havia chorado em dois filmes: "
Dois Dias em Paris", com Julie Delpy falando de toda dor que é terminar um relacionamento. A segunda, ao ver "Na Natureza Selvagem", percebendo a morte de uma ilusão doce e que nem toda jornada de auto-conhecimento é redentora. Milk foi o terceiro. No final, uma cena linda: uma procissão de velas. Milk é um filme lindo: fala da necessidade da luta, do sacrifício. De abrir mão por algo maior, coisa tão difícil nestes nossos dias yuppies. De que é preciso paixão sim, mas é preciso consciência, é preciso perseverança, é preciso ter fibra e é preciso acreditar. E que existem as pessoas cruéis, o preconceito, a intolerância. Mas é preciso continuar. Mais que nunca, é preciso cantar. Mesmo sem saber como, sem planfletagem ou fora do "mainstream" da política. Nas pequenas coisas: em quem votamos, como nos portamos em casa, nos nossos ambientes de trabalho. Em algo além do hedonismo puro, do Carnaval.

Rua Fernando de Albuquerque - Havíamos combinado que nos encontraríamos após o jantar. E o meu jantar foi todo pensando em você, mas isso não importa. Ali, naquele bistrô, havia um espelho antigo na minha frente. Por puro narcisismo (sem culpa, que fique claro), deixei-me ficar olhando pra mim, assim, enquanto a comida não chegava. Eu estava ali, cabelo habitualmente desgrenhado, barba feita, até um pouco iluminado. Talvez olheiras grandes, mas justificáveis por toda escravidão branca que me proponho - e sei que só você entenderia o significado delas. Estava bonito sim. E era bom se sentir bonito, brilhante de novo - mesmo que seja pelos motivos errados. Sorri.

Rua Haddock Lobo - Pra te encontrar ali, na esquina. E quando me viu, ali do outro lado, se derramar num sorriso sincero. Você estava de cara limpa, mas sem esforço me lembrei de imediato da sua barba meio ruiva, que quase cintila nas primeiras horas da manhã. Abraçamo-nos com vagar e paciência.

Hotel Unique (1) - Sampa estava linda, se esparramando aos nossos pés. Meio nublado, é verdade, escondendo as estrelas. O chopp Stella Artois estava no ponto. É engraçado quando começamos a dividir nossas coisas e percebo que, às vezes, fui eu quem passou por este ponto e você está atrás. Às vezes, é você quem me aconselha, me explica o que irá acontecer. O tempo escorre perigosamente. Penso que gosto tanto de você mesmo sem te conhecer, impressões que vou tirando destes nossos encontros sempre telegráficos. Talvez o encanto seja esse.

(2) "Pois eu vou te contar minha epifania carioca... Conhece 'Carta ao Tom 74', né?"



"Lógico que conheço. Sou um dos maiores fãs da bossa nova"


"Pois bem, eu descia a rua Vinícius de Morais..."


Daí me lembrei que, na parede da sua casa, havia uma imensa frase de Vinícius...

(3) "Sabe, a noite está ótima. Eu fico até sem graça de pedir para ir embora, mas é que amanhã acordo cedo e não dormi direito esta semana inteira"

Você me fita com olhos doces e me diz: "Guarde suas desculpas para quem não entende o que é a sua vida"

(4) "Seu cabelo continua lindo, Rob Thomas. Seu cabelo continua o mesmo."

Rua Capote Valente - Não, nada aconteceu. Nada aconteceria. A noite terminaria ali: outro abraço longo, agradecimentos pela noite agradável, promessas vagas de nos vermos em breve. Você voltaria para seu além-quinhentos-quilômetros e a sorte de um amor tranquilo. Eu permaneceria por aqui, na balada da solidão atordoada. Não quero me enganar. Não quero mais me enganar. Quero algo real, palpável. Queria você numa quinta chuvosa, vendo Big Brother enquanto a pizza não chega. Queria dividir os dias e as madrugadas. O que não quero é deixar meu coração à mercê do telefone que não toca, do retrato imperfeito que criei de você. Não quero ser refém destas ausências, destas projeções, da minha necessidade crônica de me iludir.

E mesmo assim, apesar dos pesares, te reencontrar é insuportavelmente lindo. Me faz melhor, mais inteiro. Sinto como se fosse uma preparação, um post-it amarelo com um recado profético: dias melhores virão. É bom fazer a diferença para alguém após tanto tempo, mesmo que não seja do jeito que gostaria. São as pequenas epifanias, a la Caio F.: "Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo"

Vejo você entrar no prédio, de coração sangrando. Dói - e insisto na idéia para ela ser cada vez mais real - mas é lindo.

Epílogo - "Tá chegando o aniversário hein???? tava pensando em vc hoje :) Bjos, te ligo amanha"

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