segunda-feira, agosto 25, 2008

#2 - My blueberry nights

"Foi quando segui para mais outra noite daquelas. Aparei a barba com o esmero habitual, para depois me fitar longamente ao espelho murmurando baixinho "estou tão lindo, tão lindo". Calcei o velho All Star encardido de tanto uso, o perfume ligeiramente cítrico, baguncei o cabelo para ficar intencionalmente despretencioso. E fui. E quando cheguei lá, nada havia de diferente. As mesmas pessoas, as mesmas luzes, as mesmas esperanças tolas. Mas, ali pela terceira cerveja e várias voltas pelo recinto, bateu um cansaço. Não físico, não mental... Só um cansaço. Porque, quando vi, estava vendo diversas pessoas fantásticas e fascinantes com as quais já havia me relacionado por uma noite ou três dias ou uma semana, o tempo não importa, mas depois de um sexo usualmente razoável, dois cafés e um jantar - haviam sumido. Ou também, como não sou santo, também sumir. Às vezes com uma justificativa razoável, outras com um clichê: sempre alguma menção sobre já ter sido dangerizado por alguma relação que passou, ter gastado tanto tempo que posteriormente se revelou inútil numa pessoa, ou mesmo o hedonismo puro e simples de todo dia. E ali, naquele momento, conclui que grande parte deles eram pessoas que valiam uma viagem compartilhada, um desencontro estratégico. Uma conversa longa sobre pontos de vista e experiências a trocar. Talvez, se tivessem os conhecido na fila do pão ou num trem da Europa. Talvez, se estivesse um bocado mais atento. E ali, naquele inútil exercício do talvez, embora tão lindo e seguro e altivo e suficientemente desejável: pareceu que a graça se estourou como uma bolha de sabão, clack! e ficassem os restos. E daí pensei na repetições de noites que eu teoricamente estaria condenado - porque de repente conclui que nada sabia além daquelas paredes escuras, das fumaças tóxicas dos tantos cigarros fumados, nunca havia procurado nada fora daquele cercado iluminado. Lá no fundo, eu também sou refém destas esperanças tolas. Toda noite, eu me preparava para que fosse a última. Com todo esmero, com todo encanto. E quando tocasse a música do clímax, no fundo de toda aquela escuridão: qualquer coisa me iluminasse e alguém me dissesse: vamos? E eu fosse..."

sexta-feira, agosto 15, 2008

Na cabeceira

"E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar"
(Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo)

quarta-feira, agosto 13, 2008

Last call

Não, não liguei porque pensei que não havia nada para falar - acho que nunca tive o jeito de dizer 'eu te amo' sem senti-lo de verdade. Não liguei também porque estou me dando ao direito de permanecer numa covardia ligeiramente agressiva, por mais que esta seja apenas outra forma diferente de se focar em auto-proteção.

O que abriu outra brecha para o retorno de um Iraque emocional: e escutar, de brinde, toda sorte de palavras duras e ásperas. De confrontar com o fato de que meus pais também são dolorosamente imperfeitos e carregados de mágoas. E que, nem o tempo e todo caminhão de boas intenções do mundo, talvez sirvam para remediar a situação.

Desliguei o telefone, para ligar "Wise Up" no último volume. E chorei. Umas poucas lágrimas sofridas, em conta-gotas. Nada mais patético do que um choro envergonhado, quase madrugada de terça-feira. Olho pela janela e contemplo uma Sampa sem estrelas, com céu só iluminado pelo reflexo das luzes incandescentes na poluição que impera.

Devaneio sonos pesados, 15 comprimidos de Diazepan/dia depois de um copo de whiskey cowboy, ir tocando a vida sob a égide do menor esforço. E depois, quem sabe Londres ou Paris, quem sabe Praga ou Bancoc, ou um atol encravado no meio do Pacífico entre navios submersos e areia clara - qualquer coisa que envolva um oceano de distância e ausência desta ciranda de emoções cíclicas de paz & guerra. E bye, bye, so long, see you later, vou ver a vida sobre as ondas.

