terça-feira, fevereiro 10, 2009

As cinzas das horas

E o que fica desta inesperada noite ébria de segunda, ali quase terminando o maço de cigarro que trouxe só por complacência a uma pobre fumante inveterada, entre os restos da comida chinesa, de um edredon encharcado pela cerveja que displicentemente derramei: é que tudo isto que canto, é que toda beleza que vejo nos outros: é minha.

Ao reler coisa ou outra daqui, ao recontar as velhas histórias mornas tão carregadas de significado, ao escutar as bossas antigas, os britpops já passados... É tudo meu. Perdemos tanto tempo procurando por aí aquele brilho raro que víamos no outro, como se nos fosse tão essencial. Como se nunca fosse acontecer novamente. Esquecemos que o outro é espelho. Esquecemos que tudo ali também é nosso, é nossa ilusão que plantamos no vizinho pra ver crescer.

Só é preciso paciência para ver. E quando resgato aquele reveillon que atravessei o Trópico de Capricórnio, aquela vez tão próxima ao Equador, aquela noite tão fria de Franca, aquele sábado em que descemos a Augusta, um buquê de rosas roubado, aqueles camarões que tão convidativos não pude resistir - me sinto bem. Mesmo que seja dentro destas boemias sem razão de ser, mesmo que seja pra descambar na melancolia do último cigarro antes de dormir.

Dá pra se sentir brilhante, acomodado dentro de uma energia boa.

E mesmo ali, cercado pelas cinzas, dá pra sentir esperança, seja lá por onde ela nos levará.

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