sexta-feira, janeiro 25, 2008

Os estertores (2)

Pensei tanto em você nesta última semana, sem necessariamente pensar em você. É difícil, mas tento explicar: pensei em você em como você seria se estivesse comigo hoje. Pensei em você como você era para mim num passado not-so-far-away. Pensei em você porque estava na melhor da semana da minha vida e, de repente, ficou um buraco. Assim, buraquinho pequeno e discreto, tipo de traça no lençol. Buraquinho que não atrapalhou que os dias fossem de uma felicidade sem pudor. Mas era tipo faltar parte do todo, para completar o quadro de perfeição. Faltou você, como era.

Porque acredito que mesmo a felicidade mais aguda e sincera fica constrangedora quando não se ter com quem dividir. E não entenda que não tive com quem dividir, muito pelo contrário: todo mundo que importava estava aqui comigo, aqui do lado, segurando na mão, rindo as alegrias, oferecendo ombro durante meu choro coalhado de soluços. Eram meus pais e irmão, todos os tios e avós, todos os primos e agregados, todos os amigos representados - cada um de braços abertos e brilhos nos olhos de reconhecimento pela grande vitória alcançada. Mas é diferente. Seria diferente contigo. Seria diferente porque foi você quem aturou meu mau humor depois de um dia cão, foi você quem me ninou depois de uma madrugada em claro, foi você quem acompanhou minha rotina alucinante por tão curto tempo, mas com intensidade na medida exata para entender como tudo aquilo era importante.

Faltou essa alegria para dividir. E fiquei, como Clarice fala, com um presente na mão sem ter como abrir. Era seu. Era um seu de ontem, quando era primavera, quando ainda pensava em cruzar a Europa ou fazia pequenos planos conjuntos.

E até pensei em escrever isso diretamente para você. Numa carta (porque você sabe, só atinjo essas profundidades quando escrevo) com caneta tinteiro, sulfite amarelo. A última coisa a se fazer antes de ir: deixaria na sua porta, bem Casablanca última cena. Só para dizer que, nesse tempo todo tão longe e sem notícias, tão esquivo e lacônico percebi: sinto sua falta. Não sua falta de hoje, é como essa felicidade que falei. Sinto falta do estar junto, de acordar insone de madrugada só para escutar o ressonar alheio. Não é algo que dê para reiniciar hoje, agora, borracha no passado - não é esse o ponto.

Queria te falar, que pelas suas mãos aprendi que é disso que eu preciso.

Que não será com você, não sei que cara vai ter, nem quando vai chegar. Mas é objetivo, meta, desejo ao soprar velas de aniversário.

One is the loneliest number. Isso é o fato.

E espero sinceramente que, um dia, você perceba isso.

Nenhum comentário: