quarta-feira, agosto 13, 2008

Last call

Não, não liguei porque pensei que não havia nada para falar - acho que nunca tive o jeito de dizer 'eu te amo' sem senti-lo de verdade. Não liguei também porque estou me dando ao direito de permanecer numa covardia ligeiramente agressiva, por mais que esta seja apenas outra forma diferente de se focar em auto-proteção.

O que abriu outra brecha para o retorno de um Iraque emocional: e escutar, de brinde, toda sorte de palavras duras e ásperas. De confrontar com o fato de que meus pais também são dolorosamente imperfeitos e carregados de mágoas. E que, nem o tempo e todo caminhão de boas intenções do mundo, talvez sirvam para remediar a situação.

Desliguei o telefone, para ligar "Wise Up" no último volume. E chorei. Umas poucas lágrimas sofridas, em conta-gotas. Nada mais patético do que um choro envergonhado, quase madrugada de terça-feira. Olho pela janela e contemplo uma Sampa sem estrelas, com céu só iluminado pelo reflexo das luzes incandescentes na poluição que impera.

Devaneio sonos pesados, 15 comprimidos de Diazepan/dia depois de um copo de whiskey cowboy, ir tocando a vida sob a égide do menor esforço. E depois, quem sabe Londres ou Paris, quem sabe Praga ou Bancoc, ou um atol encravado no meio do Pacífico entre navios submersos e areia clara - qualquer coisa que envolva um oceano de distância e ausência desta ciranda de emoções cíclicas de paz & guerra. E bye, bye, so long, see you later, vou ver a vida sobre as ondas.

Mas não posso. Sei que não posso. Na mesma madrugada escutei o sábio conselho de que os próximos dias serão de intensa preparação. Uma coisa meio zen de finalmente reconhecer os limites e se fortalecer para a jornada que virá: longa, dolorosa e aparentemente inevitável. Re-juntar os cacos, para se encaixar num mosaico que fica cada vez mais lindo. Porque sei que nestes processos de descontrução e reconstrução, o que fica é cada vez mais sólido e certeiro. De consolo, também recebo uns afagos telegráficos e nesse processo de sentir-se-ainda-amado, ir sobrevivendo.

E, por mais incrível que pareça: carregado de esperança.

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