quarta-feira, novembro 05, 2008

10 canções: #5 - Com açúcar, com afeto - Nara Leão

Era um daqueles inesperados sábados ensolarados em Sampa. E entre as compras do almoço e tomar o rumo de casa, porque não visitar uma velha amiga minha que você não conhece? Sim, claro, falei. E fomos.

Era um daqueles apartamentos térreos da Haddock Lobo, várias décadas de história. Ao contrário destas modernidades pré-moldadas e cubiculares, era um apartamento amplo: janelas largas, portas de correr, uma sala que quem sabe poderia até rolar uma festa confortável. Assim, do porte do meu sonho de consumo: confortável, meio kitsch, meio retrô, enterrado onde considero meu quinhão mais querido da Paulistânia.

Ao entrar, percebi a casa em completo desalinho. Dois vasos imensos com plantas mortas, várias folhas secas na sacada, três cinzeiros cheios até a boca, toda sorte de livros, roupas, pratos, copos, revistas, jornais, propagandas pelos cantos, pela mesa, pelo chão. Ela chegou à porta, umas olheiras imensas. Numa voz tão doce, sem maldade, murmurou: há três dias ele não vem pra casa. Sorriu, automática. E se a melancolia não fosse tão bela, ela até pareceria ridícula no papel de senhora de um lar abandonado. Mas, inesperadamente, achei que aquele ar insone lhe dava um briho diferente, até bonito. Sorri também.

Ela procurou algum rumo numa cozinha inabitável e saiu de lá com três xícaras de café forte na mão. Acendeu um cigarro, com um jeito de fumar demorado. Dizíamos coisas com uma empolgação sincera: almoço já já, sono dos justos, talvez cinema mais tarde - e ela concordava silenciosa, baixando a cabeça com displicência. Tentava ler os pensamentos: quantos sentimentos ela cozinharia ali, em fogo brando, esperando o retorno de alguém que sabe lá quando iria voltar?


Resignei-me, obviamente. Há pouco aprendi a guardar para mim meus julgamentos tendenciosos. Fitei o lustre enferrujado, disse umas três coisas bem humoradas, relatei minha inveja pelo apartamento amplo e aconchegante. Dei-lhe dois beijos estalados e um olhar logo, quisera eu que não fosse apiedado. E quando fechei a porta atrás de mim, fiquei com um vago gosto amargo na boca de perceber que os sonhos, ao poucos, podem desandar sem que nada possa ser feito. Ruindo, em doses dolorosamente homeopáticas.

Outras canções:

#4 - Kite - U2
#3 - Cotidiano número 2 - Vinícius de Moraes
#2 - Quando você passa - Sandy e Júnior
#1 - Na sua estante - Pitty

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