quinta-feira, agosto 07, 2008

#1 - My Blueberry Nights

"There's nothing wrong with the blueberry pie. Just... People make other choices. You can't blame the blueberry pie, just... No one wants it"
(Jeremy - My Blueberry Nights)

Toda semana eu repetiria a mesma cena. Enquanto subiria a Augusta, religiosamente às quintas-feiras, meus passos sempre me levariam a sua loja. Nada muito chique ou grandioso - penso numa vidraça, daquelas foscas que até permitem ver o que se passa por dentro e um neon vagabundo na porta. Seria atraído pela primeira vez magnetizado, como uma mosca, pelo brilho vago refletindo em meu All Star vagamente branco àquela hora da noite. Estaria, toda noite, visivelmente embriagado: desta minha necessidade auto-destrutiva em afogar o super-ego para tornar a existência um pouco mais palatável por algumas horas. E lá ficaria, nestes sombrios tempos de Lei Seca, até a hora do Metrô passar.

Veja que, de início, você só me olharia com olhar de desagravo. Sutil, porém lamentando a sorte de alguém aparentemente bem nascido, vagamente interessante, que joga sua sorte toda semana entre luzes estroboscópicas e música alta. Mas sempre sua loja estaria deserta e você seria o meu refém, enquanto beberia a saideira e vagaria de torta em torta, até descobrir a doçura da blueberry.

Mas só chegaríamos a blueberry depois de algum tempo. Acho que só largaríamos a relação, digamos, profissional, num dia que as caixas de som tocassem qualquer bossa-nova-dor-de-cotovelo-que-falasse-de-solidão e você ameaçasse trocar a estação. Eu pediria: "Deixa, deixa". Surpreso, você me fitaria com olhos além: da minha leviandade, da minha superficialidade e da minha insistência em parecer mais alguém comum.

Conversaríamos coisas triviais toda semana, num mesmo ritual: enquanto subia a Augusta fumando o último cigarro, você me esperaria naquela hora perigosa. E já sabendo, mesmo inconsciente, já selecionaria toda dor que a bossa nova pode proporcionar. Na minha chegada, pediria um conhaque e você já traria a blueberry de brinde: "Vai, come, senão estraga. E não demore, pois o Metrô já vai passar". E, ali pela terceira visita, já saberia que de todas, minha predileta era Nara Leão.

Contaria primeiro relatos pormenorizados das noites suadas e quentes. Um a um, pequenas conquistas: naquela semana, um advogado recém-formado de pele bem alva. Na outra, um designer de barba mal-feita, que há três meses havia largado tudo para trás numa viagem à Patagônia. Depois, um ator de musicais, que entre bebericações e cantadas me arrancaria risos num dueto improvável de Moulin Rouge. E, conforme nosso nível de intimidade fosse crescendo, detalharia minhas pequenas devassidões, como troféus.

Noite após noite você me escutaria paciente, num ligeiro olhar de desagravo que eu demoraria a perceber. Mas você não me censuraria hora alguma: só levaria a conversa em tom grave, às vezes divertido, às vezes jocoso, às vezes falsamente moralista evocando qualquer resquício de minhas culpinhas católicas. Até, certa vez, me pediria: "Não troca seu conhaque por cerveja? É que cerveja até posso te acompanhar, assim, copo ou outro". E trocaria, para bebermos juntos só a última cerveja - num sambinha agora mais alegre - só enquanto o Metrô não vem.

Até que uma noite dessas, acho que entre o desocupado-meio-traficante, o publicitário que queria ser cineasta ou o gringo numa fase "On The Road", não lembro: entraria na loja, pediria conhaque, pediria Nara Leão. E antes de você me chamar de biscate em tom afetado: uma forma carinhosa de me dizer boa noite, eu já dispararia à queima-roupa: "Mas não quero saber, hoje vou fumar aqui dentro". Você só sorriria, numa compreensão muda. Pegaria dois copos e encheria o meu até a boca - e o seu, pouco mais da metade. Logo de saída, tocaria Mágoa, do Tom, mas na doçura cândida e cortante de Nara:

"Você me olhou
Sorriu com tanta ternura
Que eu descobri
Em você uma nova razão
Comovido fiquei
E beijei sua mão
Quis falar de amor
Você disse que não"

Tragaria fundo, oferecendo-lhe o cigarro em seguida. Em resposta: "Já perdi há tempos esse jeito de fumar. Mas vá, fume". Faria o mesmo ritual da blueberry, numa fatia anormalmente generosa. E, pela primeira vez, te observaria com olhos quase marejados: naquele estado quase virando a curva dos trinta anos, um jeito pretensiosamente despreocupado - barba por fazer, cabelo sem pentear. Uma atenção zelosa em manter aquele balcão sempre imaculado, como se acabasse de abrir. Duas paisagens, uma reprodução de Keith Haring e uma foto antiga de Nova York em tempo mais iluminados na parede. Tudo isso iluminado parcamente pelo neon verde do letreiro e algumas luminárias que desciam, pendendo do teto...

(continua)

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