segunda-feira, janeiro 19, 2009

Carta

"Às vezes eu sinto o amor acontecendo.
Toda forma de amor salva.
Haja"

(Maria Fernanda, mi hermanita, 19/1/9 05:30)

Queria cantar. Queria escrever a carta mais linda para você, para destilar a nossas dores sofisticadas, nesta insistência em cutucar estas feridas rasas. Não consigo, ando pouco criativo, desculpe.

Ontem eu não dormi. Passei conversando amenidades com velhos amigos, tomando cerveja despreocupadamente. Também revi o vídeo da minha formatura e me reencontrei de rosto imberbe, dentes chiando e uma segurança otimista que há muito não me reconhecia. Foi bom.

Não quero comparar sua dor com a minha. Não é justo, não é real. Às vezes acho que sofro pelo simples fato de ter sido recusado: eu, que nunca soube perder e tão raramente não consegui o que quis. Às vezes acho que estou sentindo todo peso de um ano passado difícil, que não quis digerir enquanto me distraía com mundanidades. Estou revendo conceitos, procurando razões, rascunhando justificativas. Tudo inútil, eu sei. Lá no fundo, eu sei.

Não quero acreditar. Não quero admitir o fato de que você pode tentar ser o seu melhor e não conseguir. Que os sonhos podem chegar um beco sem saída e acabarem. Que num estalar de dedos, troca-se uma aliança de compromisso por palavras ácidas na Lagoa Rodrigo de Freitas. Eu, que queria tanto permanecer dentro da atmosfera magnética do bem querer, também errei tanto. Cedi ao ciúme, à carência, às minhas limitações. Cobrei um amor incondicional que nem meus pais tem me oferecido. Perdi a ternura, as irresponsabilidades estratégicas, aquilo que me tornava doce. Falhei.

E nestes últimos dias tantos, só tenho pensado no meu fracasso. Na minha inabilidade. Em como faço as escolhas erradas, meto os pés pelas mãos e o amor se revela sempre como ferramenta de desencontros.

Volto logo. Tenho adiado o retorno para permanecer ainda um pouco por aqui, num mundo familiar e terno. Sei que Sampa sabe mostrar sua cara de solidão medonha e ritmo frenético. Porque sei quanto vai doer encontrá-lo ali, sob a luz vacilante duma quinta-feira, sabendo que a vida por ali já se encontra na terceira marcha.

Por aqui, vamos aos tropeços. Com vagar e silêncio. Entre tentativas frustradas, nostalgias dolorosas e um bocado de boas intenções sem porto pra escoar.

E se o amor acontece, mesmo que nas frestas, não quero ver. Não ainda. Não ainda...

Te beijo,

Gb's

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