segunda-feira, dezembro 28, 2009

2009

Baby, baby,

Queria dizer que foi difícil, sabe? E que foi difícil bem longe das obviedades. Porque, no inquérito pequeno-burguês: trabalhei bastante e bem. Ninguém que eu amasse morreu tragicamente ou se perdeu no mundo. Segui firme nas metas, nos objetivos. Mas, me perguntaram: então o ano foi bom, ótimo, lindo, né? Daí hesito.

E é difícil explicar. Talvez porque eu precisasse de outras coisas: tão sedento pela ilusão do happy-ending, ridiculamente orgulhoso quando contrariado. Talvez porque quisesse mesmo era uma epifania, destas óbvias, brilhantes e simples.

O ano foi lindo, sim. Pelo que me proporcionou, de tanta gente boa que surgiu. Pelo exercício da superação, o desapego da carência, a racionalização dos movimentos e, às vezes, em aceitar que é assim mesmo, não tem remédio, deixa estar. Não é porque não se está onde queria que o movimento todo fica vão.

Tem anos que fecham assim, agridoces. Destes que, com um pouco mais de distanciamento, perceberei que, sim, foi fantástico e redentor. Mas, por enquanto, deixo-o com calma e sem histerias. Ando pé ante pé, silenciando a respiração e espero que o que vem, o que será, aí sim: arrebentará no carnaval dos mais doces...

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Uma outra estação, parte 4

Lá no alto, deu pânico. E não seria loucura demais essa história de malas afora em dois dias? E não seria demais ter tanta esperança em três mensagens trocadas madrugada adentro? Até rolou medinho, confesso. Mas lá do alto havia um mar tão lindo refletindo o fim do dia, havia um espírito aventureiro que me deu de súbito. Era outra estação, nada podia dar errado. Nada podia dar errado sob uma atmosfera de tanto bem-querer.

E não daria. Até o atraso, fruto de um trânsito ruim na Rio-Niterói, foi estratégico. Ninguém ali na rua perceberia a intensidade do nosso encontro: primeiro um sorriso lento, depois um abraço devagar e apertado, até quando a mão escapa e acaba na nuca num cafuné desfarçado. Bom que você veio, dissemos quase ao mesmo tempo. Noite já caia, tépida, pedindo rua, pedindo contemplação da Lua...

Foram dias de pouca grandiloquencia. E quando disso, não quero dizer que foram dias banais. Comportamos como se fôssemos velhos conhecidos, reconhecendo a cadência do discurso, adivinhando tiques banais. Naquela atmosfera, parecíamos nos bastar. Trocamos a agitação de uma sexta-feira cheia de possibilidades por saladinha no shopping Leblon, à meia luz. Trocamos um sábado em Ipanema por aniversário em São Gonçalo, entre carinhos de piscina e energia boa. E enquanto atravessávamos o Rio de lá para cá, conhecê-lo pela janela: aqui a Marina e ali o Pão de Açúcar, por aqui o Jardim de Alá e seguindo reto paramos na Gávea. Até perceber que o Rio fica lindo de longe, visto de Niterói ou de tão perto, por Copacabana ou pela Lapa.

Redescobrir o Rio foi isento, pasmem, de grandes dores. Pela Nascimento Silva só passei atravessando, bem longe do número cento e sete. Pela calçada do Leblon, na segurança de mãos tão leves, nem sobrou tempo para dores muito sofisticadas. Sem abismos, sem pregressos. Só ali, no raso e no simples. Qualquer bossa ao fundo, puro paraíso tropical.

E sem apegos. Hesitava, não queria mais estes amores de ponte aérea. Desde o primeiro segundo, ali no hall do Santos Dumont, exercia a difícil arte do desapego. O que não impediu, quando tão bêbados tropeçando pela sua casa, você me disse: ah, podia ser sempre assim, você poderia morar aqui para termos isso todo dia. Concordei, com o mesmo discurso. Talvez, se morasse no Rio seria um pouco mais bronzeado e até aprenderia a tomar banhos de mar. Talvez, se você morasse em Sampa, passearíamos sob a garoa gelada pela Paulista nestes dias nublados tão encantadores que só essa selva sabe oferecer. Mas não é, pisávamos no real. E ficou por isso.

Na última noite, voltamos. Deitamos. Dormimos, tão cansados de tanta coisa. Ali pela madrugada, tenho sono leve e acordei. Lá fora, caia uma chuva que descobri que no dia seguinte havia inundado ruas e derrubados barreiras. Aqui dentro, ar-condicionado em temperatura polar e corpos bem juntos para espantar o frio. Em simetria: suas mãos em minhas mãos, pernas entrelaçadas, meu queixo posto na nuca e aquele perfume vago de banho e sabonete. Era lindo este reconhecimento imediato do movimento, do espaço. Era de uma ternura encantadora.

Eu quis apanhar aquela ternura num gesto lento, exato. Segurar por entre os dedos, bem firme, como se não quisesse nunca mais, nunca mais largar.

domingo, dezembro 06, 2009

Uma outra estação, parte 3

Daí, voltei. Trabalhei uma semana, como se fosse a última. E vieram férias. Daí, eu fui de novo.

Fui para além do rio Grande. Fui para Minas, minha casa por tantos anos. Nada assim que fosse muito grandioso: primeiro, um casamento. Depois, ficar naquele embolamento sem motivo com tanta gente que gosto tanto. Noites tépidas de bebedeiras na praça, aventuras nos drive-thrus madrugada adentro, recolher todo carinho plantado por tanto tempo e ficou ali, vingando, à distância.

Quando ali pela terça-feira, celular toca. A mensagem é simples, também inesperada: sabe, estava pensando em você, deu saudade - coisas assim. Sorri. Era do Rio, destes amores telegráficos que acontecem e se mantem numa energia positiva. Respondo: ora veja, não diga essas coisas. Estou de férias e num estalo estou aí. A resposta, foi sucinta: então venha.

Daí, aquele atropelo: corre pra internet, vasculhando as passagens baratas. Ligo para os amigos pedindo benção, pedindo conselho do onde ir, onde ficar. Chego em Sampa, compro mala (daquelas pequenas, uma pessoa, viagem curta) e filtro solar e várias bermudas, também faço a barba pra ficar bem rente e escolho, com atenção, todas as camisetas que gosto tanto até pensando qual dia vai ser o dia daquela salmão que gosto tanto e daí a viagem é amanhã, dá insônia, poxa, é o Rio né e, poxa, eu tenho trauma do Rio. Sou daqueles que até escutam, nas bebedeiras amargas: "eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de Sol".

Daí, chegou o dia. Um pulo no Anhembi, abotoado até o pescoço para parecer alguém respeitoso. Conto as horas, tipo duas da tarde e saio. Sampa ainda estava desgovernada por conta do apagão e ali pelas três da tarde já batendo os cem quilômetros de congestionamento. Vamos, devagar e sempre, preso na Marginal. Vejo as placas, escuto no rádio: tudo parado, piorando. Presto atenção, para constatar: estava do lado errado.

Desespero, e agora? Pego o primeiro retorno, vejo as faixas: pontes em obras, caos urbano. Pela primeira vez, penso que não vai dar. Ultrapasso caminhões perigosamente, embico por caminhos que sabe se lá onde vão dar, cruzo a ponte, pego outro lado. O rádio vaticina: cento e cinquenta quilômetros, vai piorar. Relógio marca quatro horas, mais uma hora e meia perco o voo. Daí, desespero.

Queria ir ao Rio. Pela possibilidade da leveza, da beleza, da ternura. Queria ver o Rio bossa tranquilo, sem as dangerizações do Reveillon. E se desse errado, no clima da outra estação, nada impedia de praia, mojito na mão, óculos escuros & mar com o desconhecido todo pela frente.

Fecho os olhos, suspiro. Vai dar. E vai dando. Pela Marginal, pego a Dutra, chego em Cumbica. Piso no check-in, deixo as malas, ainda sobra tempo prum Quarteirão com Queijo devorado em três dentadas no aeroporto. Daí, chamam: atenção voo de Cumbica em direção ao Santos Dumont, embarque imediato. Tardezinha, tempo bom e aberto. Partimos quase seis da tarde.

E depois, bem.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Uma Outra Estação, parte 2

O que veio em seguida foi promessa de mar. Ok, travestida de compromisso de trabalho, congresso, coisa assim. Mas eu, de tão leve que estava, decidi negligenciar: comprei filtro solar, tirei as bermudas da gaveta, prometi conchas, escolhi aquele hotel na boca da praia. E fui.

Para mim, qualquer mar seria leveza. Maceió foi um descalabro. Um céu azul iluminado, sem nuvem qualquer, refletindo naquela água tranquila e morna. O Sol de estourar miolos e especialmente desenhado para tostar minha pele tão despreparada para estas tropicalidades.

Responsabilidades? Joguei-as logo ao alto no primeiro dia. Deixei o terno na mala para me entregar a uma rotina de cervejas tarde adentro, camarões para não se ficar com fome e lagostas, imensas, nos almoços e jantares. Tanta beleza, tanta vontade de mãos juntas, de passar minutos no mais completo silêncio só para interromper: mostrando aquela jangada ao longe que vagueia leve, do azul que muda de tom quando o dia vai caindo e a luz passa dum amarelo pleno para aqueles tons de laranja mortiços. Dava vontade de aparar nos dedos seus cachos ainda pequenos, bagunçados pelos ventos alísios. Queria mostrar minha pele, como fico coalhado de sardas quando fico mais de cinco minutos ao sol.

Por isso ligava. Todos os dias, com coração taquicardizando. Com medo do ridículo, nem dizia grandiosidades: só dividia essas pílulas de felicidade salgada, coisas que escapam por entre os dedos se não são compartilhadas. E até podia um: queria tanto você aqui, era pura verdade. Só não disse porque outras estações possuem outras exigências, menos histerias imediatas. O que não me impedia de, quando ia dormir, pensar, repensar. O corpo gemia, dolorido das ondas e do sal. Fechava os olhos e nos via ali, entre coqueiros clichês e havaianas, dançando cheek-to-cheek: moon river, wider than a mile...

domingo, novembro 22, 2009

Uma Outra Estação

Nem foi porque o calendário passou o solstício. Também, nem foi porque Sampa de repente se tornou essa cidade abafadiça, suarenta, sob este tórrido sol senegalês. Nem a iminência das férias, a promessa de dias absolutamente vazios de responsabilidades grandiosas. Só sei que foi acontecendo. Coisas assim, telefonemas leves para dizer sobre pequenas belezas, vagos arrepios. Foi minha hermana, companheira das montanhas-russas que este ano proporcionou, que cantou a bola numa terça-feira qualquer: "pois é, hermano, acho que vem chegando outra estação".

E veio vindo, devagar. Num domingo daqueles, quando Augusta tão coalhada de gente respirando a brisa suave que escapava por entre os prédios, tipo orla de mar. Fomos nós dois, hermanos de mãos bem dadas, peito aberto. Cerveja gelada aqui e ali, conversas rolavam naturais entre abraços sinceros, encontros inesperados. E, de tão bom estar ali, até se esquecemos de procurar atentos, naquela sede de quem há tanto não vive nada em intensidades. Daí, aconteceu.

E acontecendo, nem deu vontade de contar toda história longa dos amores que poderiam ter sido e não foram, nem a frustração da ex-namorada que agora, após todos os sonhos desfeitos, será mãe. Fui dizer: do apê que não sei pra quando mudo, daquela época em que se pedir fogo na balada era a melhor forma de proximidade. Fui querendo ter tudo aquilo de novo, sabe? Aquela tranquilidade de ter alguém dormindo no peito, tipo domingos vazios com rádio ligado, Nova FM entre cigarros, cervejas e carinhos. Histerias telefônicas, para ligar com voracidade e dizer quase nada, essas cotidianidades de agora estou aqui, saudade é tanta. Até queria saber francês para dizer ali, ao pé do ouvido: tenho gostado tanto de você, mon petit.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Este Seu Olhar

Era para ser uma daquelas semanas alucinantes, pré-férias. Daquelas em que eu havia deixado a vida correr negligente, para estourar naquela última em que o parto é obrigatório e não há margens para procrastinações. Era correr de um lado a outro, sem almoço ou sem até aquela cervejinha obrigatória quando anoitece, nestes dias longos de horário de verão.

