quinta-feira, abril 17, 2008

Abril

Acordo nestes dias frios e cinzentos de Sampa com uma leve felicidade taquicárdica de sentir o ar gelado doendo as narinas, trincando os dedos. Faço diariamente o mesmo caminho, duas quadras até o ponto de ônibus, numa atenção distraída pelas pequenas coisas, as pequenas coincidências, as milhares de referências que venho acumulando nestes 23 anos de vida.

A verdade é que essa é a única alegria que tenho tido nestas últimas semanas. Tenho trabalhado tanto, tanto - quase 15 horas por dia sem janelas, iluminado pelas luzes dos monitores da UTI e a luz mortiça das lâmpadas fluorescentes do Hospital. Nunca senti minhas mãos tão inábeis ao lidar com tanta coisa grave, maiores que mim. Tento me fazer de forte e simular uma segurança além do que já tenho ao dar as más notícias, os prognósticos, as condenações. Notícias boas, otimismo, têm sido tão raros. Mas o fato é que tenho gostado até mais do que eu esperaria desta rotina opressora, quase workaholic: a ponto de sempre levantar no outro dia sempre com um sorriso vago e fôlego renovado para outro dia difícil.

Estou tão imerso nesta rotina que, quando tarde da noite apóio a cabeça na vidraça do ônibus de volta, não penso em nada além de vagos tecnicismos médicos, as obrigações do dia seguinte. Agora lembro de Caio F., em Carta Anônima: "Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você" e gostaria que isto estivesse acontecendo. Não acontece. Não sinto saudades, não sinto faltas, não faço planos, não telefono ou destilo esperanças. Para quem sempre foi movido de paixões em paixões, acho que nunca tive um mês tão árido quanto este abril que principia em terminar.

Depois de perceber como a vida é frágil e toda essa nossa impotência frente aos desequilíbrios do corpo, acho que nunca mais serei o mesmo.

Nenhum comentário: