quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Paulistanas

Foi ontem que entreguei finalmente os pontos para concluir que a lua-de-mel com Sampa havia acabado. Nada de novo, actually. Mas sobra essa sensação de imobilidade - não profissionalmente, porque no Hospital a coisa deslancha sem muito dificuldade. O problema é o resto.

O problema é estar sem teto, sem grana, carente e perdido. Os apartamentos, tão estratosféricos e quase ausentes. O lazer, tão caro e meio ridículo de ser feito a sós. Tão acostumado com tanta gente por perto, palpitando, chorando e rindo, tenho tido dificuldades nestes dias de longos monólogos internos.

Lógico que eu sabia que seria difícil. É mudança, readaptação e, infelizmente, o tempos das coisas não refletem o tempo da gente. Sei também que isso tudo é temporário e que, em breve, terei meu canto, meu salário e meu suporte. Mas me reservo o direito de ser imediatista: hoje os dias são de lamentar o que ficou para trás, todo o conforto, todo o carinho. É dessa melancolia pesada que vai se acumulando igual cansaço. É dessa sensação de estranheza do sotaque que não encaixa, das esquinas que não são minhas.

Quem me salvou ontem foi Juno, no melhor esquema "eu-mereço": um balde de pipoca, um litro de refrigerante, depois de um cachorro-quente caprichado. Filme meigo, doce, com sua dose de sarcasmo. Há quanto não ia ao cinema. Sai leve, peguei o metrô deserto quase virando meia-noite, dormi até bem.

O fato é que, enquanto a vida não encaixa, sigo buscando estes pequenos prazeres.

E vamos indo.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

23 anos

Não, não deixarei um fato pontual subverter a ordem otimista do novo ano que aproxima. A cidade é nova e, finalmente, meu lar. Os desafios são novos e decisivos. As perspectivas, brilhantes na medida do possível.

É a Vida que se encaminha, com seus atropelos e ciladas. Mas, apesar das dificuldades, cada vez mais valendo a pena por ser vivida.

Só este vazio temporário que me incomoda. De lembrar tanta gente que não está aqui do lado para me proporcionar a benção de um abraço apertado. Mas sei que cada um, de sua forma, está mandando as boas energias. E repleto de todo esse amor que tenho e divido, sorrio dentro dessa cidade cinzenta e nublada.

Hoje, particularmente, um pouco mais.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Dia D

Não me perguntem: talvez seja esse cansaço, talvez seja culpa desta indecisão. Já ouviram falar em dia D? É amanhã. Seja de felicidade, seja de exílio. Independentemente do que aconteça, a impressão é que falta alguma coisa. Essa sensação de ausência, como nunca havia sentido antes.

No final das contas, é isso que falta: um pouco de sentido.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Adeus Paraíso

A Estação Paraíso, tão ironicamente, ficava para trás como um retrato triste do que poderia ter sido e talvez não seja. Tão Caio-Fernando: lembrei dos Dragões. Lembrei dos skycrapers da Paulista, ao longe, circundados por uma nuvem provavelmente tóxica, emoldurando um daqueles momentos de arrebatação. Música lenta, noite tépida: um beijo.

Minha breve história paulistana se escreve por entre as estações de metrô. Santa Cruz e todas as incertezas de um novo reinício. Paraíso, o primeiro ponto de partida para uma jornada longa. Alto do Ipiranga, a primeira possibilidade de sossego. E agora, quando via as estações seguirem até o Tietê, tão inesperadamente quanto uma traição, deu vontade de chorar.

Às vezes me pergunto: por quê? Porque sempre a possibilidade mais brilhante tem que se revelar para que, imediatamente depois, seja retirada de mim? É sempre assim...

