quinta-feira, outubro 23, 2008

Bad news, bad days

"Coisas ruins acontecem. E acho que a moral de hoje, lá na primeira fila daquele laboratório quente, com um cheiro levemente desagradavel de formol, a moral de hoje foi que somos frágeis. Mas infinitamente capazes de suportar. É o que quero acreditar agora. Que as pessoas seguem em frente. Que perdoam. Que esquecem. Quero acreditar que é possivel ser forte e ter pequenos momentos de felicidade no meio da dor"
(Maria Anita Silva Leite - dezembro/03)

Mas há a vida, que sempre dá um jeito de passar uma rasteira e dar aquele chute bem dado no baço. Desde coisas do banco até coisas do hospital.

Os últimos dias têm sido inesperadamente difíceis, querida. Dividi a enfermaria de Gastroenterologia com meu amigo-futuro-oncologista de uma forma justa: fiquei com todos os cirróticos, ele ficou com todos os oncológicos. Pensei que seria fácil, academicamente interessante, essas coisas de residente empolgado. Mas algo aconteceu.

Tenho dado só más notícias, algumas em porcentagem: sua chance de morrer em 1 ano é de 80%. E, sem querer, me pego dando uma ênfase sádica no oi-ten-ta para ver se trago as pessoas para realidade. Cirrose mata tanto e ninguém sabe. Os parentes me perguntam se a barriga irá murchar, as pernas desincharem, às vezes se até daria pruma extravagância sabe doutor? Digo que não, não vai voltar, ninguém irá melhorar, dali pra frente era só ladeira abaixo. Morrendo com 30 litros na barriga, tendo que cagar 3 vezes ao dia pra manter o mínimo de sanidade mental. Pra dizer que todo tratamento é paliativo se não houver transplante e transplante é uma ilusão tão distante neste nosso país tão pobre...

E canso. E quando chego em casa, sinto um fardo imenso que não consigo dividir direito. Meio que maldição de Cassandra, de saber o futuro sem nada poder fazer. Revejo aquele distante 2003, nos primeiros bancos da Patologia, encarando a morte com olhos assustadiços. Sabendo que, a cada segundo, uma célula do seu corpo pode se rebelar contra todo o organismo ou um vírus pode subverter toda a ordem estabelecidas. Somos tão frágeis e a vida é tão randômica. E se a dor antes era contemplativa, agora elas tem nome, te oferecem pães de queijo, tem filhos e até uns planos pro futuro.

E por mais que saiba que, de uma forma ou de outra esse é o caminho inexorável das coisas: dos cirróticos, os dialíticos, da jovem garota baleada pelo namorado - nossa finitude não me consola. E às vezes, minha amiga, não dá pra segurar.

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