Mas não posso. Sei que não posso. Na mesma madrugada escutei o sábio conselho de que os próximos dias serão de intensa preparação. Uma coisa meio zen de finalmente reconhecer os limites e se fortalecer para a jornada que virá: longa, dolorosa e aparentemente inevitável. Re-juntar os cacos, para se encaixar num mosaico que fica cada vez mais lindo. Porque sei que nestes processos de descontrução e reconstrução, o que fica é cada vez mais sólido e certeiro. De consolo, também recebo uns afagos telegráficos e nesse processo de sentir-se-ainda-amado, ir sobrevivendo.

E, por mais incrível que pareça: carregado de esperança.

quinta-feira, agosto 07, 2008

#1 - My Blueberry Nights

"There's nothing wrong with the blueberry pie. Just... People make other choices. You can't blame the blueberry pie, just... No one wants it"
(Jeremy - My Blueberry Nights)

Toda semana eu repetiria a mesma cena. Enquanto subiria a Augusta, religiosamente às quintas-feiras, meus passos sempre me levariam a sua loja. Nada muito chique ou grandioso - penso numa vidraça, daquelas foscas que até permitem ver o que se passa por dentro e um neon vagabundo na porta. Seria atraído pela primeira vez magnetizado, como uma mosca, pelo brilho vago refletindo em meu All Star vagamente branco àquela hora da noite. Estaria, toda noite, visivelmente embriagado: desta minha necessidade auto-destrutiva em afogar o super-ego para tornar a existência um pouco mais palatável por algumas horas. E lá ficaria, nestes sombrios tempos de Lei Seca, até a hora do Metrô passar.

Veja que, de início, você só me olharia com olhar de desagravo. Sutil, porém lamentando a sorte de alguém aparentemente bem nascido, vagamente interessante, que joga sua sorte toda semana entre luzes estroboscópicas e música alta. Mas sempre sua loja estaria deserta e você seria o meu refém, enquanto beberia a saideira e vagaria de torta em torta, até descobrir a doçura da blueberry.

Mas só chegaríamos a blueberry depois de algum tempo. Acho que só largaríamos a relação, digamos, profissional, num dia que as caixas de som tocassem qualquer bossa-nova-dor-de-cotovelo-que-falasse-de-solidão e você ameaçasse trocar a estação. Eu pediria: "Deixa, deixa". Surpreso, você me fitaria com olhos além: da minha leviandade, da minha superficialidade e da minha insistência em parecer mais alguém comum.

Conversaríamos coisas triviais toda semana, num mesmo ritual: enquanto subia a Augusta fumando o último cigarro, você me esperaria naquela hora perigosa. E já sabendo, mesmo inconsciente, já selecionaria toda dor que a bossa nova pode proporcionar. Na minha chegada, pediria um conhaque e você já traria a blueberry de brinde: "Vai, come, senão estraga. E não demore, pois o Metrô já vai passar". E, ali pela terceira visita, já saberia que de todas, minha predileta era Nara Leão.

Contaria primeiro relatos pormenorizados das noites suadas e quentes. Um a um, pequenas conquistas: naquela semana, um advogado recém-formado de pele bem alva. Na outra, um designer de barba mal-feita, que há três meses havia largado tudo para trás numa viagem à Patagônia. Depois, um ator de musicais, que entre bebericações e cantadas me arrancaria risos num dueto improvável de Moulin Rouge. E, conforme nosso nível de intimidade fosse crescendo, detalharia minhas pequenas devassidões, como troféus.

Noite após noite você me escutaria paciente, num ligeiro olhar de desagravo que eu demoraria a perceber. Mas você não me censuraria hora alguma: só levaria a conversa em tom grave, às vezes divertido, às vezes jocoso, às vezes falsamente moralista evocando qualquer resquício de minhas culpinhas católicas. Até, certa vez, me pediria: "Não troca seu conhaque por cerveja? É que cerveja até posso te acompanhar, assim, copo ou outro". E trocaria, para bebermos juntos só a última cerveja - num sambinha agora mais alegre - só enquanto o Metrô não vem.

Até que uma noite dessas, acho que entre o desocupado-meio-traficante, o publicitário que queria ser cineasta ou o gringo numa fase "On The Road", não lembro: entraria na loja, pediria conhaque, pediria Nara Leão. E antes de você me chamar de biscate em tom afetado: uma forma carinhosa de me dizer boa noite, eu já dispararia à queima-roupa: "Mas não quero saber, hoje vou fumar aqui dentro". Você só sorriria, numa compreensão muda. Pegaria dois copos e encheria o meu até a boca - e o seu, pouco mais da metade. Logo de saída, tocaria Mágoa, do Tom, mas na doçura cândida e cortante de Nara:

"Você me olhou
Sorriu com tanta ternura
Que eu descobri
Em você uma nova razão
Comovido fiquei
E beijei sua mão
Quis falar de amor
Você disse que não"

Tragaria fundo, oferecendo-lhe o cigarro em seguida. Em resposta: "Já perdi há tempos esse jeito de fumar. Mas vá, fume". Faria o mesmo ritual da blueberry, numa fatia anormalmente generosa. E, pela primeira vez, te observaria com olhos quase marejados: naquele estado quase virando a curva dos trinta anos, um jeito pretensiosamente despreocupado - barba por fazer, cabelo sem pentear. Uma atenção zelosa em manter aquele balcão sempre imaculado, como se acabasse de abrir. Duas paisagens, uma reprodução de Keith Haring e uma foto antiga de Nova York em tempo mais iluminados na parede. Tudo isso iluminado parcamente pelo neon verde do letreiro e algumas luminárias que desciam, pendendo do teto...

(continua)

terça-feira, agosto 05, 2008

10 canções: #3 - Cotidiano número 2 - Vinícius e Toquinho

"Há dias que não sei o que se passa", canta Vinícius preguiçoso embalando o sexto mês de Paulistânia. E os dias se seguem sem muitas dores, sem muitos amores, sem muitas elocubrações. E é até bom.

Mas que isso não seja sinônimo de mediocridade ou mornidão. Tenho até vivido bem, poucas e boas. Algum dias de luxúria, outros de solidão. Não há semana que não passe sem um pouquinho de vida palpitando por estes caminhos tortos. A diferença é que as coisas passam, sem necessariamente serem marcantes. Tenho vivido, quase sem exceção, banalidades.

"Quem sabe nosso dia vai chegar", cantarolo junto fechando os olhos: porque tenho esperanças. Mas é uma esperança, confesso, um tanto confusa e sem pressa. Tenho aprendido a caminhar em silêncio e com vagar - respeitar o tempo das coisas, que insistem em não arrebentar em felicidade quando a gente mais precisa. Enquanto isso, vou desenhando figuras, talvez academia na semana que vem se a moleza passar, vendo filmes, ganhando dinheiro. Faço planos pouco imediatos e, o que espero deste ano longo e potencialmente complicado é que acabe de uma forma rápida e indolor.

"Aos sábados em casa tomo um porre / E sonho soluções fenomenais" , procurando novos sabores. Desde a vizinha Norteña, dos planos do Atacama. Desde permanecer na insistência mesmo sem fé alguma, com o nariz doendo das portas batidas na cara. Desde deixar as raízes fortificarem nesse solo tão concreto e deixar o passado passar sem novos sobressaltos. Desde ligar o foda-se pra viver de uma forma mais verdadeira.

E me deliciar com cada fracasso ou cada guinada que me leva a um novo caminho. Também aproveitar a beleza do desconhecido quando se perde ou até a imobilidade das longas horas travado nos engarrafamentos. Nestes dias de vias expressas imóveis ou trajetos de sinalização confusa, perceber que os caminhos são tão importantes que os destinos.

"Mas não tem nada, não / Tenho o meu violão", porque neste tempo todo percebi: nada preciso além de mim. Sem Pollyanices aqui: tão bem estou, tão bem vou. Tão bem me habituei a este cotidiano de caos, suor e sangue. Porque os dias seguem numa sucessão que só não é irritantemente comum pois não há nada mais lindo que um cotidiano que corre liso: entre altos e baixos, sem sobressaltos.