E não que eu procure uma justificativa plausível dentro de todo este caos que nos circunda. Mas o que é frustrante, sempre, é essa impressão de estar no lugar certo, na hora errada.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Insustentável

Há quase dois anos não escrevo para você. E não escrevi antes porque estava no meu direito da mágoa, do rancor e de ser, só para variar, mais emotivo que racional. Não escrevi porque depois daquele dia em que te liguei e você tergiversou, parecia que tudo havia dissolvido. Tudo que havíamos discutido com tanto esmero e toda identificação pautada em nossos diálogos lentos, sido só superficialidades, dissimulações.

Hoje percebo coisas diferentes. Hoje percebo, dentro de tanta gente que passou em minha vida, foi você quem foi mais fundo. De todas nossas conversas tangentes, sempre tangentes, ficou o meu desenho mais preciso. Navegávamos por entre banalidades e filmes, livros e idéias. Compartilhávamos nossas solidões povoadas, nossas dores sofisticadas pequeno-burguesas, tantos becos sem saída.

Fomos além da intimidade cotidiana, da mediocridade necessária de faculdade, bebedeiras, família, contas a pagar. Fomos além das limitações visíveis: a falta crônica de dinheiro, as quilometragens, de tanto que prometeram e nunca, nunca chegou. Conversávamos em outros termos: o dilema da leveza de Kundera, todo amor tonto de Caio Fernando, da beleza discreta da bossa nova. Éramos companheiros dentro de toda nossa fragilidade.

Lembrei-me de como me senti tão frágil aos seus pés: com "Os Dragões..." nas mãos, presente de aniversário escolhido a dedo e a cesta de Páscoa mais linda que pude achar. Senti-me como no conto, nos primeiros minutos: com todo um paraíso desenhado, apodrecendo, por um próprio erro de cálculo. Daí abri janelas, me entreguei ao rancor. Troquei "Os Dragões..." pela belicoso livro de memórias de Churchill. Daí, o resto, você até sabe.

Te resgato dentro de uma epifania sem propósito definido. Porque tenho gerado isso: reli "A Insustentável...", para te reencontrar inesperadamente em parágrafos e capítulos. Te revi na morte prematura de Heath Ledger, naquele Pinguim que emendou num cinema e um bocado de palavras que finalmente ficaram grifadas. Te revi em García Marquez, lembrando um dos meus aniversários mais doces cravado noutro Carnaval. Te revi quando revi Sofia Coppola. Foi assim que conclui o quanto você ainda fazia parte de mim. Ainda faz. E é bom te ter assim comigo, muito embora você nem desconfie.

E agora, de pazes feitas, te guardo com ternura e afeto. Na gaveta das coisas doces, independente do desfecho. Adultos, um pouco maduros, até melhores. Para zerar contas e aproveitar tudo aquilo que tínhamos de melhor...

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Primeiros dias

Ficam para trás a dura poesia concreta de tuas esquinas, a deselegância discreta de suas meninas. Nada de leveza, nada de Paulista sem pressa, nada do cinza que circunda um bocado de beleza. Nestes primeiros dias, só há o caos, a solidão e as preocupações. O metrô é tão somente um instrumento de ir-e-vir. Não há vagas em lugar nenhum. As responsabilidades, crescentes e um pouco amedrontadoras. E será que o dinheiro vai dar no final do mês?

Corro, recorro, discorro sem cansar. Pelo menos tento, mas canso no final das contas. Faltam os braços longos para afagar devagar, falta o tom de voz tão conhecido para rir das pequenas desgraças cotidianas, falta esse calor humano pra aliviar um pouco do peso. Sinto tanta falta de tanta coisa, é verdade. Fico refém do Big Brother, dum lar que não é meu, destas paredes estranhas.

Mas o que sobra é otimismo, apesar da garoa que cai chata. Dos pés que doem procurando apartamento. Da saudade que bate ligeira, fisgando panturrilha. É assim que deve ser, é assim que vou crescer. E crescer, infelizmente, também dói. É perda, um pouco de sacrifício. É pagar pra ver.

Um pouco de paciencia, parcimônia. Enquanto as coisas, lentamente, se revelam.

É isto me guia nestes dias iniciais tão cinzentos.