Pois bem, a semana se ia. Desabalada, mas ia.

Foi quando ali, no penúltimo dia, eu te revi. Coisa assim: eu, atabalhoado, descabelado, cabeça girando a mil, de saída para meu merecido descanso. Logo vi você, ao longe, cruzando o corredor. Parei, esperei. Cumprimentei sorriso breve, leve, nada mais.

O que sempre havia chamado a atenção eram aquelas vezes em que você fumava, plena luz do dia, tão distraidamente. Tão desesperadamente. Ali, roda de médicos, todos naquela vibe higienista pós-Serra, o salvador dos pulmões alheios. Você nunca deve ter notado que eu percebia. E, percebendo isso, por você criei uma imediata simpatia que, talvez, poderia até virar uma conversa fiada depois do expediente que, talvez, até poderia emendar num cinema, talvez teatro se gostasse mais, jantar qualquer coisa por aí e talvez, daí bem talvez, diria o quanto sou sensível a certas pequenas rebeldias e, talvez, cada um aí faça o filme happy end com letrinhas subindo que melhor couber. Enfim.

Pois bem, você chegou, eu resolvi ficar. Burocracias: quadro clínico assim, assado. Hipóteses diagnósticas diversas, prognóstico reservado. Dizíamos tecnicismos. Até quando, ali pelo segundo minuto de conversa, percebi seus olhos certeiros postos em mim. Pesados, quase lancinantes. Daquela iluminação tipo meio-dia, que inicialmente ofusca até a pupila dilatar e se acostumar com tanto brilho. Foi assim: tangenciei o olhar para seus dedos que suavemente tamborilavam na bancada, o movimento assimétrico das linhas de tensão na testa, no relógio que marcava além das sete.

Resolvi pagar pra ver. Resolvi te ver, observar que ali pela íris haviam tantas sardas, efélides no mediquês, sua pupila tão dilatada como se fosse para me apreender melhor e ficamos assim, minutos longos sem que qualquer outra coisa além dos nossos discursos cadenciados. E ali, no meio, a vontade de dizer: ah, fumo tanto nestas noites suarentas e solitárias, tenho tantos sonhos, tantas virtudes e se me desse só um bocado de liberdade, diria que ali, agora, assim, estava pensando em Nara Leão cantando doçuras tipo: "esse seu olhar / quando encontra o meu / fala de umas coisas que não posso acreditar"

domingo, novembro 01, 2009

Life in Technicolor

A leveza sempre foi algo tão difícil de definir. Acabo percebendo-a de formas indiretas, como se fosse aquele entorpecimento depois do primeiro copo de martini ou o arrepio que segue um beijo cinematográfico.

Nestes dias de leveza, nada acontece de fato. Os dias ocorrem um após o outro, sem grandes paixões, sem grandes martírios. Levo o lixo para fora, faço compras no mercado, levo as roupas para lavar. Às vezes, um porre sem maiores perigos, noites vagas de pouco resultado. Não há sede, não há esperanças.

Lá fora, os dias duram mais. Dá vontade de sair de casa, voltar para academia, talvez praia logo mais. Faço planos, compro livros, arremato aquela pólo salmão que há tanto paquerava na vitrine. Na iminência do ano que finda, aquela energia toda boa do destino em aberto para o reveillon, os novos projetos, os novos (des)caminhos. Pela noite, já vejo iluminações. Por aqui dentro, a percepção de que está chegando, ainda que sem cara ou rosto.

Brand new, disseram-me os astros, os signos, as placas da Paulista, os caminhos do Metrô. Coldplay tem tocado tanto por aqui e me diz: "now my feet won't touch the ground".

domingo, outubro 25, 2009

A carta de boas intenções

Descobri que gosto de procurar a beleza nas imperfeições e acho que isso explica meu fraco por sorrisos assimétricos, um nariz pouco acima da média, uma personalidade caótica. Também gosto do fácil, do morno, bem rasinho: por isso, não sou destes de simulacros, caras e bocas. Não acho que um bom amor tenha necessidade de se cozinhar em horas de ligações não retornadas, intenções sublimadas. A linguagem das epidermes sempre é soberana nestes momentos.

Gosto de pagar pelas coisas o preço que elas realmente merecem. Seria idiota se dissesse que não gosto de luxo & glamour, mas a maioria das minhas melhores noites foram regadas em copos americanos e lugares improváveis. Gosto das coisas pelo que elas são, não por aquilo que aparentam. E se tenho que escolher, sempre escolho o caminho mais simples.

Nasci para viver a noite, principalmente madrugadas altas. Gosto do grunge, gosto da barba sempre a mostra e cabelo em completo desalinho. Gosto de All Star no pé, quanto mais detonado, melhor. Gosto de cerveja e me ganha quem me acompanha nestas noites vazias, numa boemia sem razão de ser. Gosto de cigarro e me encanta que tem aquele jeito solitário de fumar, sob a luz errante das lâmpadas amareladas de sódio.

Gosto de quem é parecido comigo, mas de uma maneira completamente diferente. Gosto de cooperação e cumplicidade, coisa essencial para que dois mundos complementares se encontrem sem terremotos ou tsunamis. Gosto de muitas presenças, de dormir todo dia e as escovas bem juntinhas aqui e ali, mas também tenho aprendido a valorizar pequenas ausências: ter saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio...

E se você disser que vem, gosto de ficar preparando a alma um tempinho antes. Gosto de taquicardias, gosto do silêncio que precede o toque da campainha até a porta se abrir. Se chover, gosto de andar devagar sob a chuva torrencial, talvez um abraço apertado para dividir o calor. Quando chego estourado de uma madrugada de trabalho, gosto de deitar de mansinho e um beijo terno antes de me afogar em edredons.

Gosto que cozinhe, gosto de levar ao cinema. Gosto de quem me conduza, sem agressividades, para me salvar das minhas bagunças. Gosto de pegar ao acaso um olhar longo, carregado de significados. Gosto muito de domingos. Gosto muito de gostar. E, acima de tudo, gosto da ilusão de que serei feliz para sempre contigo, ainda que esse sempre seja só por uma noite.

domingo, outubro 18, 2009

Cinco minutos

Japonês, sexta-feira: estava num daqueles dias do meu merecimento. Não havia almoçado, a fome era muita e, o cansaço, proporcional a fome. Também, a previsão de um dia seguinte longo de trabalho sem muitas margens pra descanso. Entre sushis, cervejas e a companhia de um bom amigo, as coisas seguiam sem grandes sobressaltos.

Daí, telefone toca. Tem tocado muito ultimamente: sejam as agruras daquela enfermaria louca, sejam convites pras boas coisas, seja só tanta gente pra me dizer estou com saudades gosto de você seu sumido e rio dizendo: férias estão chegando, deixa só chegar enfim, telefone toca. Sei quem liga e o telefone fica ali, tocando “I’m a cuckoo” do Belle que gosto tanto. Outros tempos, quando você ligava, era “Young Folks” que precedia seu tom de voz firme e macio, todas aquelas vezes em que no caos de uma segunda você me ligava pra dizer bom dia e qualquer coisa em seguida, não necessariamente importante, mas só porque se falar é bom, enfim. Telefone toca e fico ali, meio ridículo, com ele escorregando pelos dedos. Terceira vez no mês, faço as contas.

Atendo. Difícil atender, difícil não atender. E daí tenho todo o roteiro: o tom de voz vacilante e até mesmo um pouco entediado, conduzindo a conversa em monossilábicos esquivos sem aprofundar muito no momento agora, nem no momento antes, só navegando lento nestas águas que certamente são fundas e tempestuosas. Sei simular bem que está tudo bem brilhando, que não me importo se você está em Guarulhos esperando o avião e enquanto esperava lembrou: de mim. Um ano, você diz. Há um ano, você me trazia aqui. Há um ano tivemos um dia daqueles, engarrafados numa marginal estancada. Frenéticos, trocando pistas, contando segundos. Eu te amava. Amávamo-nos, na ligeireza cotidiana, dentro dos nossos descaminhos: mesmo quando perdíamos o vôo, mesmo quando eu errava a entrada na Marginal, mesmo quando a rinite era braba e eu roncava, gostosamente, à noite.

É mesmo, respondi. Não lembraria. Até tinha visto coisas do Círio nas revistas, mas não tinha ligado a data ao fato. A mão escorrega, sei que preciso desligar logo. Sei que não sou um bom fingidor e só agüentaria pouco além de cinco minutos de indiferença simulada. Da primeira vez que me ligou, estava debaixo de um sol maravilhoso, caipirinha na mão, feijoada esperando. Tá na porta do Veloso, você disse. Logo procurei em volta, coração aos pulos. Quando disse que só havia passado de carro e me visto, coração sossegou. Na segunda, nem atendi. Trabalhando, não tinha visto, mas recebi o convite: jantar, boteco, qualquer coisa assim. Declinei, educado. Conheço meus limites.

A última vez que fui para casa faz um ano, aquela vez. Daí desejo boa viagem, digo que também há muito não vou a minha, desde o Carnaval. Até dá vontade de dizer que minha casa agora é aqui, mesmo no desaconchego de aguardar apê com malas por todos os cantos, me seguro. Passaram dois minutos de conversa, ainda agüento sustentar a indiferença. Se falo de mim, a porta se abre. Sei que, do outro lado, você sabe que dissimulo. Você me conhece, sabe que sou doce, tergiverso sobre minúcias, que gosto muito destas coisas povoadas de detalhes. Sou fraco por lembranças e nostalgias. E também sou extremamente sensível pra estes clichês aeroportuários, tipo Casablanca última cena. Nem quero pensar, quero ficar aqui no raso, no controlável.

Faz-se um silêncio povoado, você diz que está cansado, deve ter trabalhado muito, presumo. Se pergunto, sei que irá me contar o que está fazendo, tudo o que começou depois de mim: mudanças, empregos, sociedades, sucesso. Percebo, nas linhas gerais, que você está bem e isto não me incomoda. Também tenho trabalhado demais, amanhã mesmo estou de plantão. Na cabeça vem Caio, de súbito: “tenho trabalhado tanto...” e seguro, prendo o ar, sei que não posso. Deixo o assunto morrer, acabando-se em murmúrios afirmativos.

Até mais, até breve, qualquer coisa assim. Vejo que entramos no quarto minuto, talvez você queira me vencer pelo cansaço. Eu quero desligar, não quero mais. Não quero ser seu amigo, não quero dividir nada além. Podíamos nos encontrar uma vez por ano, cumprimentar com um beijo envergonhado fingindo que nossa história nem aconteceu. Nem faço questão do ritual do pra onde vamos, onde paramos, para onde queremos ir. Até tento me enganar, na iminência do quinto minuto, que não me importo mais. Pressinto que a máscara já vai cair e vou dizer aquelas verdades que você pressente, que havia dito à exaustão no final daquele nosso verão. Antes disso, conseguimos desligar. Boa viagem, reitero, nada mais. Desligo, arfando, jogo o telefone longe. Ele bate na mesa, desarrumando os sashimis tão alinhados e dispostos. Meu amigo me olha, peço desculpas, respiro fundo: onde estávamos mesmo? E continuo.

Ficou na garganta o pedido: não me ligue mais, nunca mais. Não rompa nosso acordo tácito de me deixar aqui, no ponto em que me abandonou. Não me incomoda saber que você partiu e não voltará mais, nem que te construí à imagem e semelhança das minhas melhores ilusões. Não dói o fato consumado. O que incomoda é sua imagem fantasmagórica na soleira de minha porta, reforçando que eu até era bom, mas não o bastante.

Fecho os olhos e torço, não ligue mais. E no segundo seguinte, até penso: podia ligar, ligue só para eu dizer que não quero que você me ligue. Todos os motivos pelos quais não quero mais e talvez, na morosidade do meu discurso vazio, finalmente acreditar em mim mesmo. É incoerente, eu sei. Sou incoerente, eu sei. Dentro de tudo, sei que ainda sou refém de suas chegadas e partidas e agora, depois da terceira vez, sobra aquela angústia passageira do se você ligar de novo, se trouxer um presente, se me convidar prum jantar? Não queria. Não quero. Só é tão difícil resistir.

Sou um fraco pra estas situações avassaladoras, esse que é o fato.

sábado, outubro 10, 2009

Dos reinícios

Passei este tempo todo tentando escolher as palavras, pra que dissesse o que eu gostaria de te dizer de uma forma que fosse linda, que fosse bela, apesar de triste. Porque, depois de tanta conversa com tanta gente amada, não havia encontrado o corpo correto, o envelope perfeito.

Não queria ter que te escrever de súbito, como estou fazendo agora.

A verdade é que você me dói. Porque sei que você é quem eu sempre quis: doce, leve, divertido, belo, culto. Para se levar ao restaurante num domingo como esse (ensolarado e tépido), para me afagar em sábados como ontem (quando cheguei após 60 horas seguidas de trabalho), para mostrar minha cidade natal, dividir minha casa, minha vida. Se não fosse esta maldita distância, estaríamos juntos desde o segundo que nos conhecemos.

Você me dói porque não posso te ter. Porque eu preciso de você aqui, nas terças-feiras indolentes, para ver como também sei ser ácido quando durmo pouco, teimoso quando contrariado, para aprender a lidar com minha natureza também difícil. Acredito que bons relacionamentos se cristalizam na rotina, para que a linguagem silenciosa se faça, a sintonia se estabeleça. Preciso de carinho, preciso de atenção, preciso de alguém que vele o meu sono enquanto durmo. E, mesmo que você seja meu amor-perfeito, de que adianta se não posso te ter perto de mim? Enterrado até os pés numa rotina absurda, com os finais de semana começando aos domingos às quatro da tarde, essa pandemia toda nas costas...

Não pense que eu não penso em você. Penso sim, às vezes quando tomo banho, exausto, e penso que você poderia estar me esperando ao ver TV. Ou quando desço pra praia de susto e vasculho Maresias inteira atrás de polvo. Ou quando toca Nara, num domingo preguiçoso desses, tomando cerveja sem companhia. Ou quando vi "Pontes de Madison" e chorei quase ininterruptamente por meia hora, grande parte por tua causa. Naquela cena, principalmente: Meryl Streep, dentro do carro, na chuva. Se você viu, vai entender. Senão, veja. Vale a pena.

E também não quero fechar a porta para você. O mundo é vasto, os caminhos são estranhos. Pode ser que nada aconteça e fiquemos nós dois, tontos de amor, separados. Pode ser que você tropece por aí e encontre o amor perfeito, seja feliz pra sempre e me guarde como uma possibilidade tão brilhante - e vice-versa. Pode ser que o destino capriche nas suas brincadeiras e que nos coloque, espacialmente e temporalmente, na mesma sintonia. Eu posso morrer amanhã. Podemos viver a mesma história num final de semana destes, porque não? Eu não tenho a resposta. Ninguém tem a resposta.

E depois destes dias iluminados que passamos, acho que nossa questão não é hoje, nem agora. É algo maior. É na nossa capacidade de se encantar, de lembrar que o amor existe e está por aí, que pode acontecer de novo, mesmo depois de sermos tão dangerizados por quem não nos mereciam. De saber que existe você, aí longe, e tem um sentimento tão arrebatador - e eu também. É agridoce, uma alegria melancólica. Mas é preciso que esse sentimento baste. Sem possessividades, sem estudos de viabilidade. Se paro e penso, não quero você. Não quero que você venha, abra meu mundo por dois ou três dias e depois me deixe só, quando embarcar em Congonhas, mais de mês batendo as cabeças e sangrando por desejar todo um mundo iluminado que não posso, agora, ter. Também penso, meio dramático: e se não acontecer novamente? E se ninguém, tão brilhante, como você aparecer, não vale a pena ter esse pouquinho de luz mesmo por tão pouco tempo?

Eu não sei. Sinceramente, eu não sei. É isso que queria te dizer: eu não sei e estou resignado em minha ignorância. E o que existe por aqui não são alguéns físicos, passados ou presentes. Não há ninguém com rosto ou nome, não há a questão da pessoa X. Hoje, digo, há tanto não me sinto tão livre. Há o aprendizado sentimental pregresso, em que tenho vaga idéia do que quero. Como Cazuza canta, meu sonho de consumo: a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. E só. E dentro disso, vamos indo, vamos batalhando, perdendo noites de sono e chorando, ridículos, na frente do pc.

Quero que você me abrace quando me vir, de peito aberto. E deixe acontecer. Acho que somos melhores quando não pensamos. E saiba: meu ano não estaria sendo tão bom se eu não tivesse te conhecido. Se você não tivesse me libertado. E, independente do que acontecer, sou eternamente grato.

(11/08/09)

sábado, setembro 26, 2009

Apenas o fim [10], o último

(1) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim.html
(2) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-2.html
(3) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-3.html
(4) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-4.html
(5) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-5.html
(6) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-6.html
(7) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-7.html
(8) http://martiniseco.blogspot.com/2009/09/apenas-o-fim-8-o-antepenultimo.html
(9) http://martiniseco.blogspot.com/2009/09/apenas-o-fim-9-o-penultimo.html

Para Maria Anita S. Leite, Tati Rangel e Maria Fernanda Neves, mi hermanita

Não queria desse a impressão que, dessa história toda (quase saga, Maligna disse), agora se fechasse com uma lição. Nunca acreditei naquela moral católica maniqueísta que o sofrimento nos leva a um lugar obrigatoriamente melhor. Amor não é pedagógico, não é Telecurso 2000. Não sou uma pessoa melhor por ter vivido sob a égide de um amor desfeito - perde-se um pouco da inocência, outro bocado de ilusão. Ainda não descobri se, os últimos nove episódios, foram pra unir as duas pontas ou desatar nós. Agora, não importa mais.

Sou eu aqui neste irônico lugar chamado Paraíso, noite fria e cigarro queimando brasa por entre os dedos. Duas coisas são certas: a primeira, que amor não é Síndrome de Estocolmo (devo esta ao Phill, num post ensolarado). Não é destas de permanecer cativo, enquanto se toma porrada nos rins e toda sorte de chantagens emocionais. A outra é a certeza que tudo aquilo, tudo isso não me serve mais.

Abrindo o relicário, sentia falta de estar bem num domingo morno, naquele horário entre o Pânico e o Domingo Maior. Da segurança em andar de dedos entrelaçados descendo Augusta ou nos filmes indies do cinema, de toda preparação interna que eu fazia entre as surpresas, de como tudo parecia fluir tão redondo dentro da energia boa de se gostar de alguém. E fui percebendo, então, que quase tudo aquilo que me era necessário naqueles dias eram impressões ególatras: eu me sentia, porque eu fazia, porque acontecia comigo. Percebia que o outro era instrumento e todo o prazer residia aqui, entre minhas histerias, carências e incompreensões. E essa tranquilidade também poderia vir do consolo de tanta gente querida por perto, enquanto eu trabalhava de sol-a-sol numa prostituição sem culpa, fazendo yoga, fumando crack, fazendo mergulho, fugindo pra Tailândia, sei lá. E que as saudades não tinham o rosto, o toque, um tom de voz específico - sentia falta mesmo eram das circunstâncias: não necessariamente, percebi, havia de ser com você.

Percebo, sim, que estava doentiamente apaixonado. Vertiginosamente encantado. De querer partilhar o quarto, os lençóis, minha cidade-natal e todo resto incluso no que se caracteriza minha-vida. Cruel é perceber que acaba e concluir, citando Julie Delpy naquele filme que gosto tanto: "I'll bump into him, we'll meet our new boyfriend and girlfriend, act as if we had never been together, then we'll slowly think of each other less and less until we forget each other completely". De tanto bem-querer, só sobrar esse incômodo, esta gastura, esses simulacros.

E agora? Só resta seguir, tão distraído quanto minha boa Clarice prega. Vai acontecer de novo, está acontecendo de novo, eu sei. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode demorar outros seis meses. Pode até não ser pleno nem cinematográfico, pode ser rasinho, nem precisa necessariamente seguir sob o ritmo lento das novas bossas, solos de jazz. Pode até me deixar, no final, sangrando na sarjeta ou zonzo de tanto amor não dado. Posso até dar sorte do destino errar a mão e jogar no meu colo um amor destes, intensos e imensos. Até posso morrer atravessando a rua agora, bêbado, que até considero um final razoável. Restam, tantas, as possibilidades. Tantas outras, além de você.

Ficamos assim: tudo certo, nada resolvido. E se te encontrar, nem faço questão de saber a quantas seu universo gira ou qualquer outro protocolo de boas intenções. Só não resisto, quando piso na Bela Cintra, de contar os andares para ver se sua luz está acesa. Sei que você permanecerá sempre em mim, mesmo que eu conscientemente não queira ou não precise. Como uma lanterna na popa, que ilumina somente as ondas que deixamos para trás.

Já é dia, apago o quinto cigarro e prometo tentar dormir. Fecho a janela, as cortinas, tomo dois comprimidos de qualquer coisa e vou deitar, no desejo de um sono pesado e sem sonhos. Termino por aqui essa crônica sobre uma paixão ordinária. E se perguntarem qualquer coisa, digo: isto tudo que escrevi, em dez pedaços, foi - aos trancos e barrancos - apenas o fim. E sou imensamente grato a todos que, desapegadamente, seguraram firme a minha mão enquanto os caminhos eram tão difíceis.

domingo, setembro 20, 2009

Apenas o fim [9], o penúltimo

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Cruzei as marginais desertas, o porta-malas cheio de boas intenções. Era uma sexta tépida e ensolarada, segundo dia de um feriado prolongado: todos que deveriam descer já tinham descido. Então, tive a benção dos caminhos abertos e vastos, puro reflexo do que pressentia aqui dentro, por todo lugar.

Desci a Serra sem muitos sobressaltos. Muitas curvas, muito verde, boa música guiando os caminhos. Lá do alto, vê-se o Mar - sorrio, quase enfiando o carro ladeira abaixo. Acontece, penso eu. Sigo caminho cruzando Caraguá, perdendo-me em São Sebastião. Lá ao longe, a praia ao alcance dos dedos e aquele gosto salgado no ar. É preciso seguir, é preciso chegar. Encontro o rumo, vou em frente.

Maresias não tardou a chegar. Cidade deserta para os padrões: ao contrário de Sampa, ao nível do mar o Sol se escondia sob pesadas nuvens, vento gelado soprando. Estaciono o carro, abro a primeira Stella Artois da série de muitas e bebo devagar. Perco vários minutos observando o vai-e-vem das pessoas, do ritmo vagaroso que a vida tem à beira-mar.

Logo choveu e assim choveria pelos próximos três dias. Sem problemas: saquei a biografia de Caio F, comprada num encontro surpreendente e até providêncial. No mercado, providenciei litros de cerveja para acompanhar a chuva que tamborilava lá fora. Quando cansado, havia Friends numa diversão chiclete e sem culpa. À noitinha, Vinão chegava e seguíamos no burburinho da cidade trocando histórias engraçadas e sem perigo, entre temakis de polvo, gente bonita, espontaneidades. Fazia bem essa alegria simples.

Pelo segundo dia, sob efeito de um texto tão-lindo que Caio havia escrito, resolvi que era A hora. Seis meses haviam-se passado de luto pesado, coração preso a tanto desamor. O mar, meu espectador silencioso naqueles dias soturnos do Leblon, seria novamente meu cúmplice amigo, irmão. Havia cansado de tanto mofo, já era hora de se abrirem as janelas. Vesti qualquer roupa leve e fui.

