quinta-feira, janeiro 10, 2008

A última noite

"No fundo, por que tinha vindo? Agora sabia. Fizera essa viagem para se convencer de que a realidade é mais do que o sonho, muito mais do que o sonho"
(Milan Kundera)

Você não sabe, porque não contei - afinal, resolvi te poupar dessa minha sensibilidade exagerada, dessas minhas crises de pânico que acontecem pelas coisas não acontecerem conforme o filminho ridículo que sozinho resolvi na minha cabeça. Você dormia, ressonando naquela cama imensa enquanto me fundia em pensamentos fúteis.

E não que eles sejam fúteis de uma forma desabonadora, não é isso: eles são lindos de tão inocentes, são lindos pela esperança quase desesperadora dos quais são construídos. Mas são tão intensos, porque não aprendi a viver senão na ponta dos dedos, na superficialidade da epiderme. Não aprendi a viver nada além dessa vertigem, desse enjôo, da busca instantânea pelo "the end", da felicidade que todos merecemos.

Porque toda vez que existe a identificação, dá nisso: essa taquicardia, essa sede imensa, esse vazio monstruoso. Porque sempre achei essa coisa de amor tão rara e difícil, essa coisa das referências certas dentro dos planos certos, com trilha sonora e alguns momentos tensos. Porque sempre quando o encontro, imagino que nunca mais se repetirá.

Por isso que sempre peço que o amor seja lento e imperceptível, de amarras lentas e fogo brando. Daquele jeito que se enrola com vagar e zelo, para que, ao notarmos, estaríamos com os dois pés bem enterrados em solo firme e fértil. Mas não - o amor sempre se revela a mim como queda, piscar de possibilidades, bungee jump. Daí rola desespero, artificialidades, essas insônias complicadas pelo o que não aconteceu. Daí, sempre fico com a impressão que tudo deu errado, tudo culpa dessas mãos inábeis e pela voragem de ver demais: e quando se quer demais, acaba por não se conseguir nada mais.

E reconheço, juro, que toda a culpa seja minha. Das frases feitas, do tipo "então porque não fugimos para Patagônia?". Das idealizações. Das malditas referências, tipo cartas de Caio Fernando: "Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena". Dos filmes que assisti, tipo Céline e seus beautiful details. Da poesia. Do entorpecimento do encontro, após a busca por tantos becos escuros, tanta gente entediante e chata, por todo o tédio das conversas desconexas.

A diferença, talvez sutil e pelas mãos de Kundera: é separar o sonho da realidade. É depois de me consumir febrilmente pela noite, dormir pela manhã - suportando todo o peso da minha fraqueza. Acordar um pouco renovado, ponta de melancolia na verdade - mas firme. The great cliche: que seja eterno enquanto dure, que o destino sopre doce, enquanto trilhamos caminhos sem saber se são certos ou errados. E que talvez seja só isso.

Talvez fique só assim.

E foi bom.

E que isso, per se, deveria me bastar...

Nenhum comentário: