sexta-feira, março 14, 2008

O Último Romance

“II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente”*
(Camille Claudel)

Num estalo, foi essa frase que veio em minha cabeça nos longos trajetos que fiz entre São Paulo e Brasília. Existia sempre alguma coisa ausente que me atormentava*. Martelava, martelava e eu tentava tergiversar - pegava um livro, olhava a paisagem. E a frase voltava. Mas eu não fazia idéia por que.

Refazia cálculos, repassava histórias. A verdade era que tudo o que sempre quisera estava ali, ao alcance das minhas mãos: uma certa devoção preocupada, um certo ar cosmopolita, quatro línguas e a Europa Ocidental toda já visitada, profissão legal, dotes culinários, apartamento impecavelmente decorado. Era tudo o que havia pedido. Era tudo o que havia sonhado. E não era suficiente.

O fato é que sempre me conheci. Sempre soube reconhecer, sem muitas dificuldades, Os Sinais. Minhas paixões sempre foram fragorosas, abissais. Taquicárdicas de perder os sentidos, os rumos, as estribeiras. Irracionalidades, fantasias românticas, quase delirantes - de paixões lancinantes, quase febris. E ali, depois de duas semanas eu tinha um certo conforto, até meio egoísta, de estar dentro de um magnetismo de bem-querer: e só.

Daí racionalizei - por mais que soubesse que essas paixões abissais são sentidas com as pontas dos dedos, não com o exercício do cérebro: talvez fosse assim. Talvez as paixões reais fossem assim, um tanto mornas, outro tanto despreocupadas. Das coisas que é preciso tempo para frutificar para que o discurso iguale, as palavras encaixem, a sintonia fina se faça. Talvez as paixões reais fossem menos cinematográficas e erguidas na velocidade lenta das cotidianidades. Talvez amar fosse isso aí.

E voltava Camille, como uma condenação. As coisas ausentes. Porque eu não queria amor assim, mesmo que me prometesse jantares em família, fim de semana no Guarujá, restaurantes sofisticados, baladas VIPs, promessas de estabilidades. Recebi cartas, carinhos, caronas e compreensão. Fui adulado, elogiado, até por assim dizer amado. E prosseguia naquela espera paciente pela epifania. O momento hollywoodiano. Aeroporto, Casablanca, ou passeio de barco no Sena, ou qualquer coisa do tipo.

E não veio, não viria. Tão irônico e melacólico o fim: na minha espera paciente para prencher a ausência, no dia do meu aniversário, fui acordado com uma ligação às dez e pouco da manhã. O conteúdo era mais ou menos assim: "Sabe, minha vida está muito complicada e não quero te dragar junto para o caos em que ela se encontra" (as palavras são minhas, resumindo vinte minutos de desculpas clichês).

Lógico que desabei e aquela segunda-feira foi uma das piores que passei. Não pela rejeição per se, percebi. Foi porque ela acontecera bem num dia em que esperava só que coisas positivas deveriam acontecer. Foi pela falta de tato alheia, em talvez perceber que poderia ser poupado em um dia para que esse assunto ingrato não monopolizasse um dia de festividades. Foi em haver tanta promessa de happy endings, para tudo terminar de uma forma tão irritantemente idiota.

Passei uns dois dias amuado, cruzando uma Sampa anormalmente causticante sem muito rumo. Até ser salvo por Juno, num dia de balde de pipoca e litro de refri, com a música mais meiga do ano: "Anyone else but you". Porque até as tragédias do amor tendem a ser cômicas depois que a dor de cotovelo passa e se ri até a exaustão das nossas inabilidades. Daí, passou. Saí de novo, joguei meu corpo, tive minha vingancinha mesquinha.

Hoje, não sei. Talvez a coisa ausente fosse uma espécie de feeling, sexto sentido: não se entrega baby, não vai dar certo. Talvez seja o excesso de idealizações, que sempre se convertem em frustrações quando ela não acontece. O que fica de lição para mim é que talvez Os Sinais sejam precisos. Que o amor seja mesmo essa coisa taquicárdica. E essas coisas ausentes se encaixam entre os espaços inconclusos dos sentimentos que não se sabem - só dá pra saber somente é que eles, sozinhos, não bastam.

Nenhum comentário: