sábado, outubro 04, 2008

A carta mais linda do mundo

Uberlândia, 11 de julho de 2003

Quando você disse: estou com vergonha e eu perguntei: de mim? foi porque me pareceu tão estranho que você pudesse ter vergonha de mim.

Ontem eu não queria dormir. Até que eu tinha sono, mas precisava pensar. Abri o maior dos sorrisos na frente do espelho (...) por causa da nossa conversa de cedo. As coisas que de repente fizeram sentido. Depois chorei, me senti caindo e tão pequena, como pular do bungee-jump mesmo. Porque eu soube, por um instante infindável, o tipo de dor que te fez chegar até mim. Até aquela situação "Os Normais" de depois da janta. Então ri de novo e me senti bem.

Me senti como se aquele momento único houvesse valido esse ano passado horrível inteiro. É até difícil de explicar, mas a idéia de certa forma se ajustou e, depois de um tempo, não se ajustou mais.

Eu não sabia o que você esperava de mim. Se você esperava algo. Se você queria alguém para conversar, para dividir, ou para saber a verdade simplesmente.

E vi que nada tinha mudado. Continuamos perdidos como estávamos. Tudo continua complicado ou só chato mesmo. Ainda não sabemos o que estamos fazendo aqui... E vi também que mudou tudo. Nada é como antes.

Agora eu sei algo de você que te fez diferente do como eu te via antes. Agora sei um pouco mais do verdadeiro Gabriel. E fiquei simplesmente feliz. (...)

Fazia tempo que ninguém me surpreendia, ninguém aparecia para mudar essa nossa visão de mundo estática.

Me senti como possuidora de coragem também. Eu, que sou tão medrosa. Fiquei tão orgulhosa de você que quis me cutucar um nas costelas e dizer: olha, é meu amigo.

Quis gritar para todo mundo e guardar só pra mim. Achei fantástico e diferente e simples. Achei que nos aproximamos um passo, cortando um vazio de palavras não ditas.

Tive que escrever porque pareço mais lógicoa quando escrevo. Faço mais sentido. Mas nem assim consegui me expressar direito.

Hoje quando acordei consegui levantar da cama sem nenhum esforço. Todas as pessoas estavam dotadas do poder de ser únicars, do qual às vezes me esqueço.

E quando olhei pra você, ainda era o mesmo, mas meus olhos pareciam ver mais cores. Nada parece estranho mas tudo parece fora do lugar.

Sei que não fiz sentido, nem eu estou me entendendo. Acho que o que eu queria dizer é que ainda estamos como naquela foto que você me deu do Chaplin, parados e esperando, ligeiramente tristes e sem o que fazer, mas é como se estivéssemos sentados um pouco mais próximos e se eu esticar minha mão, agora eu sei, você consegue alcançar. Me trouxe o conforto da confiança.

(Maria Anita Silva Leite)

***

E sempre que releio essa carta, penso: o quanto mudamos, quanto continuamos os mesmos. E essa mobilidade, às vezes quase na velocidade dos continentes, às vezes tão célere quanto as rotações do mundo.

Um pouco melhores, sem deixarmos de sermos os mesmos.

E sorrio.

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