segunda-feira, maio 26, 2008

Shortcuts aleatórios

Um. Descia a Peixoto Gomide em passos ébrios, lentos. Cruzava vagaroso os caminhos até movimentados ao virar da esquina naquela noite particulamente gelada. Nem sei o que procurava - acho que só um pouco de distração barata, um entorpecimento dos sentidos, nada além. Mas te encontrei ali, depois de dois passos, e me desmanchei num sorriso inesperado. Quando tempo sem se ver, duas semanas? E foi aí que nos abraçamos, daqueles abraços um pouco ébrios, lentos, longos. Quanto tempo ali? Nem sei. Só sei que com vagar percebi os ciclos de sua respiração quente na minha clavícula. Foi aí que te apertei forte, com você repetindo o movimento em seguida. Até minhas mãos escorregarem até sua nuca e eu brincar inadivertidamente com seus cachos e você escorregar a sua na minha nuca descoberta do cabelo cortado um pouco demais. E chegamos mais perto, mais perto, até que fechei os olhos sem saber o que estava fazendo. Você me disse: está tão perfumado. E parecia cena de Caio Fernando: aquele abraço longo, recheado de reticências - sem que nada ali, realmente, fosse acontecer.

Dois. Eu disse que esse afeto tremendo é ponto de partida. Você disse que só este afeto não basta. Eu cantarolo Cazuza como prece: "quero a sorte de um amor tranquilo". Você diz que pra ser amor, só se for os vertiginosos. Eu quero pontuar os silêncios. Você acha que silêncios falam por si só. Eu digo que sempre tive medo de ultrapassar aquele ponto. Você diz que amores são puramente instintivos. Eu quero estabilidade, você confessa sua adolescência tardia. E neste brincar de "A Seta e o Alvo", vejo tanta coisa fofa se esfarelar, asfixiar: sem que nada pudesse necessariamente ser feito além daquele protocolo inútil das boas intenções.

Três. Você me diz que as pessoas estão tão desinteressantes, os dias tão banais. E eu compreendo. Você me pergunta, aliás, comunica: vou ao Rio de Janeiro - e eu concordo: vai, vai mesmo. Mesmo que seja essas paixões lancinantes e pungentes, pra deixar coração sangrando meses depois da partida. Mesmo que seja daquelas coisas que dangerizam a alma, subvertem o estômago e nos deixam tão nus quando elas passam. É presente de nós para nós: uma possibilidade de vida, endorfinas ilimitadas e uma historinha cor-de-rosa, mesmo que seja sob o signo da melancolia mais doce.

Quatro. Você me liga enquanto estou no Tietê: quero te ver. Sorrio meio besta, meio sem graça: eu também. Vou até Paraíso, contando as estações. Deixo minha mala, tomo meu banho de gato, atravesso uma Paulista caótica à pé até a Augusta e sentir, sabe aquilo? Borboletas. Aperto sua mão bem forte, atravessamos os Jardins conversando banalidades. Queria isso agora, queria isso sempre - murmuro baixinho, sem que você perceba.

Cinco. É de manhã bem cedo, acordo dois minutos antes do despertador. Vejo você dormir: pernas com pernas, cabeça posta no meu ombro. Te acordo num sussuro: são cinco e meia. Você acorda, cara tão amassada da(s) noite(s) mal-dormida(s). Tem Congonhas às sete da manhã, dead-line sem muito o que fazer. Enquanto vejo você aprontar, lembro de nossa conversa na Oscar Freire: não gosto destas histórias, de achar alguém que gosto pra saber que mora longe, longe. E você responder: mas nunca se sabe o dia de amanhã. E se fosse um filme, neste momento tocaria Chico Buarque: "Não se afobe, não, que nada é pra já... O amor não tem pressa". E no momento em que te coloquei naquele táxi, pra bem longe bem longe de mim, tive a certeza: um caquinho do meu coração agora também repousa às margens da Baía de Guanabara, bem debaixo dos braços do Cristo Redentor...

segunda-feira, maio 12, 2008

Tolices

Isto aqui será hoje apenas sobre coisas tolas, desimportantes aos olhos desses aí que vivem caçando objetivos, metas precisas. Porque já aprendi que tenho esse jeito meio tolo, meio irracional. Já aprendi, de cor e salteado, que este meu coração é afeito a este tipo de tolices, leviandades.

Não que você seja leviano - pelo contrário, não me entenda mal. Mas vem cá: não é algo tão sem propósito este "estar gostando" sem mesmo conhecer direito o rosto, o peso dos dedos durante uma conversa esquiva, o franzir de sobrancelhas durante qualquer dúvida deliciosa? Este gostar que se ergue apenas em alguns pré-julgamentos, algumas referências cruzadas, algumas vivências em comum, em poucos sambas que, sem saber, cantamos juntos no mesmo momento.

