quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Insustentável

Há quase dois anos não escrevo para você. E não escrevi antes porque estava no meu direito da mágoa, do rancor e de ser, só para variar, mais emotivo que racional. Não escrevi porque depois daquele dia em que te liguei e você tergiversou, parecia que tudo havia dissolvido. Tudo que havíamos discutido com tanto esmero e toda identificação pautada em nossos diálogos lentos, sido só superficialidades, dissimulações.

Hoje percebo coisas diferentes. Hoje percebo, dentro de tanta gente que passou em minha vida, foi você quem foi mais fundo. De todas nossas conversas tangentes, sempre tangentes, ficou o meu desenho mais preciso. Navegávamos por entre banalidades e filmes, livros e idéias. Compartilhávamos nossas solidões povoadas, nossas dores sofisticadas pequeno-burguesas, tantos becos sem saída.

Fomos além da intimidade cotidiana, da mediocridade necessária de faculdade, bebedeiras, família, contas a pagar. Fomos além das limitações visíveis: a falta crônica de dinheiro, as quilometragens, de tanto que prometeram e nunca, nunca chegou. Conversávamos em outros termos: o dilema da leveza de Kundera, todo amor tonto de Caio Fernando, da beleza discreta da bossa nova. Éramos companheiros dentro de toda nossa fragilidade.

Lembrei-me de como me senti tão frágil aos seus pés: com "Os Dragões..." nas mãos, presente de aniversário escolhido a dedo e a cesta de Páscoa mais linda que pude achar. Senti-me como no conto, nos primeiros minutos: com todo um paraíso desenhado, apodrecendo, por um próprio erro de cálculo. Daí abri janelas, me entreguei ao rancor. Troquei "Os Dragões..." pela belicoso livro de memórias de Churchill. Daí, o resto, você até sabe.

Te resgato dentro de uma epifania sem propósito definido. Porque tenho gerado isso: reli "A Insustentável...", para te reencontrar inesperadamente em parágrafos e capítulos. Te revi na morte prematura de Heath Ledger, naquele Pinguim que emendou num cinema e um bocado de palavras que finalmente ficaram grifadas. Te revi em García Marquez, lembrando um dos meus aniversários mais doces cravado noutro Carnaval. Te revi quando revi Sofia Coppola. Foi assim que conclui o quanto você ainda fazia parte de mim. Ainda faz. E é bom te ter assim comigo, muito embora você nem desconfie.

E agora, de pazes feitas, te guardo com ternura e afeto. Na gaveta das coisas doces, independente do desfecho. Adultos, um pouco maduros, até melhores. Para zerar contas e aproveitar tudo aquilo que tínhamos de melhor...

Um comentário:

Leonardo R.J.Z. disse...

Muito bom esse mesmo"