Chovia muito, choviam cântaros. A praia parecia o clip de Yellow, do Colplay: "Look at the stars, look how they shine for you...". Havia só eu na areia, eu e meus pensamentos, eu e minhas referências. Na água, até via alguns surfistas vagos, pequenos pontos pretos, perdidos na malemolência do mar revolto. Batia aquele vento gostoso e deu vontade de ser pipa novamente, Kite perdida no céu.

Quando ensopado, lembrei de Holden Caulfield: ali no finalzinho, naquela cena maravilhosa do carrossel. Naquela em que chove e ele fica ali, sozinho, na chuva, fitando a irmã que rodava sem parar. Ao fundo, tocava "Smoke gets in your eyes". Era ali que ele percebia a excessividade do movimento, na necessidade de seguir mais devagar.

"When your heart's on fire, you must realize: smoke gets in your eyes", essa era a verdade. Com o coração em chamas, mal conseguia enxergar além do meu nariz. Perdia-me na fumaça dessa fogueira de paixões e sentimentos. Tão bela a chama, tão lindo ver o fogo alto, o brilho mortiço alaranjado que aquece e acalenta. Só que esqueci que existe além. Que não sou daquelas moscas, que se matam buscando a única luz que aparece a noite.

Eu não poderia ser daqueles que se hipnotizam com as brasas. E era o que estava acontecendo. Tão centrado numa espiral de piedade e auto-comiseração, tão inerte com medo do tombo: só conseguia permanecer ali, agitando as brasas procurando restos, fagulhas. Vinha a fumaça, turvando os sentimentos: sem que nada de calor viesse dali. Por isso era preciso a água, era preciso a chuva, era preciso o mar. Era preciso que lavasse, levasse embora o que restava para longe. Eu caminhava a passos lentos, sob a chuva, buscando este tipo de redenção.

Era preciso a tenacidade de Vicente, o corvo de Miguel Torga. Cansado dos desígnios de Deus, Vicente abre as asas e foge da Arca. Põe-se, então, no último pedaço de terra seca que sobrara durante o dilúvio. Deus abre as cataratas do céu, em represália. Quer fazer Vicente retornar a Arca e sufocar o movimento de subversão. A água lambe as garras, deixa só a cabeça do corvo de fora. Vicente permanece imóvel, desafiando a onipotência. Mas "nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre" e Deus, vencido, fecha as portas do céu.

Foi assim que voltei pra casa, encharcado e liberto: eu, Holden, Vicente, de mãos bem dadas. A partir daquele momento, tudo deveria ser diferente. Passado era passado, pecado se perder por tanto tempo em tanta lamúria. Com tanta lágrima, havia feito meu mar pra navegar. E agora, apesar da chuva, finalmente decidia abrir as velas e seguir, sem rumo, no aguardo do acaso propício...

domingo, setembro 13, 2009

Apenas o fim [8], o antepenúltimo

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Aquele só foi o primeiro. Morreu um, morreu outro: quando vi, ao final daquele longo mês, haviam morrido cinco no total. Há mortes que são anunciadas, o que não foi o caso: todas elas foram, de certa forma, inesperadas. Nada parecia dar certo: os nossos raciocínios nos levavam a becos sem saída. Fazíamos tudo o que podíamos e dava errado. Os pacientes pioravam inexoravelmente, escorrendo por entre nossos dedos inábeis.

Foi um mês frenético, de insônias e culpas. De inseguranças e inabilidades. Mas, acima de tudo, de um crescimento brutal. Parte dele profissional, de aprender a respeitar o difícil tempo das coisas, da nossa fragilidade apesar de todo o conhecimento que detemos. Também pessoal: do coleguismo que se constrói nas situações-limite, na capacidade de superação.

Estar com os cotovelos e joelhos afundados no caos me fizeram repensar nelas, nas Prioridades. Sim, aquilo ali era a Vida, aquilo ali que era a realidade. Senti-me culpado em gastar tantos neurônios nas minhas histerias pequeno-burguesas: ah mas se eu tivesse sido mais compreensivo se tivesse trocado as roupas os sapatos talvez mudado sotaque ou sido aquela pessoa completamente diferente de mim que ele queria que eu tivesse sido e. Quanta bobagem, passar horas a fio reforçando meus traumas, minhas carências crônicas, enquanto havia tanta vida por aí.

E se me perder nas elocubrações fúteis era algo inevitável, então porque não ocupar a mente para que isso não acontecesse? Decidi me anestesiar, decidi ocupar tudo para que não sobrasse margem para mais nada, nada além. Havia descoberto a resposta, naquele prazer working-class do suor e do sangue: enquanto trabalhasse loucamente, não pensaria no Leblon, na rua Bela Cintra, na forma que você sorria quando estava feliz. Para mim, era fácil: arrumei mil-plantões, duzentas responsabilidades. Decidi trocar de carro, comprar apartamento, viajar pra Tailândia, ou qualquer meta adulta. Decidi fechar o vidro, engatar a quinta e seguir correndo até quando decidir parar.

Foi assim, um mês, dois meses. E engraçado que, de tão ocupado, não fui percebendo nas coisas pequenas que aconteciam ali, à margem. Foram encadeando novas amizades, para me mostrar novos caminhos, novos mistérios. Outros amores foram surgindo, desencadeando as velhas espirais de desejos e bem-quereres. Encarei novas responsabilidades, estabelecendo novas metas, novos desafios, outros planos. Quando vi, alguns meses depois, a vida estava seguindo lépida e leve, alguns passos aquém do que eu gostaria que estivesse, mas assim: brand new.

E não vou dizer que, a la Dorothy, bati os sapatos vermelhos e tudo se transformou. Vezenquando, nestas noites em que chegava bêbado e irremediavelmente sozinho, havia a vontade de ligações e cartas e mails. Às vezes até me desapegava e escrevia um post por aqui, uma ligação para amigos pra dizer: ah, é insuportável essa sina de viver. Não foram poucas, também não foram muitas. Num assunto, numa lembrança, em qualquer esquina: aparecia, lembrança baça, mas que ia desincomodando aos poucos.

Até quando, quase quatro meses depois, trabalhar tanto me incomodava. Haviam convites agora, telefone tocava todo dia. Talvez cinema ou buteco, talvez museu ou restaurante, talvez fazer nada na casa de novos amigos, talvez ligar praquela nova paixão lancinante. Pois é, sem perceber, tudo havia se encaixado. Havia vida após, vida além. Agora ela estava ali novamente, palpitando, ao meu alcance.

Num finde prolongado, resolvi aceitar um convite: praia desconhecida, amigo novo. Estava precisando rever o mar. Estava precisando reencontrar sentimentos que só a maresia consegue evocar. Nem planejei muito: saquei da manga umas mentiras brancas e logo ganhei quatro dias de folga. Coloquei todas as malas e desejos no meu velho carro, acordei no improvável horário das seis da madrugada e segui. Marginais desertas, dia tépido e brilhante.

E fui descer a serra...

sábado, agosto 29, 2009

Apenas o fim [7]

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E aconteceu de novo: uma quinta, que virou um domingo, que seguiu em ligações semana a dentro, pequenos carinhos e alguns planos. Nada assim, digamos, vertiginoso. Mas era uma tentativa, era um reinício. E era preciso, principalmente, reaprender o primeiro passo.

Já havia se passado mês e pouco. A rotina engrenava em novas responsabilidades e deveres, como deveria ser. Vezenquando dorzinha no cotovelo reverberando, uns cinco segundos contemplando o ônibus à venda na porta de casa, vagamente semelhante a aquele de Alex Supertramp em "Into the Wild" - um dia havíamos combinado de comprá-lo e irmos juntos rumo a lugar nenhum... Mas logo voltava ao mundo real e o decorrer do dia seguia leve, fluido. Numa euforia simples de que a vida seguia do jeito que se esperava.


Havia sido uma noite boa. Acordei, coloquei aquela polo azul clarinha que gosto tanto. Até ganhei um daqueles elogios rasteiros: "como você fica lindo nela, guri". Sorri. Depois, juntos até o ponto de ônibus. Você decide pegar o mesmo que o meu, apesar dos destinos diametralmente opostos. Passa o metrô e pergunto: "não iria descer aqui?". Ganho piscada, sorriso maroto em seguida. Chego no meu ponto, descemos. Paramos na primeira padaria - olho no relógio, eu estava surpreendentemente adiantado. Tomo um café espresso, dos fortes, um pão de queijo meio anêmico. Falamos do dia ensolarado, dos projetos diminutos, coisas sem peso. Daí, descemos oito quadras em passos lentos, até a porta do Hospital. Ganhei beijo na bochecha estalado, um bom dia. Entrei.


Subi os sete andares neste magnetismo bom do bem-querer. Ao entrar na enfermaria, percebo agitação demais para as oito da manhã. Puxo o estetoscópio e corro para um dos quartos: encontro uma colega de laringoscópio na mão, o carrinho de parada cardíaca aberta e muito, muito sangue. A entubação estava visivelmente difícil. Ela pede para mim: vou entubar de novo, ok? Ok, respondi.

Às cegas, ela tentou. O tubo entrou, cuff insuflado, minha vez: verificar se estava no pulmão ou se tinha ido para o esôfago. Sabíamos que o tubo tinha ido para algum lugar: sangue vivo espirrava, quase cascata, por ele. Lembro de ter escutado vagos murmúrios no pulmão, nada de barulho no estômago. Fechei: tá no pulmão, deu certo. Tranquilizamo-nos.

Passaram-se quinze minutos, uma hora e nada de melhora. Algo estava errado. Checamos o ventilador, funcionando. Checamos o tubo, tiramos litros de sangue por ele: também ok. Daí, percebemos: ao auscultar novamente o estômago, escuto ruídos. Eles não apareciam, pois antes o estômago estava cheio de sangue e agora, esvaziado, finalmente os ruídos deram as caras. Tiramos o tubo, colocamos no lugar correto. Mesmo assim, o estrago já estava feito: duas horas de hipóxia, de oxigenação insuficiente.

Desci as escadas devagar, mastigando os fatos. Logo isso, num dia principiando tão ensolarado!

Não havia nada que me consolasse: sabia que, por minha falha, alguém iria morrer.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Apenas o fim [6]

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Seguiram-se dias excessivos. Vocês bem sabem que a resposta a um excesso é exatamente o excesso oposto. Fui intercalando dias de hedonismo lancinante de luzes erráticas noite adentro e Cosmopolitans e anonimidades e cervejas e paixões vulgares e desapegos até sextas-feiras de santidades e choros sinceros e lamentar-pelo-que-poderia-ter-sido e ficar ali esperando o telefone tocar e deus sabe porque diabos pedi pra ele nunca mais tocar se libertar é isso queria mesmo era permanecer sempre preso sempre cativo principalmente nestas noites vazias quando chego de carro e o apartamento está em completo desalinho sei que não terá ninguém para reclamar a geladeira árida e se eu ligasse Cazuza agora nestas noites ah nestas noites tão perigosas eu também cantaria se soubesse cantar mas até canto sem pudor nesta tristeza pungente nesta sede incessante de ver de ter de tocar de talvez carregar tanta coisa aqui dentro sem ter como dividir e ficar tolamente parado sob o taco e essa luz mortiça da rua que entra pela janela: eu tive um sonho ruim e acordei chorando, daí então eu te liguei. Será que você ainda pensa em mim?

sexta-feira, agosto 21, 2009

Apenas o fim [5]

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E sai. E aí? O que fazer com o resto das horas, do dia? Com aquela terça feira preguiçosa, naquele espaço de tempo perigoso entre o jornal e a novela? Naquela ausência do telefone que não toca pra dizer bom dia, das tardes seguras pelo destino certo de logo mais, com a rotina cadenciando tão redonda por aí.

O fato é que tinha que seguir, a vida. E até a imobilidade exige uma movimentação, até porque quem imóvel fica gira na velocidade dos continentes. Dia após dia, foram chegando: nada decisório, nada radical. Só escovar os dentes, acordar cedo, me prostituir a preço barato. Nada além do pão, do suor e do sangue. Fomos indo, aos trancos e barrancos. Mas indo.

Passava até bem. Gente perto, abraços e carinhos. Calor humano, sabem? Pois bem. E quando, naqueles dias de verão, as coisas até caminhavam prenunciamente ensolaradas: o telefone tocava. Pra você me dizer: então, queria saber como você está. Esforçava-me para dizer: banalidades, coisas assim. Nada da verdade. Nada de, talvez esteja aqui, na mão com um copo de conhaque ou um 38 armado, apontado na boca. Nada de completamente dangerizado pelo amor que passou, obrigado.

Quando, após laconismos, a ligação terminava, vinham os abismos. Elocubrações. Talvez se fosse, se tentasse mais um pouco, se jogasse o restolho de amor próprio pela janela. Até que após uma dúzia de ligações como essa e abismos subsequentes suficientes pra bater ali no fundo do mar, liguei em seguida. Pra saber: e aí? Se não me quer, porque me liga? Se não me quer, porque não me esquece?

Daí, uma lição de sabedoria. Disse que estava bem, que gostava da minha pessoa e da minha amizade. Que se importava comigo. Dessas coisas modernas, hipocrisias tépidas, da fineza (desnecessária?) no trato. Pensei em responder caiofernandidades: amigos, eu tenho um monte; você queria mesmo era na minha cama, ponto final. Queria dizer que sou daqueles que dinamito pontes quando elas não me tem serventia e que não acredito em relações que só podem chegar até certo ponto. Queria mandar tomarnocu, foda-se, mas sou educado.

Só pedi pra nunca mais, nunca mais me ligar.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Apenas o fim [4]

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Foi ao pisar na rodoviária do Tietê que notei que era preciso muito mais que carinhos e compreensão para que alguma mudança significativa acontecesse: o fato era que meu coração ainda era tão refém. Coragem solitária é das coisas mais difíceis de se ter. Logo disquei o número, marquei encontro. Fui pra casa e juntei todas as coisas nossas numa caixa: tartarugas, post-it amarelos, uniforme do Remo, rótulos das Stella Artois. Também aquela lembrança salgada da Bahia, os restos das primeiras flores murchas que havia me trazido, um sexo perdido no sofá de uma tarde qualquer. Escrevi uma carta longa, desesperada e desesperançosa. Por último, nossa primeira foto com um recado que foi adicionado com Paint, nos nossos primeiros dias de história: "sou bem mais feliz com você".


Encontramo-nos. Saímos para almoçar no shopping e você me disse: do Rio, do filmes que havia visto, das peças de teatro. Até quando eu mandei o protocolo das tergiversações às favas e disse: "porra, mas eu vim aqui falar de nós, de nós". Daí, deixei sangrar até a última gota. Pedi, implorei. Disse coisas absurdas, como se fora deste espaço não houvesse mais nada, nem possibilidades, nem alegrias. Voltamos ao apartamento.

Como foi difícil dividir aqueles lençóis naquelas horas! Você não me convencia, nunca me olhava nos olhos, só dizia que assim era melhor. Eu pedia, repetia: volta pra mim, juntos nós ficamos tão bem. Chorei, choramos. As horas passavam e não havia acordo algum. Não conseguia compreender como se passa da devoção preocupada a indiferença morna em tão pouco tempo. Levantamos, depois de quinze minutos de impasse, silêncios constrangedores.

Fiquei em pé, na sala, mão na maçaneta por longos minutos. Hesitava em ir embora, pois sabia que, a partir do momento em que aquela porta se abrisse, de nada adiantou o esforço, a renúncia do amor próprio, todas as minhas boas intenções. De nada valeu esse tempo de vigília atenta, de engolir as piores inseguranças alheias pra se manter junto, uno.

Sabia que, quando a porta se abrisse, seria apenas o fim.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Correspondência

"Nossa alma romântica ocidental não sabe deixar ninguém ir, fica acumulando relacionamentos eternamente, juntando feridas a outras. Na verdade, hoje estou pensando assim, com mais leveza. As coisas dão certo quando tem que dar. Cabe a nós ficar de olho na estrada e deixar a vida nos levar um pouco, sem muita afobação. (...) Segue firme, o destino se encarrega de nós, enquanto andarmos distraídos"
(Maria Anita Silva Leite, sempre muito querida e certeira)

domingo, agosto 09, 2009

Epitáfio

""Diga o que você quiser, faça o que você quiser. Não diga nada se achar melhor. Minta, não será pecado. Mas se contar tudo, não esqueça de dizer que sou feliz aqui"
(Caio F., Onde Andará Dulce Veiga)

sexta-feira, agosto 07, 2009

Apenas o fim [3]

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E cuidou. Coisas simples, por quase uma semana. Logo cedo ele saia de casa e eu, tão mal acostumado dessa vida medíocre de labutar quando sol raia, levantava em seguida. Os dias eram de um ócio improdutivo exemplar: ver desenho, varrer a casa, lavar a louça do dia anterior. Ali pelo meio dia, aquela dúvida existencial se assistia Vídeo Show ou lia "Crepúsculo" (parei na centésima página, afinal, ócio improdutivo tem seus limites). Sempre amigo ou outro chegava e ficávamos ali, trocando figurinhas e energias boas até alta madrugada. Me bastou, de imediato.

Devagar, fui percebendo que a vida continuava. Principalmente quando revi o vídeo da minha formatura, com o meu discurso de orador. Lembrei que, naquele momento, estava me sentindo tão pleno, tão seguro - apesar do spot tão iluminado na minha cabeça, do meu sotaque chiadinho, do meu sorriso às vezes assimétrico. Lembrei daquele jeito de estar bom, vida seguindo fácil, tipo velocidades de cruzeiro. Era preciso voltar ali. Até sabia, sem saber como.

Tive alta dos cuidados intensivos ali pelo quinto dia. A vida urgia, as férias chegavam ao meio e ainda queria fazer um caminhão de coisas. Deram-me abraços longos, prescreveram carinhos de rotina e reinteraram que era preciso, acima de tudo, paciência e parcimônia. Também, como era bom se enxergar belo no espelho alheio e refletir.

Arrumei as malas, carregando-a de nostalgias e sem muito sacrifício. Mas quando entrei no ônibus, principalmente naquele trecho quando o rio Grande é espelho longo d'água, lembrei: a leveza é sempre, sempre insustentável...

terça-feira, agosto 04, 2009

Apenas o fim [2]

http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim.html
(primeira parte)

Quando desci em Congonhas, numa Sampa deserta pelo feriado, foi quando bateu a agonia. De repente, aquele sentimento de nunca-mais-ser-feliz-pra-sempre. Tomei um porre no buteco habitual, pra emendar numa noite de sexo cego e tortuoso. Depois, peguei o primeiro ônibus rumo ao interior com o telefone escorregando pelos dedos, coração em puras palpitações do: me arrependi, vamos voltar? E nada, nem ligações, nem subterfúgios.

Lembro que, nos primeiros dias, ganhei um jeito de escutar Chico. Primeiro encontrei Lígia, cantando aos soluços que não vinham: "e quando eu me apaixonei não passou de ilusão, fiz um samba-canção das mentiras de amor que aprendi com você". Depois, Atrás da Porta: "nos teus pés ao pé da cama, sem carinho, sem coberta, no tapete atrás da porta". Passei por todo tipo de auto-piedade e auto-punição. Sufoquei-me com minhas desculpas vagas, culpei-me pelos silêncios, pelos meus excessivos pedidos em te ter ao meu lado. Enxerguei-me no espelho de imperfeições em que você continuamente me exibia.

Quando estava quase lambendo os azulejos, naquelas noites mornas de lua absurda, atravessei o rio Grande. Lá, a tentativa de curtir a energia boa de um espaço que há muito me era familiar, mas que a distância tinha colocado uns ares de novidade. Seguiram dias de interurbanos de madrugada, solidão palpitando. Uns sufocamentos, umas desesperanças, uns pedidos categóricos de socorro. Eu, que havia colocado tudo de mim ali, que faria se ali não existia mais?

Na ameaça de desabalar de volta a Paulistânia, tonto de tanto desamor, foi quando um bom amigo trancou a porta de casa e vaticinou: não sai daqui nem por decreto. Quis argumentar, sem sucesso. Ele me disse, sereno: eu sei que é insuportável. Mas fique aqui, eu cuido de você.

sábado, agosto 01, 2009

Apenas o fim

Lembro que, por acaso, aquele era o último voo disponível que seguiria ao Rio. Por acaso, na minha hora predileta do dia: quando a luz modifica, alaranjando. Era um dia de verão claro, poucas nuvens, mas o suficiente para refletir as cores do dia que acaba. Lembro-me que, na janela, percebi que lá na frente a vastidão do mar se perdia na vastidão do céu. Nem sei porque lembrei de Pessoa, num dos poucos trechos que sei de cor: "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu". Sorri.

Pouco sabia eu. Doze horas depois estaria cruzando Copacabana, pouco atento a alegria insensata de um trinta e um de dezembro. Estava eu no banco traseiro de um táxi, sozinho, chorando. Poucas coisas são tão tristes quanto chorar sozinho num táxi. Havia acabado. Não adiantava ter visto a Rua Nascimento Silva, um encontro iluminado, quase acaso, na Visconde de Pirajá. Nada via além da dor, no sufocamento egoísta de quem, após ter dado quase todo sangue disponível, não bastou.

Não tomei banho de mar. Fiquei ali, sentado na areia até a partida, tipo cão-sem-dono. Cruzava o Leblon mastigando culpas e ressentimentos. Parti, de férias, num Galeão deserto e tristíssimo. Tinha ilusão de quando se tenta ser o melhor, é suficiente. Não foi, não era - fui cutucando até escutar as palavras mais duras dos lábios de quem amava. No retorno, noite alta, nada além da escuridão. Nada além.

Nada, nada, nada.

domingo, julho 26, 2009

Vem, pra me dizer.

Vem, pra me dizer: vem. Sem pudor e sem cuidado. Atravessando esta cidade cinza, gélida e excessivamente molhada. Sem aviso, sem sequência. Vem, pra me dizer: então se perca. E jogar a chave pela porta, esquecer a mediocridade da conta do cartão de crédito pra pagar. Vem, pra me dizer: apague a luz. E nos guiarmos pelo toque e pelo tato, a linguagem silenciosa da ponta dos dedos, dos vazios pontuados de interrogações. Vem, pra me dizer: sem recados. Sem ligações e sem esperas, sem o telefone derretendo horas nas mãos a imaginar o perigo de tocar agora, o perigo de não tocar nunca mais. Vem, pra me dizer: te salvo. Das noites vazias, dos porres sem motivos, do sentimento de vingança que me deixaria só-comigo. Vem, pra me dizer: vem agora, vem depressa. Não esqueça a cerveja, com cuidado pois nunca se sabe, nunca se sabe. O mundo anda tão perigoso, baby,

sábado, julho 25, 2009

Catherine (Luiz Felipe Pondé)

LEMBRO-ME DO impacto que o livro “Morro dos Ventos Uivantes”, de E. Bronte, teve em mim. Amantes que nem a morte foi capaz de curar a paixão infernal de um pelo outro. Vi as versões que o livro teve no cinema inúmeras vezes. Dormi noites inteiras com Catherine Earnshaw Linton (heroína do romance). Esta é a forma de imortalidade em que acredito, não a do paraíso raso das belas almas.

As irmãs Bronte são parte do período romântico (século 19), a primeira ressaca com a modernidade. Almas rasgadas pela nostalgia do mundo perdido, atormentadas por um passado transformado em fantasma. Feitas da mesma matéria das sombras, andam nuas pelas ruas de uma Europa dilacerada pelo espólio das guerras napoleônicas. Almas acuadas pelo materialismo científico nascente vingam-se na forma de assombração.

