quarta-feira, dezembro 03, 2008

Memento mori

"Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte
— De repente nunca mais esperaremos.."
(Poema de Natal - Vinícius de Moraes)

É preciso muito axé e otimismo para atravessar novembro. Novembros, per se, são sempre horríveis: ano pesando nas costas, cansaço crônico, frustrações acumuladas pelo que ainda não foi feito - e dezembro, por definição, nunca é mês de se fazer alguma coisa. Mas este novembro bateu recordes. Foram cinco mortos, num universo de seis ou sete pacientes que cuidei no mês inteiro. Nenhum com muitas esperanças: metade com câncer metastático, naqueles casos em que você pensa duas vezes antes de desejar algo; outra metade com cirrose hepática terminal, cujo curso não é lá muito diferente.

Todos os dias foram de muito trabalho, muito cansaço: corre para cima pegando exames, corre para baixo adiantando laudos, uma espera lenta por uma melhora que custava a vir. Lembro que nestes dias de novembro, quando percebia o dia já havia feito a curva das quatro da tarde e aquele Sol morno e alaranjado já passava as janelas. Ao voltar pra casa, um sono pesado, quase sem sonhos - e pela manhã, o mesmo ciclo reiniciar...

Morreram um a um - engraçado, que longe das minhas mãos. Depois que troquei de estágio, ao passar dos dias, ficava sabendo que a condição de alguém havia deteriorado até que, alguns dias depois, viesse a morte. Ou, ao passar pelo Pronto Socorro, encontrava um deles, após uma semana de alta, voltando para ter o mesmo destino. Quando isso acontece uma vez ou duas, é até aceitável. Mas ali pelo quarto que morrera, as coisas começaram a pesar.

Confesso que minha frustração era nada altruísta: pelo meu fracasso. Por ser espectador do sofrimento alheio. Por ser jovem e ter que lidar com tudo isso. Por ter que, quase diariamente, aprender a aceitar minhas limitações. Por atravessar as portas daquele hospital e, vezenquando, acabar levando isso para dentro de casa, pelos jantares, pelos finais de semanas. Por já ter trocado dias ensolarados por outros tantos regados à suor & sangue.

"Memento mori", diziam meus professores, numa espécie de conselho sábio aos jovens médicos. Lembremos que não somos infalíveis. Somos frágeis, imperfeitos, tão falhos...

Quem me consola é Vinícius: "Não há muito o que dizer". Tive o consolo de um carinho terno nestes dias tão pesados. Sempre há a beleza nas pequenas coisas, a esperança. Aquele um que, contra todas as expectativas, se salvou. Sempre há a eterna capacidade humana de superação. Sempre há o mar...

E por isso, tão providencialmente, fui à Bahia...

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