Já me disseram e eu concordei: isso é ilusão, pura ilusão. Tão sei, porque te desenho à imagem e semelhança de tudo aquilo que já desejei e nunca aconteceu. Tão sei, porque sem querer já marquei encontros contigo à meia luz em cantinas italianas, dancei "Moon River" na bagunça do meu apartamento, já te levei dentro dos meus porres num buteco barato qualquer da Augusta, já sofri pela espera dos minutos que te prenderiam além do tempo nos congestionamentos desta cidade cinzenta, já vi filmes contigo de mãos tão dadas com medo de te perder por algum dia.

Mas é esse tipo de ilusão que me salva desta rotina esmagadora que não redime nem mata, dessa melancolia da espera por viver algo que seja realmente marcante, dessas pessoas tão vazias que nada acrescentam ao final de uma noite. Uma ilusão que é meio esperança de que talvez Seja (notou a maiúscula?), por todas essas linhas tortas que o destino às vezes teima em escrever. E mesmo se for só ilusão doce e no final você me deixar no meio da rua sem nada além, tão sedento de tanto amor não dado - ainda sim terá sido lindo pela promessa do que poderia ter sido e não foi.

E lá no fundo, por mais que tudo o que tenha dito seja baseado apenas nas minhas vagas e doces ilusões, tenho uma (ai!) intuição de que você vale a pena. Você é diferente, coisa rara neste mar de banalidades e cotidianiedades que estamos chafurdados. Quando penso em você, já levanto um inquérito longo sobre portos que já passaste, dos livros que já leste, dos pontos cegos que talvez eu pudesse iluminar. De tudo o que já tenha te arrebatadoramente encantado. E, sei lá, fazer planos miúdos como o jantar da semana que vem, um braço de lírios brancos na mesa quando você acordar e eu não estivesse, um bate-e-volta pro Guarujá, ou até mesmo um mês numa praia da Croácia que tanto tenho vontade de conhecer.

São basicamente estas, minhas sinceras tolices (ou seriam sinceridades tolas, fico na dúvida!). São ilusórias, ilógicas e irracionais. Mas tenho aprendido que a vida não é dessa precisão matemática, sem cálculos nem formas. E estas tolices, embora com uma possibilidade grande de nunca virem a acontecer, acabam por me acalentar nestas noites frias. Afinal, já me disse uma grandíssima amiga: o amor é uma grande malha de insistência, paciência e espera. E, de confiança tão cega que tenho nela, até acredito. Porque, tenho que confessar: ainda não aprendi a ser de outro jeito.

E insisto. E sou paciente.

E espero...

terça-feira, maio 06, 2008

Álgido

Aprendi uma palavra com Menalton Braff, num dos melhores contos que já li em minha vida: álgido - que quer dizer muito frio. E lembro disso enquanto contemplo uma Sampa gélida, do alto do décimo andar. Contemplo Sampa imersa por essa atmosfera álgida e dias paradoxalmente tão ensolarados. E parece que, em dias assim, o Sol aprende um jeito diferente de bater nos prédios ao entardecer, tingindo-os e também as nuvens, de um alaranjado mortiço e belo. Sempre distraído, nestes dias, me pego perdendo 10 minutos do meu tempo enquanto observo os momentos derradeiros do final dos dias.



Isto, porque, estes dias gelados e iluminados têm sido bem metafóricos pra mim.



***



E nestes dias tão gelados, quem povoa estas minhas horas vazias é Nara Leão. E não que a música necessariamente se aplique, mas não há como passar ileso quando escuto: "Eu trago o peito tão marcado de lembranças do passado e você sabe a razão". Tenho me cansado destas promessas de amor que se esgelham, para desembocar num nada que nem dói, nem aquece.

Porque sei onde tudo isso vai desembocar: "Todos acham que eu falo demais"...

quinta-feira, maio 01, 2008

Deixa estar

E assim você chegou, antes mesmo de ter propriamente chegado. E assim foi ocupando, sem oficialmente ter ocupado. E me fazia bem novamente essa sensação de bem-querer, este magnetismo. Era bom ter algo para mastigar enquanto o ônibus não vinha, enquanto a caneta ficava estendida na ponta dos dedos inutilmente, esperando o raciocínio terminar.

Até pensei em mandar: "Tenho trabalhado tanto..." e era verdade: "...pensado tanto em você". Naquela ternura das possibilidades que se abrem, sabe? Escapava os olhos para minha escala toda cheia de datas ocupadas procurando brechas, sem encontrar soluções. Me frustrava, mas sempre pensava: talvez dê certo, sei lá - já vi tanta coisa tão certeira nesta vida desandar. E fui indo. Fui levando, daquele jeito: despreocupado, crente no acaso. Vai que.

E nestes dias frios e nublados de Sampa, agora essa solidão até dói um pouco - do telefone que nunca toca, de todo o desejo que se construiu sem para ter onde ir. De ter erguido outra ilusão, esperando cinematografias - para nada acontecer.

Outra para o relicário. Deixa estar.