A alma romântica habitando um corpo moderno enfrentará o mundo devastado pela arrogância idiota dos modernos, pela objetividade morta da ciência, pelo niilismo do dinheiro, pela certeza cética da inutilidade da verdade. Em uma palavra, será uma exilada.Guardo uma certa simpatia pelo romantismo. Dirá o leitor: “Já suspeitava disso”. Por isso, delicia-se o leitor, minha incapacidade de lidar com um mundo onde as pessoas “escolhem tudo o tempo todo”. Suspeito da mentira que cala fundo neste blábláblá da escolha livre de tudo. Todavia, não se engane o leitor que gargalha em seu sofá cercado pela vitória definitiva da arrogância idiota dos adolescentes, da inércia burocrática, da objetividade do dinheiro, do cinismo histriônico e do ceticismo chique.

Românticos aprendem a falar a língua do mundo banal. Se você o encontrar num desses jantares inteligentes, o confundirá com a espécie mais cínica de pós-moderno que é possível imaginar. Ele rirá do amor, defenderá bebês fabricados pela indústria farmacêutica, afirmará a vitória do relativismo elegante de quem sempre viaja de primeira classe, enfim, ele manipulará, como quem manipula vermes, os códigos da vida devastada.

Não esqueça, caro leitor, que o romântico não é propriamente um idiota nostálgico, o romântico é um sobrevivente, sente-se como uma espécie caçada, um mutante que já nasceu num habitat hostil. Às vezes, esse tipo de ser é mais perigoso do que você, que ri tranquilo, cercado pela crença boçal de que o mundo seja seu. Os melhores entre eles aprenderam a dissimular a lágrima, mudar de assunto, fazer uma piada inteligente, fechar a porta do quarto. Quem se sabe desde o inicio derrotado, detém uma forma de poder invisível que o torna perigoso, justamente porque não combate pela vitória, mas sim porque sua natureza é não ter futuro.“Mas combateria por quê?” Pergunta típica da fraqueza que move os vencedores. Resistir é nesta alma uma primeira natureza. Talvez combatam porque esta seja a natureza de quem já nasceu num mundo que não é seu ou porque não conheça outra forma de se comportar num mundo onde há muitas esperanças, mas não para eles. Todo cuidado é pouco diante de quem não tem nenhuma expectativa.

Não há como mudar a máquina que põe em movimento o mundo moderno: a ciência é sua fé, a estupidez burocrática é parte essencial da inteligência administrativa, a velocidade do dinheiro é mola motora das relações, o controle crescente da respiração é destino numa sociedade que nada mais é do que a geometria das utilidades. O desencanto do romantismo é uma forma de inteligência sem função. O romântico é uma espécie de contradição insolúvel no progresso definitivo da vida calculada. São caçados como uma praga. E com razão: são inimigos de uma vida perfeita. Diante deles, babamos como predadores famintos.

O desafio para um romântico é aprender a lidar com suas sensações num mundo em que elas não significam nada. Mas, a chave é perceber que nos momentos em que elas se tornam incontroláveis, ele deve correr para a escuridão, porque românticos são animais da lua e não do sol, se alimentam da sombra.

Quando Fernando Pessoa diz que “se o coração pensasse, pararia de bater”, é do coração romântico que ele fala. Ao encontrá-lo, devemos ter por ele o respeito que merecem as espécies em extinção.

Espero que esta coluna de hoje seja a menos lida. Quem a ler, esqueça-a, jogue fora. Se encontrar comigo em algum lugar, não me pergunte sobre ela. Não a discutirei em público, trate-a como um segredo que você tem entre as mãos.

domingo, julho 19, 2009

"Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de 'Atrás da Porta', ali no quando 'dei pra maldizer o nosso lar pra sujar seu nome, te humilhar...'"
(Caio F.)

Sobre as coisas miúdas

O fato que meu coração sempre bateu mais forte pelas coisas desimportantes. Nunca fui bom para lidar com racionalidades, horários, livros de ponto. Sempre me perco tergiversando. Às vezes, por exemplo, me pego lembrando do seu sorriso besta no logo após você me beijar ou da névoa espessa que se fazia em casa nesta época do ano. Gosto mesmo é das miudezas. Gosto mesmo desta minha realidade inventada que insisto em manter...

quinta-feira, julho 02, 2009

Gripe suína for dummies

Vem cá: se essa gripe não mata ninguém, porque existe tanto vuco-vuco por trás?

Bem, ESSA gripe AINDA não mata. Existem tipos de gripe com mortalidade em torno de 30 - 50%. Toda vigilância serve para monitorar se / quando algo vai sair dos conformes. Porque, com tanto vírus rodando por aí, se ele sofrer uma mutação caprichosa, daí podemos ter uma gripe com mortalidade considerável. Nunca é demais dizer: a epidemia de gripe espanhola foi dividida em três fases. A primeira não matou ninguém, a segunda levou 20% da população.

Então, eu vou morrer?

Não. Vigilância serve mesmo para isso. Por enquanto, a taxa de mortalidade é baixíssima, menor que 0,1%. O problema é só para extremos de idade e portadores de comorbidades prévias, que sempre foram a população de risco para doenças virais respiratórias.

Tudo bem. Se eu tiver sintomas, corro para o hospital?

Depende. Se você não tiver febre, nem adianta levantar a bunda gripada da cadeira. Um dos critérios maiores para você suspeitar de H1N1 é febre. Também é preciso apresentar tosse e/ou dor de garganta.

Ok. Estou me sentindo assim. Corro para o hospital?

Depende. A última coisa necessária para a suspeita de H1N1 é algum vínculo epidemiológico, isto é: que você tenha contato com algum caso suspeito / confirmado ou vindo de regiões aonde a gripe está presente (no momento, mais de 120 paíeses incluindo Antilhas Holandesas, Fiji, etc).

Meu vizinho está doente, gripado. Vale?

Se ele não tiver histórico epidemiológico, não. Permaneça com a bunda gripada na cadeira.

Mas eu ando de metrô, vou ao cinema, etc. Se essa gripe está em todo lugar, como o Jornal Nacional fala, com certeza eu vou pegar!

O Ministério da Saúde ainda não considera que esteja tendo transmissão sustentada, ou seja, transmissão sem proximidade com caso suspeito ou confirmado ou do exterior.

Entrei em contato com algum casos suspeito / confirmado ou acabei de chegar do exterior. Não apresento sintoma nenhum. Preciso ir ao hospital?

Não. As orientações só valem para quem tem sintomas. Se você não está gripado, pra que vai no hospital?

Ah, mas eu queria ir só para desencargo de consciência...

Acredite, numa lista de coisas que médicos odeiam atender, pessoas com sintomas flu-like (= gripais) está com certeza no top ten junto com bolas na garganta que sobem e descem, formigamento nas mãos, etc. Ninguém passa seis anos na faculdade para ficar perguntando: teve febre? Tá tossindo? Garganta tá doendo? Médicos, normalmente, gostam da ilusão de estarem realmente salvando vidas. Então, se você não apresenta sintomas, não sobrecarregue os hospitais que já estão sobrecarregados para você tirar uma dúvida, pedir exames, etc. Compreendido?

Qual hospital que eu vou?

Um decente, de preferência. Esqueça aquele hospital de convênio vagabundo que você tem, com um médico, provavelmente, sub-empregado, recém-formado e sem residência. Veja a lista dos hospitais referenciados e vá em algum deles. Pelo menos eles tem discernimento e informação para conduzir seu caso suspeito de uma forma correta e sem muitos atropelos.

Mas eu sou chique, vou lá no Einstein, no Sírio...

Vai mesmo, dou todo o apoio. Só que aposto que lá está tão pandemônio quanto os públicos. Pelo menos, lá tem máquina de café e os funcionários fingem que se importam com suas reclamações de "tá demorando" e etc.

E o tratamento?

É com Tamiflu, um antiviral. Só está indicado para pacientes que possuem fatores de risco para evoluirem para um quadro mais grave.

Eu quero tomar. E aí?

Não pode, se não tiver indicação.

Mas eu sou chique, posso comprar. E aí?

Se fudeu. Devido a babacas como você, que tomam desnecessariamente o remédio e fazem pressão seletiva para o vírus ficar resistente a uma das poucas medicações disponíveis, o governo controla todo o estoque do Tamiflu. Ou seja, só toma quem o médico quiser.

Tá bom, vou conseguir no mercado negro...

Tudo bem. Mas tome antes de 48 horas do início dos sintomas, senão não serve para nada.

E o exame? Tô querendo fazer só pra saber se peguei isso...

Bem, também só faz o exame quem é considerado caso suspeito. O exame não está sendo feito de rotina. E antes que você pergunte, nem no Fleury você consegue isso "particular". Só poucos laboratórios credenciados de referência estão fazendo os exames.

Poucos laboratórios? Mas isso tá dando certo?

Não exatamente... Mas enfim.

Tudo bem. Entrei em contato com alguém suspeito que foi posto em quarentena. São quatro horas da manhã. Corro para o hospital?

Para isso e para qualquer coisa que você, por vez, sinta: ir a noite no hospital é só em caso de urgência. Médicos, não raro, já estão deveras mal-humorados após as onze horas da noite. Nem acham muito ruim de atender coisas urgentes, tipo infarto, derrame, parada cardíaca. Agora, nem tente se consultar por conta de uma gripe no horário pouco cristão após a meia-noite. Médicos tem técnicas sádicas de fazer o paciente se arrepender por tê-los aborrecido por bobagens fora de hora. Se você estiver espumando pela boca, os lábios estiverem azuis, daí a coisa é completamente diferente. Até mesmo porque, como falei acima, esta gripe raramente pode causar casos graves.

E...

Última coisa, sobre contato. Considera-se contato aquele indivíduo que você conversou a até um metro de distância. O vírus se propaga por aerossol na saliva e não costuma ir muito além desta imensa distância. Por isso, aquele seu coleguinha do andar de cima que está em isolamento e você nunca viu na vida, pouco provavelmente transmitirá a gripe para você.

Mas estou com medo, quero andar de máscara. Posso?

Lógico que pode. Mas é desnecessário, sem contar que é ridículo. A máscara cirúrgica funciona bem por intervalos curtos de tempo e para evitar contatos rápidos, mas ela não barra com tanta eficácia se utilizada por longos períodos.

Ainda estou com medo... Posso te fazer uma pergunta reservadamente, tipo na caixa de comentários aqui embaixo? Ou no Orkut? Ou no Twitter?

Não. Já me basta estar dentro do olho do furacão desta bendita pandemia somente pelo duvidoso prazer acadêmico, sem nenhum adicional financeiro. Se está realmente com dúvida, entre no site do Ministério da Saúde, do CVE, joga no Google, se vira nos trinta. Só não venha me encher o saco, pois não aguento mais falar sobre febres e corizas depois de doze longas horas ininterruptas fazendo isto no hospital.

Ah, mas larga de ser grosso. Você é médico, seu dever é proteger a população e etc...

[conversa com a minha mão]

quinta-feira, junho 25, 2009

Contardo Calligaris hoje, na folha

"Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras"

"Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia"

Quem identificou, levanta a mão e bate aqui: __________

(PS - em breve, bem breve, mudança editorial no blog. Aguardem)

sexta-feira, junho 19, 2009

Pois é...

(...)

Vou aqui, acender o terceiro e último cigarro. Apago a luz e ficarei observando a brasa, queimando lenta. Sentindo esse entorpecimento bom, que basta por hoje. Ainda não sei o que construirei destas suas ausências, destes espaços que, sem querer, você se coloca...

Canto junto: avisa que é de se entregar o viver. Não me consola, mas é o que basta nesta noite fria, tão fria...

quarta-feira, junho 17, 2009

Num domingo provável

Chego junto com as primeiras luzes do dia, olheiras nada discretas, com o frio de lá fora preso nas pontas dos dedos. Entreabro a porta, fazendo anteparo para não deixar muita luz entrar. Tiro a roupa devagar e me enfio debaixo do edredon num esforço quase hercúleo para não te acordar. Só que esqueço do seu sono leve, você desperta a termo de me perguntar: "Como foi seu dia?". "Longo", respondo. E sorrio. Daí você me abraça, encaixa minha cabeça no seu braço, tipo travesseiro. Tão pecado, logo domingo, estarmos acordados às sete da madrugada. E adormeço.

