quinta-feira, julho 31, 2008

10 canções: #2 - Quando você passa - Sandy e Júnior

Foi só quando você disse: "Tchau, Rob", que senti aquele baque de montanha-russa - o estômago pesando ali pelas pontas dos dedos do pé. Até então, não havíamos navegado em águas perigosas. E não porque houvessem mágoas ou qualquer outro tipo de desgraça constrangedora: só porque naquele momento você estava namorando - e feliz, ao que constava; eu, de minha parte, tecnicamente namorando também - e também feliz, ao que constava.

Mas o fato é que na ponta da minha língua derretiam palavras do tipo: "Ah, te quero tanto, por favor, só por hoje, só por mais um dia". Pois sua lembrança nunca de todo me abandonou: percebia sua presença sempre constante quando naqueles momentos de vazio mental cantarolava sem perceber turu-turu-turu enquanto lavava as roupas ou atravessava uma Sampa pouco convidativa nos circulares da vida. Tão improvável que o marcante daqueles nossos dias de sol e sangue tão ensolarados tenham sido um DVD do Sandy e Júnior repetido à exaustão enquanto você preparava macarrão com brócolis para mim, acompanhados de boa cerveja e tantas identificações.

Só que 2008 havia me dado uma certa tranquilidade e temperança. Pois respirei fundo e continuamos trocando pontos comuns: eu te dizia que a vida não merecia ser levada tão à sério, que era importante vivê-la com vagar e parcimônia. Sem essas coisas de imediatismos yuppies ou sacrifícios desnecessários. Você me dizia para também ter paciência, confiar no bom-senso e aceitar que, certas coisas, só se conquistam com a compreensão alheia - e isso leva tempo. Trocávamos pequenas confidências como se não houvesse tido um gap de seis meses e mil quilômetros entre nós. Brilhávamos ali, entre farelos de pão e uma madrugada de segunda-feira que principiava.

Até o retorno, na porta de casa. E até então, na superficialidade de nossas dificuldades cotidianas - só tangenciando quando você confessou que tinha sido difícil me ver nos braços de outra pessoa, enquanto mentalmente calculava que tinha sido tão difícil me jogar nos braços de outra pessoa mesmo te vendo. Do abraço forte, você então disse: "Tchau, Rob".

"Rob Thomas?"

E você não disse nada. Você se abriu num sorriso imenso, derramando pelo canto dos lábios. E eu sorri também, pela memória resgatada: no nosso léxico de códigos, era sua maneira sutil de ainda me dizer "te acho lindo". E era só isso o que precisava escutar.

Turu-turu-turu, batia meu coração. Te beijei lentamente na testa, enquando acariciava seu cabelo que, lembro bem, parecia ruivo à luz do dia. Era nosso Casablanca, última cena. Você voltaria para abaixo do Trópico de Capricórnio, por mais ano-e-meio de suor e sofrimento. Eu permaneceria por aqui, também numa rotina semelhante de suor e sofrimento. E na promessa não dita do reencontro breve, dos caminhos que se reencontrarão. E para não pervertê-la, naquele carro e naquela madrugada que já ia alta, nada além poderia acontecer.

Por isso apertei sua mão tão forte e desci do carro, com coração pesado destas despedidas que sou tão acostumado a vivenciar. E, até hoje, nestes momentos solitários e vazios me pego cantando: turu-turu-turu só esperando, só esperando: que esteja tudo bem.

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