terça-feira, junho 24, 2008

Shortcuts aleatórios 2

Seis. Sou um ócio, uma distração - li nas suas entrelinhas, mas se fazer de sonso não exige muito preparo intelectual. Por isso, embarquei sem dó até o profundo da garganta caótica do caos paulistano só para te buscar no Paraíso (o bairro, não a instituição). Lá se foi uma hora a menos de vida entre buzinas e semáforos e pedestres e muito stress. Mas lá cheguei, te levei para casa, conversamos em silêncios longos e palavras medidas. Para perceber que depois de mais de três meses de vagas promessas e protocolos de boas intenções: tanto eu quanto você estávamos ali só para entender um passado comum, juntar as peças perdidas do quebra-cabeça. Necrópsia de sentimentos enterrados, tão somente - que não deram margem a nada além destes beijos mornos, mal-encaixados.

Sete. Sempre que desligo o telefone, ainda o seguro por alguns segundos. Você é doce, irresistivelmente doce. Percebo no seu olhar, nos seus gestos. Na preocupação distraída em deixar a casa em ordem, de me inserir de forma sutil em sua vida. E por mais que eu sorria meio besta enquanto sorrio ao escutar teu sotaque paulistano clássico: revejo Camille Claudel e essas ausências que não consigo explicar.

Oito. Ainda meio trôpego dos drinks que insistia em me dar (seria whisky com guaraná, tão Elis Regina? Não sei...), ainda meio zonzo de te reencontrar nestas conversas longas, tão cheias de curvas e, ao mesmo tempo, tão convergentes... Não, não havia calculado aquilo e agora estava com medo pois sabia que um passo além seriam abrir as comportas ou talvez mergulhar fundo num mar meio tropical cheio de peixes sem saber quão fundo é e de tanto pensar nestas coisas tolas enquanto Você passava do meu lado bati a cabeça na porta e daí você me abraçou longo longo longo até me pedir com mão escorregando na nuca: desculpa e eu não lembro acho que só acenei com a cabeça pra depois te apertar bem forte forte forte...

Oito e meio. "Se existe algum tipo de mágica nesse mundo, deve estar na tentativa de entender alguém compartilhando alguma coisa. É quase impossível conseguir, mas quem se importa? A resposta está na tentativa"
(Antes do Amanhecer)

terça-feira, junho 17, 2008

10 canções: #1 - Na Sua Estante - Pitty

Pois foi quando fuçando no baú dos mp3s antigos, reencontrei The Cure. E de todas as músicas tão perigosas, aquele verso tão cruel que me perseguiu por tanto tempo: "Three long years... and your favorite man...Is that anyway to say hello?*".

E na contabilidade dos calendário e não é que fiz a conta: três anos. Na verdade, três anos e mais um pouco, pois a data exata já havia passado faz algum tempo. Percebi pela associação inconsciente que fiz da sua presença e estes dias frios que principiam, doendo dedos e de respiração difícil.

Essa música, como tantas outras, eram tuas. Pequenas torturas, pequenos lembretes, pequenas pontuações sobre impossibilidades e covardias. E por abrir o armário de recordações, também vieram tantas outras lembranças dos caminhos em que percorremos paralelamente e das ilusões que um dia tive, para simplesmente desaguár no nada, no lugar nenhum. Lembrei dos longos blues de Ana**, nos quais coloquei seu nome e sofri tal qual o autor, procurando em tanta gente aquilo que gostaria de ter encontrado nos teus braços.

E tudo isso para perceber que hoje, depois de tanto tempo, tanto calo e tantas passagens: aquilo tudo que julgava sua herança agora é unicamente meu. Que posso vaguear por terrenos perigosos, as filas do pão***, por Paulinho Moska e Lulu Santos, por Holden Caulfield e García Márquez sem aquela gastura, aquele nó no peito.

Também aprendi a me valorizar, mesmo que seja meio clichê, auto-ajuda - mas é verdade. Também aprendi neste meio tempo que tenho meu brilho e não preciso ficar barganhando migalhas de amor: mereço mesmo é o bolo inteiro, confeitado, velas por cima, pique-pique-pique-hora-hora-hora-rá-tim-bum. E que lá no fundo (e por mais que doa a idéia de ter sido sempre preterido), se você nunca voltou, não foi por falta de deixar as minhas portas abertas e o caminho bem iluminado.

E quando escutava Pitty repetidamente, percebi que esta música, de certa forma, que agora é sua. Não de agora - mas talvez daquele momento-quando, no segundo após o início do processo em perceber que, por mais que você fosse imensamente especial na época: já foi.

"E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu"

* Cut Here - The Cure
** Sem Ana Blues - Caio Fernando Abreu
*** Último Romance - Los Hermanos

quinta-feira, junho 12, 2008

Os falsos sentimentos

Acordo todos os dias, fito o espelho e repito sete vezes num fôlego só: que seja doce. E abro as janelas pra ver o Sol entrar, cantarolo qualquer música feliz, cumprimento os vizinhos no elevador e até fico procurando essas pequenas coincidências em cada passo que dou até o dia realmente começar.

Banco a Pollyanna surtada diariamente para não entregar meu coração a uma espiral de ódio e rancor.

Porque, quando vejo, já estou destilando respostas duras e petulantes. Como minha mãe bem disse, dentro da minha irritante onipotência que me é natural. Quando vejo, estou rifando todo amor que sinto por coisas tão vagas quanto liberdade, auto-suficiência, orgulho.

Não que eu seja puro-e-casto - passo longe de Madre Teresa de Calcutá e sempre achei que o caminho da santidade é tão incerto quanto os caminhos da perdição. Também me reservo ao direito da vingança indolor, das maldades controladas. Só não quero que o que é uma resposta saudável a tanto desamor tome proporções incontroláveis. E que tanta gente que me é cara seja consumida nesta fogueira de vaidades.

Portanto, repito sempre: que seja doce. Abro as cortinas num sobressalto e fito a janela: pra achar até os dias meio foggy tóxicos de Sampa irresistivelmente belos.

quinta-feira, junho 05, 2008

Freedom

Não basta pagar as próprias contas, a própria cerveja, as próprias tralhas. Não basta ter um (ou dois, dependendo) empregos e acordar diariamente com tesão no que se faz. Não basta ter o carro, o DVD, o laptop e todas as quinquilharias fúteis que deixam os dias mais alegres. Não basta ter as quintas-feiras sempre reservadas pra aquele programinha, com aquela musiquinha, na esperança semanal que alguma coisa aconteça. Não bastam os planos vagos, tipo Londres em 3 anos, tipo Argentina já já. Não basta ter a vida rolando, brand new e sem muitas dificuldades, numa mornidão quase taquicárdica.

A minha liberdade tem outra cara. Aconteceu há uma semana, de súbito, antes das 7 da manhã. Meio trágica, meio irresponsável - meio perdas e danos, meio bomba de seis meses atrás. Mas assim que os dias se seguiram, nada pesou. Nada ficou. Só essa sensação de: ainda bem. Agora vai.

Estou livre.