O sono é confuso, afinal, o sono da manhã nunca é tão repousante. Nos flashes que tenho, só reconheço coisas vagas ao longe: às vezes parece bossa nova, às vezes parece qualquer coisa brit-rock. Você não está na cama, presumo pelo vazio grande ao meu lado. Falta energia para sair, então deixo-me ir ficando na preguiça destes dias tão raros de folga. Até que, entre cochilos, sou acordado às lambidas pelo schnauzer mais lindo do mundo. Numa das vezes em que você veio velar meu sono, esquecera a porta aberta. Ainda demoro minutos, espreguiço-me longo pra começar o dia. Ao sair da cama, pego o cachorro de surpresa e murmuro baixinho: "Que seja doce, sete vezes". E levanto.

Atravesso o quarto meio zumbi, cabelo vergonhosamente desgrenhado, chego a sala e você não está. A música permanece, abafada pela porta trancada. Ainda tento girar a maçaneta e você me manda embora, pra não estragar a surpresa. Gosto de surpresas, sorrio. Refaço o caminho, tiro toda roupa numa hesitação monstruosa e entro no chuveiro. Água quente, para dilatar todos os poros. O banho é premeditadamente demorado, fico vigiando a porta na esperança de você entrar. Nada acontece, mas não me aborreço. Troco-me, coloco uma polo branca que gosto tanto, aparo a barba deixando-a estrategicamente desleixada, roubo seu perfume para sair cheirando pimentas pretas. Quando chego a sala, tudo parece cheirar o mar. Da cozinha, cantam sobre o Corcovado, o Redentor, que lindo. A porta está aberta.

Te abraço pela cintura, antes de você perceber minha chegada. Roço a barba devagar naquele canto esquecido perto da orelha: é minha forma silenciosa de te dizer boa tarde. Na panela, ainda borbulhando, são polvos. Reclamo que, pra mim, minha parte predileta nos polvos são aquelas ventosas grudentinhas que ficam na boca e a gente tem que ficar mastigando mastigando tipo chiclete sem gosto e você sorri e me empurra na parede dá dois beijos desliga o fogo quase deixa o prato cair e daí me abraça forte com a mão escapando até minha nuca e me afaga tão ternamente que suspiro porque eu gosto tanto do seu jeito de me adular e daí de repente penso que sou feito de milhares de moléculas e fico com medo de sei lá derreter pelo chão meio Céline meio Jesse tão tonto dessa vertigem que estamos sentindo...

E decidimos almoçar embolados um no outro, jogados no sofá. Só levanto para pegar o edredon azul, confirmando a frialdade do dia. Mas há a pimenta, há seu corpo quente que não deixa a temperatura cair. Não há muito o que fazer, a tarde quase faz a curva rumo a noite: decidimos nada fazer além, neste dia tão preguiçoso. Estouramos pipoca, lambuzo tudo de ketchup de baixa qualidade. Vemos um filme bom, outro divertido, zapeamos pela depressão domingueira da TV aberta. Numa propaganda de Sonho de Valsa, Amarante canta "ain't no lover like the one i've got". Lá fora, o leão já começa a rugir. E como ainda não me acostumo com essas selvagerias, dou um pulo de leve. Você vê, ri e me abraça. Perco o equilíbrio, caio do sofá e você cai junto, em solidariedade sincera.Percebo que você não tira os olhos de mim e a recíproca é verdadeira. Ficamos ali, no tapete, por um tempo indefinido: podiam ser minutos ou dias, talvez semanas, sei lá.

Penso em tantas coisas, tantos quereres. Em como quero te guiar pelos meus silêncios e pecados, todas as minhas idiossincrasias. Queria te mostrar meu mundo imperfeito, a tatuagem que planejo fazer, conhecer Praga e tomar um banho de mar contigo. A beleza em dividir essas cotidianidades banais, às vezes até fúteis, mas para devagar construirmos nossa compreensão silenciosa. A Lua agora sobe, iluminando pouca coisa além de nossas sombras. Dá vontade de ficar para sempre neste magnetismo tão bom...

terça-feira, junho 02, 2009

The Turning Point

Foi quando saí de casa, nestes dias de despedida destas ruas tão familiares que percebi: o ônibus não estava mais lá. Se foi vendido, se foi roubado, se foi levado para uma road-tripping pelo mundo, não sei. Só sorri, da coinciência da data: fazem seis meses, não?


Fiz as contas, para ter certeza do fato. Porque, afinal, já era tempo de tirar os panos de luto da janela, botar aquela velha caixa correnteza abaixo e seguir em frente, bambo e torto com a sombrinha na mão. Pela cidade vejo pessoas vendendo morangos, penso em Clarice. Volto nestes ônibus tão cheios, me apoiado na barra enquanto o veículo desliza pelo caos da cidade e lembro que tenho trabalhado tanto, pensando em Caio Fernando.


Sem perceber, as coisas acontecem. Faço o balanço dos dias e nunca foram tão plenos. O esforço frutifica, a vida parece que se encaixa numa loucura silenciosa. Quando penso que seria tudo só ladeira abaixo, só suor e sangue: há essa beleza tão working-class de se sentir pleno com o que se faz.


O coração nunca permanece vazio. Mesmo quando negligencio, desatento, sou pego de susto: há sempre uma história que acontece inesperadamente. Dessas cinematográficas, que valeriam um curta nestes últimos dias de outono tão iluminados. E mesmo que elas me deixem no mesmo lugar, há essa energia boa do acontecimento, da possibilidade. E de vivê-las, reencontrar-me novamente bonito e valorizado no espelho do outro. E de me ver assim, tão iluminado novamente, aprumar a coluna, quem sabe até comprar aquele perfume de pimentas pretas? Quem sabe, até fazer aquela tatuagem...


Sampa segue gélida, nestes últimos dias de outono. Os dias carregados de tanta luz que até doem. As felicidades são telegráficas e há promessa de coisas melhores por vir. Veja lá, voltei a ser a Pollyana surtada? Não sei. Só sei que é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê...

quinta-feira, maio 28, 2009

Réquiem, o final

Quinta-feira, tarde - Subo a minha ladeira habitual, caminho de sempre para casa. O dia é nublado, daqueles de gelar a ponta do nariz. Meus prediletos. Vou escutando Tiê, aliás, havia escutado Tiê o dia inteiro e cantando meio que em prece íntima: "Fica feliz que vai funcionar". Dizem que funciona, dizem que parece comigo. Suspiro, nestes dias confusos: que seja doce. E o telefone toca, atendo direto no fone. Surpreendo-me com a voz doutro lado da linha. Você diz: "Gabri (gosto disso, só você no mundo que me chama de Gabri), eu voltei. Disse que voltaria. É a última vez que estou aqui em Sampa no ano, gostaria de te ver". Digo irresponsabilidades reflexas: "Lógico, sim, vamos. Tenho aniversário, amanhã de plantão em Santo André. Mas damos um jeito, beijo". E ali, na solidão de uma grande avenida paulistana, coberto pela neblina tóxica de monóxido de carbono tão típica nestes dias de inversão térmica, mando uma mensagem desesperada para minha amiga-bossa-nova: "E agora? E o coração, onde é que fica?".

Porque, eu já sabia, que aquele seria o início do fim...

Sexta, almoço - Marco com um novo amigo aqueles almoços executivos: comer não importa, o que importa é o que se discute. E daí resolvi trazer minhas migalhas de amor. Contei-lhe toda história: minha primeira noite em Sampa, da minha semelhança com Rob Thomas, a viagem para além do Trópico de Capricórnio para, sei lá, procurar o algo que faltava. Dei a ênfase nas reticências, nessa relação estranha que se criou entre nós, mesmo que pautada em nossos breves encontros e histórias similares. Meu amigo, de repente, deu uma risada boa e disse: poxa, parece Antes do Amanhecer. Sou eu quem sorrio, em seguida. Ele tinha entendido o ponto. E me perguntou em seguida: "Mas porque você não bota as cartas na mesa? Porque você não diz que essa história de seu-amigo-o-caralho, te quero mesmo na minha cama entre edredons?".

"O difícil é ter cultivado uma história tão legal, tão bonita e ver tudo esfarelar sob a luz da realidade. Ainda não sei se quero abrir mão dessa minha historinha de amor romantizada. Lá no fundo, tenho a ilusão de que, sei lá, daqui seis meses quem sabe. Porque esse é o último amor platônico que tenho. Não é fácil abrir mão de uma ilusão que gosto de lembrar vez por mês, acariciá-la com zelo e colocá-la na prateleira das minhas coisas belas pra cair na solidão desse mundo imenso, vasto e irritantemente palpável. Gosto de viver essa minha realidade inventada. Não queria perder algo descobrindo que eu nunca tive, entende? É difícil..."

(continua..)

domingo, maio 24, 2009

Sobre mortes (sem culpa, vejam só), parte 2

"E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade..."
(meu bom e velho Vininha)

Aquela era uma época sem culpa, sem pecados. Me lembro: vago 2006, quando tudo era longe e difícil. Os amores eram vagas possibilidades, dispersos em centenas de quilômetros de distância. Poucas certezas, várias dúvidas: só um caminho aparecendo, várias risadas, diversões com poucas coisas.

Lembro-me dele. Meia dúzia de contatos, três vezes uma casa cedida naqueles dias de pouco dinheiro e muita esperança. Rafael era um rapaz doce, meigo, da minha altura. Compartilhava com ele essa sensação do corpo maior que o mundo, aprendendo a lidar com braços tão grandes e peito tão aberto. Conheci seu irmão, conheci tantas fotos na parede de pessoas felizes. Morava na cidade vizinha de meus avós e todas as vezes, naqueles natais longos e sem perspectivas além, marcávamos um encontro na praça, pra tomar sorvete e etc, que nunca acabou acontecendo.

Fazia Odonto, mas queria Medicina. Lembro-me uma vez, conversando com ele numa noite regada a cerveja Ale, dividindo todas as intempéries do meio do curso. Contava coisas banais daquela época: livros absurdos, capítulos imensos, expectativas que não concretizavam. Da aridez de tanto tempo de dedicação sem nada em vista. Ele só me olhava, olhos sedentos. Dizia que os pais não o permitiam seguir outro rumo. E eu, de consolo até sincero, retrucava: também não sei se esse caminho era o que eu queria, o mais ensolarado.

Daí, o tempo. Dessas coisas concretas que vocês me vêem contando. Amores sem rumo, expectativas sem caminho. Assistir a tanta coisa que nunca imaginei ver. Ribeirão Preto virou terra distante, perdida num mar de lembranças ternas que guardo para mim. Seguimos o caminho.

Fael Loureiro se matou enforcado há um mês atrás, na terceira tentativa. Só na última teve sucesso. Foi encontrado quatro dias depois, quando a natureza, impacável, já seguia seu curso. Fiquei sabendo num telefonema de um grande amigo, estupefato pela gratuidade do fato. E ali, naquela noite fria, permaneci mastigando as lembranças, coisa que me é bem característica.

Não vou abusar dos clichês: não basta só acender uma vela e, catolicamente, rezar por qualquer tipo de redenção. Pouco o conhecia além daquelas noites que me pareciam vastas e tempestuosas. Porque, de fato, a notícia mexeu comigo. Compartilhava com ele alguns momentos iluminados e, com sua partida, pareceu que parte da minha história tinha ido embora. Mesmo que fosse pra encontrar, nesses esbarros providenciais da vida e dizer: sabe, naquele tempo, e se tivesse? Parece que aquele carinho todo fica sem ter pra onde escoar.

Penso agora nessa nossa solidão urbana, árida e difícil. Em todas essas noites que queimamos em trabalho árduo sem saber pra onde vai dar, ou jogando os dados na expectativa de compartilhar com alguém um pouco deste caos em que estamos imersos. Não que seja um caminho válido, mas: e se fosse eu? Se não bastasse o fim, nessa demora desumana em terem se apercebido da falta de alguém, da falta do toque um pouco mais demorado no ombro, na paciência silenciosa em verter nossas dores pequenos-burguesas que temos tanta vergonha de contar.

