quarta-feira, outubro 01, 2008

Felicidade

"Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade" *
(Clarice Lispector)



Há tempos não escrevo, mas é porque estou por aí: vivendo. E, acreditem, viver toma tempo. E neste intervalo me permiti, vejam só, me desligar um pouco disso tudo. E ir vivendo, ir levando, ir seguindo num gerúndio leve de ações não interrompidas, pouco pensadas e automáticas.

Pois descobri hoje, enquanto organizava a casa em pequenos momentos, percebi a felicidade. E, pela primeira vez, ela vem num envelope fácil, sem muitos babados e descaminhos. Ela também chega neste gerúndio morno, quase sem esforço, quase por instinto.

E ela mora em tantos cantos sem que eu conscientemente perceba. Desde o ônibus azul que me carrega sem demora no ir e vir diário, na rotina do Hospital que corre sem esforço, de tanta gente que está longe sem deixar de estar sempre perto, de tanta gente perto virando próxima, das contas que se fecham pelo meu próprio esforço sem que nada tenha que se sacrificar, do alívio de estar satisfeito com que se tem e se bastar com isso.

E também de encontrar seus chinelos debaixo da cama, de chegar perto da porta e escutar o barulhinho de panela de pressão antes do primeiro giro da chave, de encontrar num olhar mais atento seus olhos tão postos em mim.


E ainda que eu tenha medo do futuro, que as coisas em casa continuem beirando o catastrófico, que a paz mundial seja um ideal longínquo e que pra vida arrebentar num carnaval falte um bocado bom: minha felicidade anda assim, linda e leve. Sem muitos subterfúgios ou atalhos. Como quem aprendesse, depois de tanto tempo de caminhos tortos, um jeito até certo de se caminhar...

Um comentário:

Leonardo R.J.Z. disse...

Muito bom!