segunda-feira, janeiro 26, 2009

São Paulo: I love you, but you're bringing me down...

"New York, I Love You
But you're bringing me down"

Quase um ano, não? Aliás, modifico: quase um ano de paixão consumada. Pois antes eu vivia de platonismos por você. Lembro de um distante 2000, num jardim imenso de flores amarelas pela Bienal, as peças vistas de atropelo pelo teatro Abril, de se perder nos trens da CPTM após um show. Lembro de uma fuga tão estratégica até Congonhas em 2007, num dos melhores feriados prolongados de minha vida. Lembro das promessas, das idealizações, de andar numa Paulista com nariz congelando repleto de ilusões & esperanças.

"Like a rat in a cage
Pulling minimum wage"

E ler a definição de Sampa no NY Times como "the ugliest, most dangerous city you'll ever love". E era verdade. Fui me apaixonar por Sampa quando tomei aquele chopp na Ipiranga com a avenida São João, quando escutei Fernanda Takai cantando Nara Leão debaixo do Copam, refazendo todos os caminhos que Caio Fernando Abreu desenhou em seus contos, crônicas, romances. Fui me deixando encantar por essa beleza escondida, pouco óbvia, do verde que resiste em meio a tanto concreto. Na vida que palpita incessante a toda hora, a todo local - num mar de possibilidades.

"New York, you're perfect
Don't please don't change a thing"

Poderia ter ficado no interior e até ter sido feliz, creio eu. Poderia ter escolhido uma vida tranquila, um pouco mais barata, menos distante, infinitamente mais familiar. Onde meu sotaque não causasse estranheza, os aluguéis fossem indecentemente mais baratos. Mas, não pude, não consegui. Você me encantou. Fez-me sentir como sempre houvesse pertencido a este caos, esta loucura. Daí, eu vim.

"New York, I Love You
But you're freaking me out
Like a death in the hall
That you hear through your wall"

Você me pôs de joelhos, elevou-me ao céu. Colocou-me entre iguais, mostrando todo um universo que não cogitava existir. Tirou meu fôlego na vastidão da Livraria Cultura, os filmes bons que sempre estão no cinema, no Guia sempre repleto de boas opções. Mostrou-me que o amor existe, seja na confusão das luzes vacilantes da noites ébrias ou nos sábados preguiçosos regados com chorinho.

"Like a death of the heart
Jesus, where do I start?"

E também, como ninguém, sabe ser fria. Botando todos num ritmo frenético e impaciente. Deixando-me sem teto por mais de dois meses, de bolhas nos pés de tanto andar diariamente atrás de lar. Frustrando-me com suas milhares de opções - caras, inacessíveis, longínquas. Fazendo-me perder tantas horas produtivas preso em seus congestionamentos. Obrigando-me a deixar para trás todo um universo aconchegante, a seis horas de distância e me por num exercício constante de reinvenção solitária.

"But you're still the one pool
Where I'd happily drown"

São Paulo, eu te amo: mas você tem me deprimido. Nestes dias cinzentos e chuvosos, meio sci-fiction, quase inverno nuclear. Quando vagueio por sites de bancos padecendo da ilusão da casa própria, do emprego decente que não sei se virá, na necessidade de prosseguir tirando afeto do estômago pra: sei lá. Sei lá.

Celebremos nosso primeiro ano, nessa melancolia tão irmã deste seu pobre apaixonado.

"Maybe mother told you true
And they're always be something there for you
And you'll never be alone"
(New York I love you but you're bringing me down - LCD Soundsystem)

Celebremos, lembrando as palavras de Caio, que tanto cantou sua beleza paradoxal: "Nuvens negras. Insistimos. Sobrevivemos".

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Carta

"Às vezes eu sinto o amor acontecendo.
Toda forma de amor salva.
Haja"

(Maria Fernanda, mi hermanita, 19/1/9 05:30)

Queria cantar. Queria escrever a carta mais linda para você, para destilar a nossas dores sofisticadas, nesta insistência em cutucar estas feridas rasas. Não consigo, ando pouco criativo, desculpe.

Ontem eu não dormi. Passei conversando amenidades com velhos amigos, tomando cerveja despreocupadamente. Também revi o vídeo da minha formatura e me reencontrei de rosto imberbe, dentes chiando e uma segurança otimista que há muito não me reconhecia. Foi bom.

Não quero comparar sua dor com a minha. Não é justo, não é real. Às vezes acho que sofro pelo simples fato de ter sido recusado: eu, que nunca soube perder e tão raramente não consegui o que quis. Às vezes acho que estou sentindo todo peso de um ano passado difícil, que não quis digerir enquanto me distraía com mundanidades. Estou revendo conceitos, procurando razões, rascunhando justificativas. Tudo inútil, eu sei. Lá no fundo, eu sei.

Não quero acreditar. Não quero admitir o fato de que você pode tentar ser o seu melhor e não conseguir. Que os sonhos podem chegar um beco sem saída e acabarem. Que num estalar de dedos, troca-se uma aliança de compromisso por palavras ácidas na Lagoa Rodrigo de Freitas. Eu, que queria tanto permanecer dentro da atmosfera magnética do bem querer, também errei tanto. Cedi ao ciúme, à carência, às minhas limitações. Cobrei um amor incondicional que nem meus pais tem me oferecido. Perdi a ternura, as irresponsabilidades estratégicas, aquilo que me tornava doce. Falhei.

E nestes últimos dias tantos, só tenho pensado no meu fracasso. Na minha inabilidade. Em como faço as escolhas erradas, meto os pés pelas mãos e o amor se revela sempre como ferramenta de desencontros.

Volto logo. Tenho adiado o retorno para permanecer ainda um pouco por aqui, num mundo familiar e terno. Sei que Sampa sabe mostrar sua cara de solidão medonha e ritmo frenético. Porque sei quanto vai doer encontrá-lo ali, sob a luz vacilante duma quinta-feira, sabendo que a vida por ali já se encontra na terceira marcha.

Por aqui, vamos aos tropeços. Com vagar e silêncio. Entre tentativas frustradas, nostalgias dolorosas e um bocado de boas intenções sem porto pra escoar.

E se o amor acontece, mesmo que nas frestas, não quero ver. Não ainda. Não ainda...

Te beijo,

Gb's

segunda-feira, janeiro 12, 2009

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Passei os últimos dias escutando Chico numa insônia recorrente, atravessando noites tépidas iluminadas por esta lua arrebentando de cheia. A fome é pouca e os demônios ficam mordendo as canelas. Os dias escorrem rápidos numa ócio absurdamente improdutivo. Não há rotina, não há nada. Há vazios, pausas, silêncios.

Uma dúzia de planos que agora ficam sem onde ir.

Uma caixa sem ter onde colocar.

E ali ao fundo, Chico cadencia: "Eu nunca sonhei com você / Nunca fui ao cinema /Não gosto de samba /Não vou à Ipanema / Não gosto de chuva / Nem gosto de sol"

terça-feira, janeiro 06, 2009

Conselho

Você é a única que, apesar de todas as evidências em contrário, mandaria-me: esgote-se, esfole-se, deixe sangrar até a última gota. Porque somos feitos da mesma matéria, num pacto estabelecido há tantos anos atrás: num porre com vodka vagabunda, debaixo da pia, cantando Drummond e outras coisas vagas que não me recordo.

Você sabe que mesmo o amor mais sem esperanças é mais iluminado do que esses espaços vazios que se abrem dentro de nossos silêncios, nossos cotidianos insones, nossas condenações pregressas. Pensar no celular que escorrega pelos dedos pela ligação que custa a vir é melhor que enfrentar a finitude alheia, as limitações dos tratamentos sem sucesso. Lembrar de tanto Sol que havia ajuda a atravessar estes sábados de esforço inútil, estes tantos domingos acordando antes do próprio Sol nascer.

Você bem sabe que não preciso destas tolices. Sou forte, sou grande, de pés firmes ao chão e a alma pronta para felicidades e intempéries. Mas você sabe como fico bem quando estas coisas acontecem. E daí sussura nos meus ouvidos: vá, jogue, seja sempre intenso. Coloque as cartas mais tolas no correio. Reúna as lembranças numa caixa, embrulhe com laço de fita.

Pra não me arrepender pela falta, pela imobilidade. Por poupar energia.

Mandaria me fazer de cego, de surdo, esquecer todo mar que poderia se abrir. Vá, se estoure.

E nunca, nunca me esquecer da nossa imensa capacidade de cicatrização.

sábado, janeiro 03, 2009

Two days in Rio

Deixei o Rio num Santos Dumont absurdamente vazio, quase cenário de filme blockbuster de suspense. Ao atravessar o saguão vazio, até olhei para trás procurando os zumbis comedores de cérebro que deveriam estar escondidos atrás das colunas. Não havia. Sorri.

Mas daqueles sorrisos que custam a escapar do lábio. Agridoce, melancólico. Bittersweet.

Havia começado tão bem: quando desci do ônibus, segui pela rua Vinícius de Moraes, que coincidentemente achei de primeira. E seguindo pela rua, cheguei ao cruzamento da rua Nascimento Silva. Tremendo, andei três quadras até chegar ao número 107. Daí, chorei. Não me perguntem como, mas chorei. Liguei pra tanta gente querida pra contar que estive ali, compartilhando aquele mesmo espaço que Tom ensinava à Elizete as canções de amor demais.

E daí veio tudo abaixo. Tipo Marion, em "Two days in Paris"...