Hoje tomei um porre, voltei de metrô. No caminho longo que separa minha casa da estação, fumei três cigarros numa tristeza difícil. Vim contado os passos, iluminado pela brasa débil que acendia das minhas golfadas longas. Pensei em Fael quase todo tempo. No imerecimento da ocasião. Nas escolhas difíceis que tomamos, por vezes afastando do ponto que nos é confortável. E concluir, dentro de todo aprendizado o que Vinícius me disse: realmente não há muito o que dizer. Por isso temos braços longos para os adeuses...

E é preciso suportar. Mais que nunca, é preciso cantar. Aceitar o fato da vida injusta, das dificuldades que nos são impostas. De que, de uma forma irracional, há algo bom que nos espera na esquina da frente. Talvez a Mega Sena, talvez o amor brand-new soprando mansinho nos ouvidos, talvez aquela epifania que faça o click e bote tudo com um sentido.

E, iluminado por essa noite fria, penso em Bandeira. Meu Bandeira bom, que passou a vida esperando a tísica lhe carregar para a morte. De peito aberto, de alma lavada. Porque são tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz... E adormeço.

"Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação"

PS - as referências: Poema de Natal e Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Vinícius de Morais e Último Poema de Manuel Bandeira. E haja axé para todos nós.

sexta-feira, maio 15, 2009

Post 500

Há uma lembrança vívida dos meus primeiros anos de faculdade. Acidentalmente, tive que terminar um trabalho acadêmico (daqueles bem idiotas, lógico) num dos computadores do Hospital. Foi ali que assisti a solidão daqueles seres atarantados que atravessam corredores, sob aquela luz mortiça das lâmpadas brancas, meio-mortos-vivos de roupas verdes, meio bambos nos passos.


Lembrei disso ontem, às cinco da manhã, na Sala de Emergência de um hospital qualquer. Sabe, naquela prostituição da minha capacidade produtiva para comprar essas coisas fúteis da ganância inerente do mundo adulto. Um infarto do miocárdio, parede anterior extensa, paciente mal mal mal mal mal mal. UTI cheia, teria que me virar por duas horas enquanto o socorro não vinha. Lógico que deu vontade de sentar ao meio-fio, chorar cântaros e maldizer a má-sorte que me persegue nos últimos meses. Mas vá lá: pede estreptoquinase, manda pegar acesso, dá AAS, clopidogrel, liga o Tridil, sobre morfina, pega pressão, confere a troponina, roda outro eletrocardiograma. Vê que não dá certo: é preciso força, é preciso o desapego... Lá fora amanhece, tamborila uma garoa fina, do jeito que gosto. E ainda tem o trânsito medonho de volta pra Paulistânia...


***


Assim andam os dias: alucinantes, exaustivos. Há uma tranquilidade enganosa, de poucas responsabilidades strictu senso. Mas veja: tento fugir de um processo por negligência que definitivamente não mereço, até saber que fui intimado para depor, lá nos confins do interior, sobre um assalto que sofri há dois anos. Obviamente não fui informado a tempo. Sou avisado que aquele paciente falido e com linfoma desce ladeira abaixo na Semi-Intensiva, qual é o estadiamento mesmo? A memória falha. Daí tem que mudar de apê e existe toda preguiça do tempo inútil que isso irá custar. O vidro do passageiro do carro há meses permanece quebrado, minha mãe vocifera lá longe toda sorte de chantagens emocionais, vejo que já completo um mês dividindo meu minúsculo apartamento com minhas tias com o retorno, após vários anos, de qualquer coisa semelhante a dinâmica familiar. E dinâmica familiar não é, de todo, bom. Enfim, o amor novo cobra presença, manda mensagens, mas há uma preguiça... Falta paixão? Falta vontade de deslocar, fazer-acontecer, começar-de-novo. Descubro-me workaholic. Amanhã tem festa num puteiro na Augusta, why not? Daí vendo a alma pra trocar o plantão de domingo, sempre bom porre sem culpa num sábado, ainda mais naqueles em que você se propôs a estar em qualquer lugar do ABC, acordado às sete da madrugada. Checo mail, tem exposição na Oca de amigo querido fotógrafo até... domingo. Também tem aquele friamente mal educado, me cobrando o capítulo de síndromes ictero-hemorrágicas cujo prazo se estendeu até hoje. Confiro as mensagens: pagode na Atlética hoje, talvez vou se a garoa passar. Lá do Rio, recebo notícias doces: chego em Guarulhos às 05:40, o coração derrete naquelas expectativas... vocês sabem. Telefone toca: aquele paciente transplantado com varicela, parece que parece varicela. Concordo laconicamente, achando mezzo varicela, mas enfim. Existe aquela Lua absurda encimando o céu: cheia e apaixonada. Sigo em caminhos confusos iluminado por ela, laranja e tensa, quase arrebentando. Nestas horas Nara canta, presto atenção nos sambas e, especificamente, Meditação. Daí sinto faltas, assim, plurais. A mão coça em responder aquele mail, dizer umas nostalgias. Você se pergunta: para que mesmo? Masoquismo não vale, afinal, você passou da fase. Aquelas notícias da Carniceria não fizeram bem e por isso Cazuza martela nos sonhos e pesadelos: será que você ainda pensa em mim?

domingo, maio 10, 2009

Réquiem

"Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena"

(Caio Fernando Abreu, Cartas)

Pra te reencontrar no Skye, Sampa novamente se derretendo aos nossos pés. Naquele dia havia um frio cortante e uma vontade tanta de entrelaçar suas mãos com as minhas. Tão engraçado tanto tempo sem ver e essa identificação instantânea. Falamos de Medicina e bossa nova, viagens pela Europa e planos pro futuro. Falamos de cervejas e banalidades. Deixamos as meninas na Consolação e peguei a Rebouças para te deixar em casa. Você me abraça forte: "Deixa eu te dar um abraço Rob Thomas, estava com saudades". Sorrio, ternamente. Fome nem havia, só a vontade de deixar-se ficar mais um pouco na rua, mais um pouco dentro daquele magnetismo bom.


E num improvável McDonalds às três da manhã, quase soluço de amor contido.


***


Sempre esperei cinematografias. Sempre esperei aquela coisa Jesse e Céline, numa luz maravilhosa de outono ou também Carrie Bradshaw, último episódio.


Daí, me iludo. Quando vejo, já escrevi o roteiro de nosso amor idílico, quase patético, tão clichê. Recrio um universo edulcorado, em tons pastéis. Distorço idéias para encaixá-las na minha visão estreita de mundo. E não é assim. Você não é assim. Você nunca me prometeu qualquer tipo de salvação. Não me beijou na rodoviária, não me levou ao aeroporto. Nunca me disse que seremos tão felizes no futuro.

Sob a luz vacilante de um domingo gelado, à porta do meu prédio, você me disse: "Há tanto ainda para acontecer". Suspiro silenciosamente e concordo, há tanto... E fico esperando que você me diga: "We'll always have São Paulo".

E você não dirá. Hoje percebi, só hoje percebi: não dirá.

terça-feira, abril 28, 2009

Campos do Jordão

Canso-me do ócio, depois de rodar sem rumo por, seriam horas? Pego o carro, toca Nara em versões incrivelmente doces. O termômetro bate treze graus e caindo. Tomo rumo do hotel, para organizar o sem-planos de mais a noite. Estou cansado - dormi mal, aquele sono entrecortado de vários despertares - apesar do aquecedor, do edredon e da cama compartilhada. Sonhei com você, aliás, sonhei com milhares de coisas, também com você. Vou seguindo as alamedas de árvores amareladas, paralela à linha do trem. Nara canta Chico: "Levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos, o meu coração...".

Guardo o carro, entro no Hostel. Quatro beliches, sem aquecedor, lá no fundo buzinam numa alegria duvidosa: Corinthians venceu. Começo a ler aquele livro que hermanita me deu, até quando cita Copacabana e, caralho, não quero lembrar do Rio, não quero pensar em você. Resolvo dormir um pouco, sem banho, sem tirar o jeans, o crachá, nada.

Celular toca, desperto. Não preguei os olhos nem por cinco minutos. Não é convite prum porre, pruma suruba, nem velhos amigos contando novidades, nem velhos amores reclamando ausências. Nada digno de nota. Levanto, abro a janela. Lembro-me de um dia há muito tempo, na faculdade, quando tínhamos uma aula idiota de Biofísica e, tão desconhecidos, disse para garota ao lado: "Sabe, quando vejo essas árvores perdendo as folhas me dá uma melancolia". Foi assim que fiz uma das minhas melhores amigas. Queria ter contado isso para você. Tô melancólico, tô sem destino.

Levanto, me troco. Essa cidade me lembra você. Fecho os olhos num cenário imaginário: te trouxe comigo e, por isso, estamos naquela pousada com aquecedor. Chego do congresso cansado, mas com o coração a mil por hora das coisas que eu vi. Ando, profissionalmente, tão feliz sabe? Tomo um banho quente e demorado, lá fora batem nove graus. Visto minha jaqueta um pouco maior que o dono, você observa isso com uma ponta de sarcasmo. Ajeita meu cachecol numa atenção preocupada, desbagunça meu cabelo com dois sopros. Não me incomodo, as coisas que prendem minha atenção são outras. Saímos.

Ganhamos a rua coalhada de restaurantes, deixo você escolher. Falo do meu dia: meu chefe, agora presidente da associação, quer que eu organize um evento. Você pergunta: "como você vai dar conta?". "Não sei", tomando um gole de conhaque enquanto a comida não chega. Você me observa agora preocupado. "Ando trabalhando demais, eu sei. Mas vai dar tudo certo".

Celular toca, é Mateus chamando para qualquer coisa em Sampa. Digo que estou em Campos do Jordão, num congresso. "Com quem?". "Sozinho, mas a gente se arranja". Ele ri, eu rio. Desejo boa noite, os dedos doem um pouco. Estou no centro, a cidade está quase deserta. Custo a arrumar um lugar pra comprar uma cerveja (Baden Baden, me permitindo certos luxos), um maço de cigarros. Volto aos meus devaneios:

vou te falar dessa luz absurdamente linda de outono, desses dias gélidos e tão iluminados. Vou te dizendo coisas sem peso, planos vagos que vou te encaixando. Tem que ver o apê quando chegar em Sampa, vai comigo? Quero escolher nossa cama. Quero montar nosso lar. Quero dividir minha solidão atarantada segurando sua mão que é só aparentemente firme. Queria você.

E a bolha estoura.

A noite vai caindo, tão silenciosamente encoberta por uma neblina densa. Sete graus, diz o relógio. Os passos me levam até aquela linha do trem. Acendo um cigarro, pra ter algo pra preencher os dedos. As folhas secas estalam meus pés. Você não me amava, você não me amou. Tudo que tenho são este bocado de ilusões doloridas, que vou apertando em minhas mãos inábeis até que os dedos doam: esse frio, a ausência daquele magnetismo bom que sentia. Tão escuro que só vejo a brasa do cigarro que vagamente ilumina os trilhos, as árvores.

Vou-me deixando, esperando na linha do trem, sabe o que? Pera, lembro doutra viagem, doutra história dolorida que demorou para se esvair. De Fortaleza, escrevi a carta mais linda e desesperançosa que consegui. No meu trecho predileto, eu disse "doeu porque você deu conta de continuar a vida e eu permaneci uma ou duas estações depois do ponto em que nos separamos". E é mais ou menos por aí que estou.

Sozinho, esperando na linha do trem. Tá frio, já é tarde demais pra qualquer outra coisa. A estação é melancolicamente linda, mas não é disso que preciso. Não quero mais belezas, idílios, vivências romantizadas. Quero as dificuldades da vida real. Estou cansado das minhas ilusões, de me apegar a estas fagulhas enquanto a vida toda estoura lá fora. Que esse trem passe e me pegue, ou que ele me atropele e a coisa termine por aí. Grito qualquer coisa sem sentido, só para quebrar esse silêncio ensurdecedor.

Apago o cigarro, a cerveja acabou. Faço o que agora?